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Uma história Meia Noite

O lugar de voltar

Elisa espalhou os desenhos na mesa antes de responder ao convite da associação. Havia portas a lápis, uma janela inacabada e a maçaneta vermelha que Santiago levara para Lisboa sem corrigir a curva.

Tomás Reis8 min de leitura Sensual
Pátio com uma janela iluminada e uma mesa, numa pintura de cores quentes.
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Elisa espalhou os desenhos na mesa antes de responder ao convite da associação. Havia portas a lápis, uma janela inacabada e a maçaneta vermelha que Santiago levara para Lisboa sem corrigir a curva.

Podia recusar a reunião e ir ao ensaio. Tinha comprado a passagem, trocado o turno e passado vários dias a imaginar o reencontro. Podia também pedir outra hora à associação. Nenhuma decisão precisava de começar pela ideia de que só uma pessoa teria o direito de ficar satisfeita.

Telefonou à responsável pelo espaço. Explicou que queria participar, mas tinha um compromisso no sábado. A mulher disse que a sala estaria ocupada no domingo e que havia outros moradores interessados em ir à reunião. Podiam encontrá-la na semana seguinte, embora isso atrasasse o início da preparação.

Elisa pediu até ao fim do dia para responder. Depois telefonou a Santiago. Ele atendeu no intervalo de um ensaio, com vozes e passos ao fundo. Ela disse que não era um assunto para resolver em cinco minutos. Santiago foi para um corredor e perguntou se podia ligar-lhe à noite.

Ela aceitou. Trabalhou no turno seguinte sem usar cada pausa para verificar o telefone. Queria ouvir a conversa inteira, não recolher palavras entre tarefas e decidir depois o que significavam.

À noite, Santiago ligou da casa onde estava a ficar. Elisa contou-lhe o convite, a reunião e a passagem. Disse que queria vê-lo e que também lhe apetecia aceitar o trabalho na associação. Não sabia ainda qual das coisas lhe custaria mais adiar.

Santiago perguntou se havia outro ensaio aberto. Haveria um na semana seguinte, embora ele não soubesse se Elisa conseguiria outra troca de turno. Não lhe ofereceu a solução como se o esforço estivesse apenas do lado dela. Podia também ir à cidade num domingo, depois de uma entrega de materiais.

«A reunião é importante para ti?» perguntou.

«Acho que sim. E sinto-me um pouco ridícula a dizer isso de uma exposição de desenhos feitos na cozinha.»

«Os meus também começaram numa cozinha.»

Elisa ouviu o apoio sem precisar de o transformar numa ordem para escolher a associação. Santiago acrescentou que gostaria de a ter no ensaio. Não se fingia indiferente para facilitar a decisão. Podia ficar desapontado e continuar a querer que ela fizesse uma coisa sua.

Decidiram que Elisa iria à reunião. Ela alterou a passagem para a semana seguinte e conseguiu trocar o turno com uma colega adulta, oferecendo-se para cobrir uma manhã de que a colega precisava. A solução não caiu do céu nem exigiu que alguém assumisse a vida de outra pessoa. Exigiu duas chamadas e um calendário consultado com atenção.

Na associação, Elisa encontrou cinco moradores do prédio. Alguns conheciam Santiago, outros tinham participado apenas com um desenho. Não queriam organizar uma homenagem ao homem que pintara o pátio. Queriam mostrar o que tinham feito e convidar outras pessoas adultas do bairro a desenhar portas para uma segunda parede, numa sala interior.

Elisa gostou dessa proposta. O trabalho continuaria sem precisar de conservar cada coisa na forma em que Santiago a deixara. Havia espaço para ela decidir, perguntar e discordar.

Dividiram tarefas. Elisa ficou responsável por reunir os desenhos e escrever legendas curtas com os participantes. Um morador trataria da montagem. Outra pessoa ajudaria a divulgar a mostra. Nenhum tentaria fazer tudo para poder dizer que só existia graças ao seu esforço.

Naquela tarde, regressou a casa com um caderno cheio de notas. Abriu a janela e encontrou o pátio limpo. A parede tinha sido lavada durante a semana. A ausência das portas doeu-lhe menos do que esperara. Os desenhos estavam noutra parte da sua vida e já não dependiam de ela olhar para o mesmo sítio todos os dias.

Enviou uma fotografia do caderno a Santiago. Ele respondeu com uma imagem do cenário quase pronto. A maçaneta vermelha aparecia num painel mais alto do que Elisa imaginara. Agora outras pessoas teriam de estender a mão para a alcançar.

