Uma história Meia Noite
A porta fechada
Elisa desceu à oficina com a mensagem de Santiago ainda aberta no telefone. O aviso de encerramento parecia maior visto de perto, mas a data continuava a ser a mesma: faltavam três semanas.

Elisa desceu à oficina com a mensagem de Santiago ainda aberta no telefone. O aviso de encerramento parecia maior visto de perto, mas a data continuava a ser a mesma: faltavam três semanas.
Ele recebeu-a junto à porta. Tinha tinta na manga e uma folha de medidas na mão. Não parecia estar a fugir, embora Elisa tivesse passado os dez minutos anteriores a preparar perguntas para uma pessoa que talvez já soubesse ir-se embora sem a avisar.
«É só a oficina», explicou. «O aviso não diz respeito às casas.»
Ela assentiu. Não lhe tinha perguntado ainda se precisava de mudar, mas a hipótese ocupava-lhe parte do receio. Santiago soubera da decisão no dia anterior. A empresa ia recuperar o espaço e transformar os armazéns. O seu contrato terminava naquele mês e não seria renovado.
Elisa olhou para os cenários encostados à parede. Havia portas de madeira, mesas dobráveis e uma estrutura que lembrava a frente de uma casa sem nenhum interior. Tudo aquilo precisava de ir para algum sítio. O espetáculo que ele preparava só seria apresentado depois do verão.
«Tens outra oficina?»
«Ainda não. Tenho um armazém emprestado e uma proposta para trabalhar em Lisboa durante oito semanas.»
A segunda informação chegou-lhe mais devagar. Elisa não tinha feito planos em que Santiago morasse perto dela para sempre. Mesmo assim, perceber que poderia deixar de o ver pela janela fez-lhe sentir que já contava com uma presença que nunca lhe fora prometida.
Santiago pousou as medidas na bancada. Disse que gostava de ir passear com ela no domingo, mas não queria fazê-lo deixando a mudança de fora da conversa. Era uma coisa recente e ainda não sabia o que faria depois das oito semanas.
«Não precisas de pedir autorização para trabalhar noutro sítio», respondeu Elisa.
«Eu sei. Mas queria que soubesses antes de decidires se ainda te apetece sair comigo.»
Ela gostou do cuidado e detestou a dificuldade da pergunta. Não queria transformar um primeiro encontro numa escolha entre proximidade e distância. Precisava de tempo para perceber se o desapontamento era com ele ou com uma história que começara a construir sozinha.
Disse-lhe isso. Santiago não lhe garantiu que voltaria depressa. Também não usou a incerteza como desculpa para deixar de falar. Perguntou se podiam manter o domingo e decidir o resto sem fingir conhecer todas as respostas.
Elisa aceitou. Subiu para casa mais calma, embora não satisfeita com o calendário. Ao chegar, abriu a janela e viu Santiago guardar os pincéis. Acenaram um ao outro. O gesto tinha agora uma duração que ambos conheciam.
No domingo, encontraram-se às quatro. Elisa dormira de manhã e chegara com o cabelo ainda um pouco húmido. Santiago trazia uma garrafa de água e uma mochila pequena. Escolheram caminhar num jardim, longe do pátio, para não passarem a tarde a discutir paredes.
Ela contou-lhe do trabalho na padaria. Gostava do início do turno, quando as encomendas ainda eram possibilidades e o dia não tinha acumulado atrasos. Ao fim da manhã, tudo precisava de sair e havia menos espaço para corrigir erros. Santiago disse que reconhecia a diferença entre construir um cenário e vê-lo entrar num camião.
Falavam bem de coisas feitas com as mãos. Elisa percebeu que queria saber também como ele era quando não conseguia fazer alguma coisa. Perguntou-lhe o que correra mal no último projeto.
Santiago contou uma encomenda que aceitara por um valor demasiado baixo. Passara semanas a trabalhar mais horas para não admitir que o orçamento estava errado. Quando o espetáculo estreou, já tinha vontade de nunca mais ver aquelas peças. Aprendera a dizer não a alguns trabalhos, mas ainda falhava quando lhe prometiam outro melhor a seguir.
Elisa reconheceu o hábito. Na padaria, aceitava trocas de turno antes de consultar os dias em que precisava de descansar. Gostava das pessoas com quem trabalhava e usava esse gosto para evitar perguntas sobre o próprio cansaço.
Sentaram-se num banco. Não houve um silêncio cuidadosamente bonito. Um homem adulto discutia ao telefone nas proximidades e a rega começou num canteiro que nenhum estava preparado para evitar. Mudaram de banco e continuaram a rir da tentativa falhada de encontrar uma tarde tranquila.
Santiago perguntou se Elisa gostava de viver sozinha. Ela respondeu que sim, mas que isso não resolvia todas as coisas de que tinha saudades. Gostava de poder fechar uma porta. Gostava também de saber que podia convidar alguém a entrar sem entregar a essa pessoa a organização de toda a casa.
