Uma história Meia Noite
As regras do jogo
Inês escreveu as regras numa folha de caderno. Nuno leu-as duas vezes e apontou para a última: quem perde escolhe o jantar.

Inês escreveu as regras numa folha de caderno. Nuno leu-as duas vezes e apontou para a última: quem perde escolhe o jantar.
«Isso parece um prémio.»
«Depende do que cozinhares.»
Tinham comprado um jogo de tabuleiro numa feira de usados. Faltavam duas peças e o manual vinha em francês. Aos quarenta anos, Inês considerava o problema uma oportunidade. Nuno, de quarenta e três, considerava-o uma razão para devolver a caixa. Como não sabiam a quem devolvê-la, inventaram regras.
Começaram à tarde. Havia perguntas escritas por ambos, casas em que se avançava e casas em que se tinha de contar uma coisa que o outro não soubesse. Inês propôs que qualquer pergunta pudesse ser recusada. Nuno acrescentou que recusar não fazia perder pontos. Acordaram antes de lançarem o primeiro dado.
A primeira pergunta foi sobre o dinheiro mais mal gasto. Nuno falou de uma bicicleta de exercício que servia de cabide. Inês falou de um curso de fotografia onde passara seis meses a tentar gostar de uma pessoa que fotografava mal. Não era a mesma pessoa com quem estava a jogar, fez questão de esclarecer.
Riram-se. O jogo avançou. Quando Inês chegou à casa em que tinha de dizer o que queria fazer naquele ano, respondeu ir a Roma sozinha. Nuno ficou quieto durante um instante demasiado longo.
«Sozinha?»
Ela olhou para o dado.
«Posso trocar a pergunta?»
«Podes. Mas não é preciso.»
Nuno ouviu-a explicar que nunca tinha feito uma viagem sem negociar cada dia. Gostava de viajar com ele. Também queria saber como escolhia uma manhã sem a presença de outra vontade. Nuno compreendeu a diferença antes de conseguir gostar dela.
Na vez seguinte, revelou que tinha voltado a tocar bateria numa garagem com dois amigos da mesma idade. Não lhe contara porque os ensaios corriam mal e queria poder desistir sem ter de anunciar o fracasso.
Inês ia dizer que ele podia ter contado na mesma. Parou. Não queria transformar cada segredo pequeno num incumprimento do casal.
Passaram várias casas sem lançar o dado. O tabuleiro deixou de orientar a conversa. Disseram coisas sem precisar de uma regra que as tornasse obrigatórias. Nuno confessou que às vezes fingia dormir para evitar discutir; Inês confessou que às vezes provocava uma discussão porque era a única maneira de obter toda a atenção dele.
Fizeram uma pausa. Inês abriu a janela. Nuno foi buscar água. Quando voltou, perguntou se ela queria continuar. Ela quis, mas apenas o jogo, por enquanto.
Ele aceitou. Na última ronda, Inês ganhou com uma peça emprestada de um jogo de damas. Nuno escolheu fazer omeletas e falhou a primeira.
Jantaram na cozinha, longe do tabuleiro. Inês pediu para ir ouvir um ensaio. Nuno disse que sim, se ela prometesse não tirar fotografias. Ela perguntou se queria ajudá-la a escolher o hotel em Roma. Ele disse que preferia receber a primeira fotografia quando ela já lá estivesse.
Depois, Nuno estendeu a mão e convidou-a a dançar. Não havia música. Inês disse que isso precisava de ser escrito nas regras.
Dançaram na mesma. Quando o beijo interrompeu a conversa, nenhum tinha a sensação de estar a ganhar.
A folha ficou dentro da caixa. Por baixo da última regra, Inês acrescentou uma nota: «Podemos parar quando quisermos.»
Voltaram a jogar no domingo seguinte.


