Uma história Meia Noite
O envelope azul
Não abri o envelope naquela noite. Pousei-o na bancada, ao lado das contas, e fui dormir com a convicção desagradável de que o papel podia saber mais sobre a minha vida do que eu.

Não abri o envelope naquela noite. Pousei-o na bancada, ao lado das contas, e fui dormir com a convicção desagradável de que o papel podia saber mais sobre a minha vida do que eu.
O nome de Sofia estava escrito na frente. O envelope vinha de uma editora, mas a carta dentro parecia ter várias páginas. Ela sempre recebia contratos por email. Quando chegou a casa, viu-o e guardou-o depressa na mala.
«Mais trabalho?»
«Talvez.»
Eu tinha quarenta e cinco anos; Sofia, quarenta. Vivíamos juntos havia sete e trabalhávamos os dois em casa. A intimidade tinha adquirido uma organização de escritório: quem precisava de silêncio avisava, quem acabava primeiro fazia o jantar. Eu acreditava que essa organização nos tornava próximos. Sofia, soube depois, tinha começado a sentir-se cercada por ela.
Durante três dias, não falou do envelope. Eu não perguntei. Preferi a companhia das hipóteses. Era uma maneira cobarde de não arriscar uma resposta.
Na quinta-feira, encontrei-a a imprimir um bilhete de avião. A impressora falhava as margens; Sofia estava de joelhos, a puxar uma folha dobrada. Disse-me que tinha aceite uma residência de escrita em França. Três meses.
«Quando é que soubeste?»
«Na segunda-feira.»
Olhei para a mala. Ela percebeu.
«Candidatei-me em maio.»
Maio ficava longe. Lembrei-me de jantares, passeios, manhãs em que a ouvi telefonar na varanda e pensei que eram assuntos banais. A distância que agora aparecia dentro dessas recordações irritou-me mais do que a viagem.
«Pensei que éramos uma equipa.»
A frase saiu como uma cobrança. Sofia levantou-se.
«Somos. Mas não pedi uma autorização.»
Tinha razão. Eu também tinha razão em querer saber. Ficámos presos às duas verdades, a defendê-las como se uma precisasse de derrotar a outra.
Nessa noite, jantámos em separado. De manhã, Sofia deixou a carta sobre a mesa, aberta. Não era um pedido de desculpa. Era uma coisa que já devia ter partilhado.
Li devagar. A residência tinha um quarto pequeno, uma bolsa modesta e uma biblioteca de que ela me falara anos antes. Reconheci o desejo antigo e senti vergonha por o ter recebido como uma ameaça nova.
Quando Sofia voltou da rua, disse-lhe que gostaria de ouvir como se candidatara. Ela contou. Não a interrompi com os meus receios. Esses ficaram para uma segunda conversa, em que consegui dizer que tinha medo de deixar de lhe fazer falta.
«Fazer falta não pode ser o teu trabalho», respondeu.
A frase magoou-me. Também me ajudou.
Na noite antes da partida, fizemos jantar juntos. Sofia pediu-me que a acompanhasse ao aeroporto. Eu perguntei se podia visitá-la no segundo mês. Ela disse que sim, desde que eu marcasse um hotel para alguns dias e não transformasse a visita numa mudança disfarçada.
Abracei-a. Sofia ficou comigo junto à janela até arrefecer o prato que ainda segurava. Beijámo-nos sem prometer que tudo seria fácil.
Durante a residência, escrevemos cartas. À mão, uma por semana. Descobri que às vezes lhe contava, numa página, coisas que não lhe dizia quando passávamos o dia na mesma sala.
Guardei os envelopes numa gaveta. O primeiro era azul. Já não receei abri-lo.


