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Uma história Meia Noite

A carta que chegou tarde

O envelope estava dentro de um manual de fotografia que Marta não abria havia dezassete anos. Reconheceu a sua letra antes de se lembrar do que tinha escrito e sentou-se no chão da arrecadação para ler sem pressa.

Tomás Reis7 min de leitura Sensual
Uma carta aberta sobre a mesa junto a uma janela, com luz de fim de tarde.
Ao teu ritmo

O envelope estava dentro de um manual de fotografia que Marta não abria havia dezassete anos. Reconheceu a sua letra antes de se lembrar do que tinha escrito e sentou-se no chão da arrecadação para ler sem pressa.

Tinha agora quarenta e três anos. Na carta, tinha vinte e seis e uma certeza que já não conseguia reconhecer como sua. Escrevera a Nuno, um colega de vinte e sete, para lhe dizer que recusara uma proposta de trabalho fora do país e que queria saber se podiam tentar alguma coisa juntos.

Nunca entregara a carta. Dois dias depois de a escrever, Nuno aceitara um contrato em Berlim. Marta soubera a notícia no café onde ambos almoçavam. Felicitara-o, pagara a sua parte e guardara o envelope no livro que levava na mala. Na semana seguinte, já falavam de organizar a despedida.

A vida continuara sem um acontecimento que ninguém sabia ter falhado. Marta tivera outras relações, casara e divorciara-se. Nuno ficara muitos anos fora. Via-o às vezes nas fotografias de conhecidos e inventara para ele uma felicidade bastante organizada, com ruas bonitas, viagens e uma pessoa sempre fora do enquadramento.

Naquele mês de março, ele regressara ao Porto. Uma amiga comum dissera que ia abrir um pequeno estúdio. Marta imaginara que qualquer encontro entre ambos exigiria a simpatia apressada de pessoas que preferiam não verificar o que ainda se lembravam.

Fechou o livro e levou a carta para a sala. O texto tinha uma qualidade incómoda: não culpava ninguém. A mulher de vinte e seis anos tinha escrito o que queria e falhara apenas a entrega. Marta não podia transformar Nuno no responsável por uma conversa que nunca tivera.

Telefonou à amiga comum e pediu-lhe o contacto. Disse que queria devolver um livro, o que era verdade apenas num sentido pouco útil. A amiga não fez perguntas. Marta escreveu uma mensagem curta, mencionando o manual e perguntando se ele queria recuperá-lo.

Nuno respondeu naquela tarde. Lembrava-se do livro e aceitou encontrá-la num café perto do estúdio. Marta passou dois dias a decidir se devia levar o envelope. Não podia entregá-lo como quem apresentava uma dívida vencida. Também não queria esconder de novo uma coisa que acabara de encontrar.

Levou-o. Nuno estava à porta do café quando chegou. Tinha quarenta e quatro anos, mais cabelo grisalho do que ela esperava e os mesmos óculos que, na memória de Marta, nunca lhe assentavam completamente direitos. Abraçaram-se com o cuidado de quem ainda tinha de descobrir a distância adequada.

Sentaram-se junto ao balcão. Nuno perguntou pelo trabalho. Ela continuava a fotografar, embora agora fizesse mais retratos de profissionais e menos reportagens. Ele falava do estúdio como um projeto que lhe apetecia, não como uma garantia de sucesso. Tinha passado anos a preparar um regresso que nunca parecia conveniente.

Marta devolveu-lhe o livro. Nuno abriu-o ao acaso e encontrou uma anotação que tinha feito na margem. Riu-se da convicção com que escrevera uma regra de iluminação que já não usava.

«Há aqui uma pessoa bastante mandona», disse.

«Também encontrei uma versão antiga de mim.»

Ela tirou o envelope da mala e pousou-o na mesa. Explicou quando o tinha escrito. Disse, antes de lho oferecer, que não estava a tentar recuperar dezassete anos nem a pedir-lhe uma resposta que devia ter dado noutro tempo.

Nuno ouviu-a sem pegar logo no papel. Perguntou se ela queria que o lesse ali. Marta respondeu que sim, desde que ele quisesse. As alternativas precisavam de existir de forma clara entre os dois.

