Uma história Meia Noite
O segredo da varanda
As folhas apareciam presas debaixo do vaso de manjericão, sempre às sextas-feiras. Catarina leu três antes de perceber que as histórias terminavam na sua varanda.

As folhas apareciam presas debaixo do vaso de manjericão, sempre às sextas-feiras. Catarina leu três antes de perceber que as histórias terminavam na sua varanda.
A primeira falava de uma mulher que regava plantas à noite. A segunda mencionava uma cadeira vermelha e uma chávena lascada. Na terceira, alguém deixava uma luz acesa depois de o resto do prédio adormecer. Os pormenores eram próximos, mas não exatos. Catarina não tinha uma cadeira vermelha. Tinha duas, e uma estava partida.
Aos quarenta e quatro anos, sabia distinguir uma curiosidade agradável de uma intrusão. As folhas não traziam ameaças, declarações ou pedidos. Eram pequenos textos, deixados num espaço comum junto às caixas do correio, sob um vaso que ela oferecera ao prédio. Qualquer morador os podia ler. Ainda assim, começou a perguntar-se quem observava as janelas com tanta atenção.
O administrador do condomínio não sabia. A vizinha do segundo andar achava que se tratava de publicidade. António, que morava por cima de Catarina, sugeriu que alguém estivesse a testar um livro. Tinha quarenta e sete anos, trabalhava como tradutor e usava a varanda para secar camisas que, por qualquer razão, demorava dias a recolher.
Conheciam-se havia um ano. Tinham partilhado reuniões do condomínio, uma avaria no elevador e o esforço de transportar um armário que não cabia em lado nenhum. Catarina gostava dele com uma prudência que se tornara hábito. António convidara-a uma vez para jantar. Ela respondera que estava ocupada e nunca tivera coragem de corrigir a impressão de desinteresse.
As folhas deram-lhes um assunto. Conversavam sobre elas nas escadas, propondo explicações cada vez menos prováveis. António defendia a hipótese de uma escritora reformada no terceiro andar. Catarina suspeitava do homem que entregava encomendas e conhecia todos os horários. Nenhum parecia especialmente empenhado em chegar a uma conclusão. O mistério permitia prolongar encontros que, sem ele, terminariam num cumprimento.
Na quarta sexta-feira, o texto descrevia alguém a pintar uma cadeira partida. Catarina leu-o duas vezes. Tinha comprado tinta na véspera, mas a lata continuava dentro de um saco na cozinha. Sentiu o desconforto tornar-se concreto. Levou a folha a António e perguntou se ele sabia alguma coisa que não lhe tivesse contado.
Ele perdeu o sorriso antes de responder. Era o autor dos textos. Não tinha visto a lata de tinta. Inventara a reparação porque ouvira Catarina dizer, semanas antes, que gostava demasiado da cadeira para a deitar fora. A coincidência era real. A ocultação também.
«Porque não disseste?»
António pousou a folha sobre a mesa. Começara a escrever para um encontro de leitura na biblioteca e quisera experimentar partilhar textos sem o receio de uma reação direta. Escolhera elementos do prédio por lhe serem familiares. Não tinha pensado que alguém pudesse sentir-se observado. Agora, vendo a expressão dela, percebia que a sua intenção não bastava para decidir o efeito.
Catarina ouviu, mas não o tranquilizou. Gostava das histórias e não gostava de ter servido de matéria sem saber. As duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo. Pediu-lhe que retirasse os pormenores reconhecíveis se pretendesse levar os textos à biblioteca. Ele concordou sem discutir a liberdade artística, o que lhe evitou uma resposta menos simpática.
Durante uma semana encontraram-se apenas por acaso. António cumprimentava-a com cuidado; Catarina respondia sem hostilidade, embora ainda precisasse de organizar o que sentia. Descobriu que o que mais a magoara não fora a descrição da varanda. Fora ele ter inventado suspeitos enquanto ela lhe falava de uma preocupação real. Esse pequeno teatro pesava mais do que as folhas.
