Uma história Meia Noite
Quarto de ensaio
A primeira nota saiu antes de Beatriz pousar o casaco. Do outro lado da porta, alguém tocava a passagem que ela vinha a evitar havia três semanas, devagar e sem qualquer respeito pela indicação de andamento.

A primeira nota saiu antes de Beatriz pousar o casaco. Do outro lado da porta, alguém tocava a passagem que ela vinha a evitar havia três semanas, devagar e sem qualquer respeito pela indicação de andamento.
Abriu com o cotovelo. O pianista interrompeu-se, deixando uma mão suspensa sobre as teclas. Tinha uma camisola cinzenta, óculos no alto da cabeça e uma caixa de parafusos ao lado da partitura. Beatriz confirmou o número pintado na porta. Era o quarto de ensaio que alugara para as quartas-feiras, das oito às dez.
«O piano tem uma tecla presa», explicou ele. «Disseram-me que só chegavas às nove.»
«Disseram-te mal.»
Ele levantou-se logo. Chamava-se Alexandre, tinha quarenta e seis anos e afinava os instrumentos daquela associação, além de dar aulas a adultos. Beatriz, quarenta e um, era violinista. Não lhe apeteceu acrescentar que estava a tentar regressar aos concertos depois de uma operação ao pulso. A caixa do violino pareceu-lhe suficientemente explicativa.
Alexandre podia voltar no dia seguinte, mas precisava de acabar de montar uma peça. Ela calculou o tempo, pousou o casaco e pediu-lhe que terminasse. Enquanto esperava, abriu o estojo e passou resina no arco. A sala cheirava a madeira encerada e ao café que alguém deixara numa chávena sem pires. Pela janela alta via-se uma pequena faixa do Porto, ainda iluminada.
Quando o piano ficou pronto, Alexandre tocou três notas e levantou as mãos, à espera de ouvir alguma vibração. Beatriz reconheceu o início da peça que preparava. Sem pensar, respondeu com o violino. Ele olhou para ela e continuou. Tocaram menos de um minuto, até à passagem difícil. Beatriz parou antes de chegar lá.
«Era aqui que estavas quando entrei», disse.
«Estava a verificar o mecanismo.»
«Pois. O mecanismo tem bom ouvido.»
Ele riu-se, fechou a caixa de ferramentas e desejou-lhe um bom ensaio. Quando ficou sozinha, Beatriz retomou a passagem. A mão obedecia, o médico autorizara o regresso e a fisioterapeuta insistia que já não havia motivo para recear aquele movimento. Mesmo assim, cada tentativa acabava no mesmo ponto. Ao sair, escreveu no caderno: pedir acompanhamento.
Tinha uma colega com quem costumava tocar, mas ela estava em digressão. Na semana seguinte perguntou a Alexandre se aceitava duas sessões pagas. Ele consultou a agenda, acertaram o valor e marcaram uma hora. Beatriz gostou de resolverem aquilo depressa. Não queria dever-lhe favores antes de saber se conseguia voltar a tocar diante de alguém.
O primeiro ensaio foi desagradável. Alexandre acompanhava bem, mas Beatriz irritava-se com a facilidade dele. Repetiu uma frase seis vezes e, à sétima, bateu com a ponta do arco no chão. Arrependeu-se imediatamente, mais pelo instrumento do que pelo gesto. Alexandre afastou as mãos do teclado e perguntou se preferia uma pausa ou outra passagem.
«Preferia ter o pulso que tinha antes.»
Ele não respondeu com uma história de superação. Foi buscar água ao corredor. Quando voltou, ela já estava a rir da própria resposta, sem grande alegria. Beberam junto à janela e falaram da sala, que no inverno precisava de dois aquecedores para ficar habitável. Depois trabalharam vinte minutos noutra parte da peça e deram o ensaio por terminado.
Na segunda sessão, Beatriz trouxe sandes. Alexandre tinha acabado de sair de uma aula e ainda não jantara. Comeram sentados no chão, para não arriscarem migalhas dentro do piano. Ele contou-lhe que aprendera a afinar instrumentos porque, aos vinte e oito anos, ficara sem dinheiro para mandar arranjar o seu. Ela contou-lhe o primeiro concerto em que entrara um compasso antes de toda a orquestra.