Ele abriu o envelope com cuidado e leu em silêncio. Marta olhou para a máquina de café, para os sacos de açúcar e para a mão que segurava a folha. Tinha imaginado aquele momento com muitas frases. Nenhuma lhe servia para esperar.

Quando Nuno terminou, pousou a carta diante dele.

«Eu não sabia.»

«Eu sei.»

«Pensei que me estavas a desejar boa viagem porque querias que fosse.»

Marta reconheceu a interpretação. Ela própria tinha confundido a rapidez com que ele aceitara o contrato com a ausência de interesse. Ambos tinham tratado uma conclusão como se fosse uma informação recebida.

Não discutiram se a vida teria sido melhor. Nuno disse que não podia saber o que teria feito. Marta agradeceu-lhe a honestidade, embora uma parte dela tivesse esperado uma resposta mais bonita. A verdade permitia-lhes estar ali sem construir uma história falsa para as pessoas que tinham sido.

Conversaram até o café começar a encher. Nuno estava separado havia dois anos. Marta vivia sozinha e gostava disso, mas não queria usar o gosto pela sua casa para recusar todos os convites que chegassem até lá. Nuno perguntou se ela lhe mostrava o trabalho recente. Marta tinha fotografias no telefone, mas preferia as provas impressas.

Combinaram uma visita ao estúdio no sábado. Ele precisava de opiniões sobre a disposição da sala. Ela precisava de saber se a vontade de o ver continuava depois de uma conversa que tinha esperado demasiado tempo.

No sábado, encontrou Nuno a medir uma parede. A sala tinha duas janelas e pouco mobiliário. Marta levou provas de retratos e uma fita métrica, porque a mensagem dele tinha sido bastante específica quanto às necessidades do espaço.

Trabalharam durante uma hora. Discordaram da posição de um fundo fotográfico. Nuno mudou-o duas vezes e acabou por lhe dar razão, mas só depois de experimentar a luz. Marta gostou de discutir uma coisa presente com ele. Não havia nenhuma obrigação de serem delicados com todas as frases.

Ao almoço, foram buscar comida e comeram sentados numa mesa dobrável. Nuno perguntou-lhe se estava a gostar de voltar a encontrá-lo ou apenas de acabar um assunto antigo. Marta pensou na pergunta sem se ofender. Era a mesma que tinha feito a si própria no caminho.

«Gostei de te ver trocar o fundo de sítio. Isso não estava na carta.»

Ele sorriu. Confessou que também tinha medo de ser apenas uma pessoa convocada para uma história que já terminara. Marta disse-lhe que podiam encontrar-se sem levarem o manual de fotografia nem o envelope.

Foi ele quem sugeriu o domingo seguinte, num sítio que nenhum conhecia. Marta aceitou. Antes de sair do estúdio, aproximou-se e pousou uma mão no braço dele. Nuno perguntou se a podia beijar. Ela respondeu que sim, e o beijo aconteceu no meio da sala ainda por arrumar, entre duas decisões que continuavam por tomar.

Não pareceu um gesto atrasado. Marta tinha diante de si o homem de quarenta e quatro anos, com um estúdio novo e dúvidas que conhecia apenas em parte. Queria conhecê-lo assim.

Nuno tentou devolver-lhe a carta. Ela pediu-lhe que a guardasse, se lhe apetecesse, mas que não a usasse para adivinhar o que ela queria agora. Para isso, teria de perguntar.

Quando chegou a casa, Marta voltou à arrecadação e trouxe mais dois livros para a sala. Não estava à procura de outra coisa esquecida. Precisava de uma mesa para pôr as provas do trabalho e tinha finalmente decidido esvaziar a prateleira que ocupavam.

O telefone tocou antes de acabar. Nuno queria confirmar a hora de domingo. Marta respondeu e perguntou-lhe o que lhe apetecia fazer depois do almoço. Não escreveu uma carta para guardar a resposta. Ouviu-a até ao fim.

Depois marcou a hora na agenda e abriu espaço na mesa para as fotografias que queria mostrar-lhe.

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