Uma história Meia Noite
A casa das horas lentas
O relógio da cozinha atrasava sempre que Helena adiava uma decisão. Descobriu a relação numa quinta-feira, depois de passar quarenta minutos a escolher entre duas respostas para uma mensagem e verificar que a água da chaleira ainda não começara a ferver.

O relógio da cozinha atrasava sempre que Helena adiava uma decisão. Descobriu a relação numa quinta-feira, depois de passar quarenta minutos a escolher entre duas respostas para uma mensagem e verificar que a água da chaleira ainda não começara a ferver.
Tinha trinta e nove anos e alugara a casa por um mês, para acabar a tradução de um romance. Ficava numa aldeia que não aparecia no mapa do automóvel, embora o contrato tivesse uma morada perfeitamente normal. A proprietária entregara-lhe duas chaves, indicara o quadro da eletricidade e avisara que o gato entrava pela janela da despensa. Sobre os relógios, nem uma palavra.
Havia sete. Um no corredor, dois na sala, três nos quartos e o da cozinha, pintado de verde. Nenhum marcava a mesma hora. Helena acertou-os na primeira noite. Na manhã seguinte, tinham regressado às posições anteriores. Atribuiu o problema às pilhas e foi à mercearia, onde o homem do balcão ouviu o pedido sem surpresa.
«Está na casa do fim da rua?»
Helena confirmou. O homem guardou as pilhas que acabara de tirar da gaveta e deu-lhe o número de um relojoeiro. Chamava-se Salvador e passaria pela aldeia nessa tarde. Não cobrou a chamada. Helena achou aquela disponibilidade um excelente argumento a favor de viver fora da cidade, opinião que reviu quando Salvador apareceu sem ferramentas.
Ele tinha quarenta e três anos, um casaco com uma manga remendada e uma bicicleta encostada ao muro. Pediu autorização para entrar, olhou os sete relógios e perguntou o que tinha ficado por decidir. Helena mostrou-lhe a mensagem do editor. Precisava de confirmar a data de entrega. Restavam dois capítulos, mas ela passava os dias a voltar aos primeiros.
«Responda», sugeriu Salvador.
«E os relógios?»
«Podemos começar por um.»
Helena escreveu que entregaria na segunda-feira. Assim que carregou em enviar, a chaleira apitou e o ponteiro dos minutos avançou. O gato levantou a cabeça, aborrecido. Salvador aceitou café e explicou que a casa tinha esse hábito. Ninguém sabia ao certo quando começara. A proprietária preferia dizer que os hóspedes encontravam ali o tempo de que precisavam.
Helena pediu uma explicação melhor. Salvador disse que também gostaria de a ter. Crescera na aldeia, conhecia a casa desde adulto e aprendera algumas regras por tentativa. O tempo dentro dela podia abrandar. Fora do portão, continuava a correr normalmente. Os telemóveis mostravam a hora de fora, mas as pessoas esqueciam-se de os consultar. Não convinha perder o último autocarro a olhar para um relógio da sala.
Ela passou o dia seguinte a testar a teoria. Adiou lavar uma chávena e nada aconteceu. Adiou telefonar à irmã, com quem se zangara, e o relógio do corredor parou. Telefonou. Discutiram durante quinze minutos, riram-se de uma coisa antiga e combinaram almoço. Quando desligou, as sete badaladas soaram ao mesmo tempo, embora fossem apenas quatro da tarde.
Salvador regressou na sexta-feira para saber se precisava de alguma coisa. Encontrou-a no jardim com o computador e duas folhas cobertas de cálculos. Helena queria medir quanto tempo a casa lhe dava. Ele avisou que os resultados variavam. Ela perguntou se ele tinha feito a experiência. Salvador olhou para uma janela do andar de cima antes de responder que sim.
Ficou para jantar. Cozinharam com o que havia na despensa, uma massa pouco memorável que melhorou com o queijo trazido por ele. À mesa, Helena soube que Salvador vivera ali seis meses depois de abandonar um emprego na cidade. Queria abrir uma oficina, mas adiava o pedido de empréstimo, a procura de espaço e até a escolha do nome.