Durante o ensaio, Alexandre errou uma sequência de acordes. Beatriz corrigiu-o, contente por ter finalmente alguma coisa útil para dizer. Ele fingiu ofensa e pediu que guardasse o episódio para as memórias. A passagem difícil apareceu mais tarde, quando ela estava distraída a ouvir o acompanhamento. Tocou-a inteira. Nenhum dos dois disse nada até ao fim.
O concerto seria numa pequena biblioteca, para um público de pouco mais de quarenta pessoas. Faltavam dez dias quando a pianista prevista cancelou por doença. Beatriz telefonou a Alexandre e convidou-o. Ele aceitou depois de confirmar que podia preparar o programa. Na manhã seguinte enviou uma lista de horários disponíveis e, no fim, uma pergunta sobre o restaurante onde ela comprava aquelas sandes.
Ela respondeu com a morada e acrescentou que podiam ir lá depois do ensaio. Passou o resto da manhã a imaginar se ele entenderia aquilo como uma indicação prática. Alexandre resolveu a dúvida às seis da tarde, quando lhe perguntou se devia reservar mesa para os dois. Beatriz escreveu que sim e ficou a sorrir para um ecrã já apagado.
Jantaram junto à montra. A conversa demorou a abandonar a música, mas acabou por chegar aos irmãos dele, ao gato dela e à dificuldade de encontrar uma casa onde os vizinhos tolerassem escalas. Alexandre vivia sozinho desde o divórcio, quatro anos antes. Beatriz terminara uma relação no ano anterior. Nenhum apresentou esses factos como uma entrevista de admissão.
À porta do restaurante, ele perguntou se podia beijá-la. Ela aproximou-se antes de responder, depois disse sim junto da boca dele. O beijo foi breve porque alguém saiu a transportar duas caixas e lhes pediu passagem. A interrupção fê-los rir. Caminharam até ao carro de Beatriz de mãos dadas, com a estranheza agradável de conhecerem tão bem o ritmo um do outro e tão pouco do resto.
Combinaram deixar os ensaios no horário de trabalho. Pareceu simples até Alexandre lhe enviar uma mensagem carinhosa cinco minutos antes de começarem. Beatriz entrou na sala a sorrir e não conseguiu afinar o violino à primeira. Ele fez uma reverência absurda, prometeu comportar-se e cumpriu durante quase toda a sessão. A concentração regressava quando precisavam dela.
Na noite do concerto, Beatriz ficou sozinha no corredor da biblioteca. Ouviu cadeiras a arrastar e uma tosse insistente na primeira fila. A mão começou a tremer. Alexandre apareceu à porta, perguntou se precisava de alguma coisa e esperou. Ela pediu-lhe que lhe contasse uma banalidade. Ele descreveu a discussão que tivera nessa manhã com um homem que queria transportar um piano numa carrinha demasiado pequena.
Beatriz ainda estava a rir quando chamaram pelos dois. Subiu ao pequeno estrado, agradeceu a presença do público e colocou o violino ao ombro. A passagem difícil veio e passou. Noutra parte, uma nota saiu menos limpa do que queria. Continuou. No fim, ouviu os aplausos e percebeu que conseguia lembrar-se da música inteira, em vez de apenas do ponto onde temera falhar.
Foram para casa dela depois de arrumarem os instrumentos. Comeram o resto de uma tarte na cozinha, ainda vestidos para o concerto. Beatriz tirou-lhe a gravata, deixou-a na cadeira e beijou-o com tempo. Queria que ficasse. Disse-lho quando ele perguntou se devia chamar um táxi. O gato protestou à porta do quarto, dono de uma rotina que ninguém se lembrara de consultar.
Na quarta-feira seguinte, voltaram à associação. Tinham outro programa para preparar e Beatriz mantivera a reserva das oito às dez. Alexandre chegou com a partitura e uma chávena para substituir a que tinha a asa partida. Ela pousou o casaco, afinou o violino e pediu-lhe o primeiro acorde. Pela janela alta ainda se via luz. Dessa vez, tocaram até ao fim antes de fazerem uma pausa.


