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Uma história Meia Noite

A parede do pátio

A janela de Elisa dava para uma parede onde alguém começara a desenhar portas. A primeira apareceu numa segunda-feira, a segunda dois dias depois, e nenhuma tinha maçaneta.

Tomás Reis8 min de leitura Sensual
Pátio entre duas janelas, com uma parede desenhada e luz quente ao anoitecer.
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A janela de Elisa dava para uma parede onde alguém começara a desenhar portas. A primeira apareceu numa segunda-feira, a segunda dois dias depois, e nenhuma tinha maçaneta.

Ela tinha quarenta e um anos e vivia naquele apartamento havia seis meses. Trabalhava numa padaria, começando antes de a maior parte da cidade acordar. Quando regressava, ao início da tarde, o pátio estava quase sempre vazio. Via apenas uma bicicleta, vasos desiguais e uma escada de madeira que ninguém parecia usar.

O apartamento tinha chegado à sua vida com uma renda possível e uma cozinha maior do que esperava. Elisa comprara móveis sem pedir opiniões, mas ainda guardava uma caixa de livros por abrir. A caixa ficava atrás de uma cadeira e obrigava-a a passar de lado para alcançar a janela. Podia arrumá-la numa tarde. Adiava porque, enquanto houvesse alguma coisa por tirar da caixa, parecia-lhe que ninguém poderia perguntar se já se habituara à casa. Numa terça-feira, afastou a cadeira, abriu a tampa e encontrou espaço na prateleira para todos os livros. Foi nesse dia que reparou na segunda porta.

A parede pertencia a uma oficina do outro lado do prédio. Elisa julgara-a fechada. Não ouvia máquinas nem via clientes. Depois dos desenhos, começou a reparar numa luz acesa ao fim da tarde e numa voz que repetia frases sem nunca chegar a uma conversa inteira.

Não se aproximou das janelas para espreitar. Trabalhando de madrugada, aprendera a valorizar o direito de estar em casa sem espectadores. A voz chegava-lhe enquanto arrumava a cozinha ou lia junto à sua própria janela. Podia ser uma gravação. Podia ser alguém a ensaiar.

Na sexta-feira, um envelope apareceu na caixa do correio. Dentro havia uma folha com a reprodução da parede e um pedido de autorização para pintar o pátio. O autor explicava que estava a preparar uma pequena instalação para um espetáculo de teatro. Usaria a parede apenas se os moradores concordassem. As portas seriam temporárias, lavadas no fim do mês.

Assinava Santiago. Elisa escreveu no espaço de resposta que concordava, mas gostaria de saber porque não tinham maçanetas. Deixou a folha na oficina, numa caixa indicada junto à entrada. Não precisava de conhecer o homem para lhe fazer uma pergunta sobre uma parede que via todos os dias.

A resposta chegou no sábado. Santiago tinha quarenta e quatro anos, construía cenários e arrendara a oficina para trabalhar num projeto que ocuparia parte do verão. As maçanetas seriam desenhadas pelas pessoas que viviam diante das portas. Era a proposta do espetáculo: ninguém escolheria inteiramente uma entrada em nome de outra pessoa.

Elisa achou a explicação um pouco ambiciosa para um pátio onde a escada continuava à chuva. Ainda assim, gostou da ideia de poder intervir numa coisa que julgara estar apenas a acontecer à sua frente. Santiago incluíra um lápis de cor no envelope.

Ela desenhou uma maçaneta vermelha na reprodução. Fez-lhe uma curva irregular, mais larga de um lado do que do outro. Não sabia desenhar bem e não lhe apetecia treinar até conseguir um objeto que parecesse comprado. Entregou a folha na segunda-feira.

No dia seguinte, encontrou a sua maçaneta pintada na parede. Reconheceu a curva. Santiago não corrigira a desigualdade. Ao vê-la, Elisa sentiu que uma parte pequena do sítio onde vivia deixara de ser provisória.

Conheceram-se na quinta-feira, quando ela regressava com um saco de compras. Santiago estava na entrada da oficina a limpar pincéis. Não a reconheceu imediatamente. Elisa apontou para a janela e disse que era a pessoa da maçaneta vermelha.

Ele olhou para a parede, depois para ela.

«Gostei do desenho.»

«É uma avaliação generosa de uma curva que me saiu torta.»

«Se quisesse uma curva certa, tinha usado uma régua.»

Santiago ofereceu-se para lhe mostrar as outras respostas. Elisa disse que podia ficar dez minutos, porque precisava de dormir antes de voltar ao trabalho. Ele abriu a porta da oficina e indicou-lhe uma mesa com folhas, desenhos e notas de pessoas adultas do prédio.

Uma moradora pedira uma aldraba. Outra preferia uma porta aberta. Um homem tinha desenhado uma chave e escrito que nenhuma fechadura lhe parecia necessária. Santiago tratava as respostas como propostas, não como votos para escolher a mais bonita. A parede teria espaço para todas.

Elisa ouviu então a voz que reconhecia das tardes. Vinha de um pequeno gravador pousado na bancada. Santiago estava a testar o som que acompanharia o cenário. As frases eram originais, escritas pelos participantes de uma oficina de teatro para adultos. Ninguém seria ouvido sem ter autorizado a gravação.