«Um dia percebi que já não sabia se estava a descansar ou a esconder-me.»
A oficina ficava agora a vinte minutos de bicicleta. Trabalhava com relógios antigos e arranjos pequenos, os suficientes para pagar as contas. Helena perguntou se gostava. Ele mostrou-lhe uma fotografia de uma peça minúscula que conseguira recuperar nessa manhã. O entusiasmo com que falou dela respondeu melhor do que uma afirmação.
Na segunda-feira, Helena entregou a tradução. Depois apanhou o autocarro para almoçar com a irmã, guiando-se pelo telemóvel. Voltou ao fim da tarde e encontrou Salvador no portão, a deixar uma caixa de cerejas. Ela convidou-o para uma caminhada. Queria afastar-se da casa durante algumas horas, experimentar uma conversa sem ponteiros a interferir.
Sentaram-se junto ao rio. Helena perguntou-lhe se aparecia por causa dos relógios ou por causa dela. Salvador pousou a caixa entre os dois e respondeu que, da segunda vez em diante, fora por causa dela. Tinha receado que a estranheza da casa tornasse tudo confuso. Helena sentia o mesmo. Ali, longe do portão, pareceu-lhes mais fácil perceber o que queriam.
Beijaram-se ao fim de uma conversa que nenhum dos dois recordaria inteira. Helena guardou o sabor das cerejas e o riso dele quando uma pedra solta os obrigou a mudar de posição. Ao regressarem, Salvador ficou à porta. Ela convidou-o a entrar e acrescentou que o convite era seu, não da casa. Ele beijou-a outra vez antes de aceitar.
Nessa noite, taparam os relógios da sala com panos da cozinha. A ideia foi de Helena e pareceu-lhes ridícula o suficiente para resultar. Jantaram tarde, esqueceram os pratos e recolheram ao quarto quando lhes apeteceu. De manhã, a luz atravessava a cortina e o gato dormia sobre a camisa de Salvador. O telemóvel dizia oito e vinte. Por uma vez, não lhes interessou comparar.
Faltava uma semana para terminar o arrendamento quando chegou uma proposta de trabalho. Helena teria de regressar à cidade e passar dois meses numa editora, a acompanhar uma coleção. Queria aceitar. Também queria prolongar o que começara com Salvador. Deixou a mensagem aberta durante dois dias. A casa ficou tão silenciosa que conseguia ouvir o gato a respirar do outro lado da sala.
Salvador encontrou-a junto à mala vazia. Ela esperava que ele lhe pedisse para ficar, embora soubesse que isso tornaria a decisão mais difícil. Ele disse que gostaria de continuar a vê-la. Não lhe ofereceu uma resposta pronta sobre a distância. Consultaram horários de comboios, discutiram fins de semana e descobriram que ele fechava a oficina às segundas-feiras.
Helena aceitou o trabalho nessa noite. Os ponteiros não se moveram. Pensou que a casa estivesse avariada de outra maneira, até perceber que ainda não respondera à proprietária, que lhe perguntara se queria renovar o contrato. Escreveu que sairia no domingo. O relógio verde começou a trabalhar com tanta força que o gato abandonou a cozinha.
No último dia, Salvador ajudou-a a levar as malas ao portão. A proprietária chegou pouco depois, recolheu as chaves e perguntou se a estadia correra bem. Helena respondeu que sim, mas aconselhou-a a incluir uma nota sobre os relógios no anúncio. A mulher prometeu pensar nisso. Da janela aberta veio um estalido familiar, seguido de silêncio. Salvador baixou a cabeça para esconder o sorriso.
Helena voltou no mês seguinte. Ficou em casa dele, por cima da oficina, onde havia apenas um relógio na parede e todos os domingos começavam com o sino da igreja. Trouxe a primeira cópia impressa do romance e uma caixa de cerejas. Salvador abriu-lhe a porta de mãos ainda sujas de óleo. Tinham dois dias até ao comboio de regresso, e começaram por almoçar numa mesa que ele pusera no pequeno terraço.