Ele contou-lhe que tinha vivido acompanhado durante vários anos e que a separação o levara a aceitar projetos cada vez mais distantes. Não tinha partido sempre por trabalho. Às vezes era mais fácil mudar de cidade do que ficar no mesmo lugar a descobrir como queria viver.
Elisa perguntou se Lisboa era outra dessas partidas. Santiago pensou antes de responder. O trabalho interessava-lhe. Não podia garantir que não houvesse também um pouco do hábito antigo. Estava a tentar perceber a diferença sem recusar uma oportunidade que lhe fazia falta.
Gostou daquela resposta incompleta. Preferia-a a uma certeza oferecida apenas para a convencer a continuar o passeio. Disse-lhe que não queria ser a razão pela qual ele desistiria do projeto. Não se conheciam o suficiente para carregar um sacrifício tão grande.
Continuaram a andar. Numa saída do jardim, pararam para decidir se tomavam qualquer coisa ou regressavam. Elisa aproximou a mão da dele. Santiago segurou-a e esperou que ela escolhesse o caminho.
Ela escolheu o café. Sentaram-se numa mesa pequena e falaram do espetáculo. Santiago mostrou-lhe um desenho onde as portas do pátio apareciam projetadas sobre uma parede de tecido. A maçaneta vermelha continuava torta. Elisa percebeu que a sua contribuição podia viajar sem a obrigar a seguir o mesmo percurso.
Quando saíram, perguntou-lhe se a podia acompanhar até casa. Elisa disse que sim. À porta do prédio, Santiago pediu-lhe um beijo. Ela aproximou-se e beijou-o. Não havia nenhuma promessa de espera escondida naquele gesto. Havia vontade de estar perto, naquele dia, sabendo agora mais do que no princípio.
Subiram para ela ir buscar o desenho original. Queria mostrar-lhe uma alteração, uma pequena linha que lhe parecia fazer falta junto à curva. Santiago sentou-se à mesa da cozinha e viu-a desenhar. Elisa não o convidou a ficar para a noite; precisava de dormir cedo e conseguiu dizer isso sem recear que o encontro ficasse diminuído.
Ele despediu-se depois de uma hora. Antes de sair, combinaram outro passeio e uma tarde para arrumar a oficina. Elisa ofereceu a ajuda porque queria. Santiago perguntou quanto tempo tinha disponível e aceitou apenas esse tempo, sem acrescentar tarefas à medida que ela as acabava.
Nas semanas seguintes, conheceram-se através de trabalhos práticos e encontros curtos. Elisa viu-o irritar-se com uma peça que não cabia numa caixa. Santiago ouviu-a contar um turno em que tinha perdido a paciência com um colega adulto. Nenhum tentou transformar a outra pessoa numa versão permanentemente tranquila.
A oficina esvaziou-se. As portas pintadas no pátio permaneceram mais alguns dias, até a empresa confirmar que a parede seria lavada. Santiago fotografou-as depois de pedir autorização aos participantes para usar os desenhos no espetáculo. Elisa aceitou o uso da sua maçaneta e pediu que o nome na ficha fosse apenas Elisa.
Ele saiu numa segunda-feira. Passou pela padaria antes de ir para a estrada. Ela entregou-lhe pão e um pacote com duas folhas novas. Não eram instruções para a viagem. Tinha começado a desenhar outras portas, desta vez sem ter de responder a uma parede que alguém lhe mostrara primeiro.
Santiago abraçou-a junto à entrada, depois de ela acabar de atender um cliente. Disse que telefonaria quando chegasse. Elisa respondeu que não precisava de fazer da chamada uma obrigação, mas que gostava de o ouvir. A distinção pareceu-lhes suficientemente importante para ser dita.
Na primeira semana, falaram duas vezes. Na segunda, combinaram que Elisa iria ver um ensaio aberto, se conseguisse trocar o turno. Na terceira, ele mandou-lhe uma fotografia de uma porta com a maçaneta vermelha. A imagem tinha uma sombra nova e um papel com o nome do espetáculo preso na lateral.
Elisa queria ir. Pediu a troca com antecedência e comprou a passagem. Não lhe disse imediatamente. Preferia confirmar as horas antes de apresentar um plano que talvez não pudesse cumprir.
Na quinta-feira, chegou um email da associação do bairro. Tinham visto as fotografias do pátio e procuravam alguém para preparar uma pequena mostra dos desenhos. Santiago dera-lhes o contacto de Elisa, tendo-lhe perguntado antes se podia fazê-lo. Na altura, ela julgara que queriam apenas uma autorização.
Agora o convite tinha uma data, uma sala e uma pergunta direta: estaria disponível para falar com os participantes e organizar a exposição?
Elisa olhou para a passagem que comprara. A reunião na associação era no mesmo sábado do ensaio em Lisboa. Pela primeira vez desde que Santiago partira, a pergunta não era quando voltariam a ver-se. Era o que ela queria fazer no lugar onde tinha decidido ficar.
Abriu uma resposta e escreveu a primeira frase. Depois parou, sem ainda a enviar, e foi buscar os desenhos.