Disse-lho num sábado, quando ele bateu à porta com os textos revistos. António ouviu até ao fim. Pediu desculpa por a ter deixado continuar a adivinhar. Não lhe ofereceu os manuscritos como prova de que merecia perdão. Disse apenas que os alterara e que ela podia lê-los se quisesse. Se preferisse não se envolver, respeitaria a decisão.
Catarina ficou com as folhas, mas não as abriu logo. Foi para a varanda e começou a pintar a cadeira. O trabalho demorou mais do que esperava. A tinta precisava de duas camadas, o chão precisava de proteção e a cadeira precisava, sobretudo, de alguém capaz de reparar a perna. Acabou por telefonar a uma carpinteira que uma amiga recomendara. Gostou de resolver aquilo sem transformar António numa necessidade.
A carpinteira apareceu na manhã seguinte e levou a cadeira para a oficina. Catarina ficou com o espaço vazio na varanda durante três dias. Foi tempo suficiente para perceber que sentia falta tanto do objeto como das conversas que costumavam acontecer à volta dele.
Leu os textos ao fim da tarde. As varandas continuavam lá, mas o prédio tornara-se imaginário. A mulher que regava plantas tinha outra profissão, outra voz e um problema que Catarina nunca tivera. Pela primeira vez, conseguiu ler sem procurar vestígios seus. Havia uma boa história debaixo do equívoco. Assinalou uma frase de que gostou e outra que lhe pareceu excessiva.
Na segunda-feira devolveu-lhe as folhas com as notas. António pareceu mais surpreendido pela crítica do que pelo elogio. Catarina disse que, se ele queria leitores honestos, convinha habituar-se. Ele agradeceu e convidou-a para a sessão da biblioteca. Desta vez, fez o convite sem o esconder atrás de uma tarefa. Ela aceitou.
Na sessão havia doze pessoas, todas adultas, sentadas numa roda que parecia intimidar os mais faladores. António leu devagar. Catarina reparou que lhe tremia uma mão. O texto ganhava outra forma na voz dele, menos seguro do que na página, mais próximo de uma pergunta. Quando terminou, ela bateu palmas com os outros. Não lhe devia uma absolvição pública; estava apenas contente por o ouvir.
Saíram juntos. António perguntou se queria jantar. Catarina respondeu que sim antes de ele começar a oferecer alternativas. À mesa falaram da sessão, mas também de coisas que nenhum podia transformar imediatamente num conto: o cansaço daquela semana, o gosto dela por sopa muito quente, a incapacidade dele para escolher cortinas.
Mais tarde, Catarina explicou que precisava de uma regra entre ambos. O que lhe contasse em privado não podia aparecer num texto sem conversa prévia, mesmo disfarçado. António concordou. Acrescentou que gostaria de a conhecer sem estar sempre a procurar uma frase para guardar. Ela disse que essa parecia a melhor ideia que ele tivera desde o início do mistério.
No caminho para casa, ele perguntou se podia dar-lhe a mão. Catarina deixou que a pergunta ficasse um instante no ar e depois entrelaçou os dedos nos dele. Ao chegar ao prédio, não se despediram nas escadas. Subiram até à varanda dela, onde a cadeira reparada ainda cheirava levemente a tinta.
Sentaram-se lado a lado. António elogiou a cor. Catarina respondeu que ele podia usar essa observação num livro, mas teria de admitir que eram duas cadeiras. Riram-se. Depois ela aproximou-se e beijou-o, escolhendo o momento sem o deixar dependente de mais um convite. Ele respondeu com a mesma atenção com que, finalmente, aprendera a escutar.
Ficaram juntos até a luz da sala ser a única acesa naquele lado do prédio. Catarina não lhe pediu uma história para a noite. Queria a companhia dele, com as falhas já conhecidas e as que ainda precisariam de discutir. De manhã, o vaso de manjericão continuava sem folhas escondidas. O segredo da varanda deixara de precisar de leitores.