«Eu pensava que falavas sozinho», disse ela.

«Também falo. Mas tento não cobrar bilhetes para isso.»

Elisa riu-se. Ficou vinte minutos em vez de dez. Santiago não tentou prolongar a visita quando ela olhou para a hora. Deu-lhe uma folha com o dia em que o pátio seria mostrado aos moradores e desejou-lhe bom descanso.

Nos dias seguintes, passaram a cumprimentar-se pela janela. Ele trabalhava com a porta aberta. Elisa regressava da padaria, pousava o pão na cozinha e perguntava se a parede estava a aceitar novidades. Santiago respondia que continuava disponível, embora algumas portas estivessem a exigir mais tinta do que previra.

Não conversavam em todas as tardes. Havia dias em que ela tinha o estore descido e ele não chamava. Elisa gostava daquela forma de reconhecer a presença sem exigir que fosse acessível. Nas relações anteriores, tinha passado tempo demais a justificar quando queria ficar em silêncio.

Uma tarde, a bicicleta do pátio desapareceu e regressou com um pneu novo. Elisa perguntou a Santiago se era dele. Ele disse que sim. Usava-a para ir a um armazém onde guardava materiais de outros espetáculos. Ela contou-lhe que gostaria de voltar a andar de bicicleta, mas não sabia ainda onde guardar uma.

Santiago indicou-lhe um lugar coberto na entrada. Não lhe ofereceu a sua nem se propôs a comprar outra. Limitou-se a resolver a pergunta que ela tinha feito. Elisa reparou nisso porque começava a gostar dele e não queria confundir simpatia com uma autorização para organizar a sua vida.

No sábado da apresentação, o pátio encheu-se de moradores. Santiago distribuíra cadeiras e pendurara três luzes. Elisa ajudou a levar uma mesa e trouxe pão da padaria. Não o fez para arranjar uma tarefa junto dele; disse-lhe que lhe apetecia contribuir. Ele agradeceu e deixou-a escolher onde queria ficar.

Mostraram os desenhos e ouviram as gravações. As portas tinham formas diferentes, algumas retas, outras feitas de linhas interrompidas. A parede não parecia um cenário acabado. Parecia um trabalho em que cada pessoa ainda podia reconhecer a própria mão.

Elisa ficou até ao fim, embora precisasse de acordar cedo. Enquanto os moradores regressavam aos apartamentos, ajudou Santiago a recolher os copos. Ele perguntou se ela queria levar uma cadeira para se sentar à janela. Elisa disse que preferia sentar-se ali por mais uns minutos.

Falaram do trabalho. Santiago gostava de construir espaços que teriam de desaparecer depois. Elisa fazia pão que também não durava, mas queria uma casa onde não lhe dissessem constantemente que devia estar preparada para mudar. Tinha vivido dez anos com uma pessoa e, depois da separação, passara meses a tratar o novo apartamento como uma espera.

Santiago perguntou-lhe se já deixara de esperar. Ela olhou para a maçaneta vermelha e disse que ainda estava a decidir. Ele contou-lhe que não arrendava casas por muito tempo, porque seguia os projetos. Aos quarenta e quatro, começava a querer saber onde guardaria as coisas que não cabiam numa carrinha.

A conversa tinha chegado a um lugar de onde podiam recuar para assuntos mais simples. Elisa escolheu não recuar. Disse-lhe que gostava de o ver de tarde. Santiago respondeu que também gostava das perguntas que vinham da janela dela.

«Podíamos falar sem ser de uma janela para a outra», sugeriu.

Elisa aceitou um passeio no domingo seguinte. Precisaria de dormir durante parte da manhã. Combinaram encontrar-se às quatro, sem decidir antecipadamente quando acabaria o dia.

Antes de ela subir, Santiago deu-lhe uma pequena folha. Era o desenho original da maçaneta, agora sem o resto da parede. Disse-lhe que o guardasse, porque os trabalhos temporários às vezes mereciam uma coisa que pudesse ficar.

Elisa levou-o para a cozinha e prendeu-o no frigorífico. Dormiu pouco nessa noite, por razões diferentes das que a faziam consultar o telefone antes do turno. À tarde, escreveu-lhe para confirmar domingo. Santiago respondeu que estava combinado.

Na manhã seguinte, regressou da padaria e encontrou a oficina fechada. A parede continuava inteira. Sobre a bicicleta havia uma lona. Elisa passou sem chamar, imaginando que Santiago ainda dormia ou trabalhava noutro sítio.

Subiu, tomou banho e pôs água ao lume. Quando abriu a janela, viu um papel preso à porta da oficina. Dizia que o espaço encerraria no fim do mês. O aviso vinha de uma empresa que pretendia renovar o prédio. Havia uma data e um contacto, nenhuma explicação sobre as portas pintadas no pátio.

Elisa pegou no telefone. Não queria perguntar a Santiago se aquilo tinha acabado antes de começar. Queria saber o que ele já sabia. Escreveu uma mensagem curta e ficou à espera, junto à janela, com o desenho da maçaneta pousado na mesa.

A resposta chegou quando a água começou a ferver.

«Precisamos de falar antes de domingo.»

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