Na semana seguinte, viajou para Lisboa. Levou uma mala pequena e o caderno da exposição, sem o usar como trabalho que precisasse de mostrar imediatamente. Santiago esperava-a na estação. Abraçaram-se junto à saída, afastando-se para deixar passar as pessoas que vinham atrás.

O reencontro não teve a facilidade dos passeios no jardim. Elisa estava cansada da viagem. Santiago tinha a cabeça ocupada pelo ensaio. Foram buscar qualquer coisa para comer e sentaram-se num banco, num lugar onde a cidade lhes permitia não falar durante alguns minutos.

Ele perguntou se ela queria ir primeiro deixar a mala. Elisa disse que sim. A casa onde Santiago estava alojado tinha um quarto de hóspedes que a colega dele disponibilizara por duas noites. Elisa conhecia as condições antes de viajar. Não havia nenhuma expectativa escondida no convite nem a obrigação de dormir num espaço que não escolhera.

Descansou durante uma hora. Depois foram ao teatro. A sala estava em preparação e havia pessoas adultas a experimentar movimentos entre painéis. Santiago apresentou Elisa pelo nome e contou que a maçaneta fora desenhada por ela. Não a apresentou como uma pessoa que o acompanhava por não ter mais nada que fazer.

Durante o ensaio, Elisa viu a porta vermelha mudar de lugar várias vezes. As vozes que conhecia do pátio apareciam agora entre cenas, com a autorização e os créditos dos participantes. O desenho dela continuava simples, mas não pequeno. Fazia parte de uma construção que mais pessoas estavam a aprender a usar.

Quando terminaram, Santiago não perguntou logo se ela gostara. Perguntou o que tinha reparado. Elisa falou de uma entrada que lhe parecera apressada e de uma sombra que escondia parte da maçaneta. Ele ouviu, anotou a observação e explicou o que ainda podiam alterar.

Jantaram tarde, com dois colegas do espetáculo. Elisa participou na conversa, embora não conhecesse todas as pessoas mencionadas. Santiago não traduziu constantemente os assuntos para ela nem a deixou sozinha entre referências. Havia uma forma de incluir que não precisava de a transformar em convidada permanente.

No caminho de regresso, ela disse que gostara de o ver trabalhar. Santiago perguntou se isso alterava a ideia que tinha dele. Elisa respondeu que acrescentava coisas. Não tinha de perder as tardes do pátio para aceitar a existência de outra vida.

Beijaram-se à porta da casa. Ficaram próximos por alguns instantes, sem transformar a viagem numa prova que precisasse de ser recompensada. Elisa disse-lhe que queria dormir. Santiago respondeu que também e combinaram pequeno-almoço antes de cada um sair do quarto que tinha escolhido.

No domingo, passearam sem horários apertados. Elisa mostrou-lhe o caderno da exposição. Santiago ofereceu duas sugestões e deixou-a decidir se lhe serviam. Ela recusou uma, aceitou a outra e reparou que a conversa continuava agradável depois do desacordo.

Antes de ela partir, falaram do que aconteceria no fim das oito semanas. Santiago tinha recebido uma proposta de trabalho noutro espetáculo, na mesma cidade. Gostava do projeto, mas não queria continuar a decidir todas as mudanças a partir da próxima encomenda. Elisa não lhe pediu que voltasse apenas para que a relação fosse mais fácil.

«Quero saber como podemos continuar», disse. «Não quero escolher por ti o sítio onde trabalhas.»

Ele concordou. Podiam tentar encontrar-se duas vezes por mês, alternando quem viajava, e rever a combinação depois de algum tempo. Não haveria uma garantia sobre todos os turnos nem todos os ensaios. Haveria esforço partilhado, e o direito de dizer quando deixasse de servir.

Elisa voltou com uma data marcada e outra ainda por escolher. Na viagem, abriu o caderno e trabalhou numa legenda. Não passou o caminho inteiro a escrever mensagens para prolongar o encontro. Queria chegar a casa com alguma coisa sua por acabar.

A exposição abriu um mês depois. Santiago foi vê-la no domingo em que podia viajar. A sala estava cheia de portas diferentes, acompanhadas por frases curtas que os próprios autores tinham escolhido. Elisa tinha decidido não corrigir a letra dos desenhos. Algumas legendas foram impressas; outras ficaram manuscritas, porque era essa a preferência de quem as escrevera.

Santiago encontrou a maçaneta vermelha numa moldura pequena. Ao lado havia uma janela desenhada depois de ele partir. Não estava aberta nem fechada. Tinha apenas o espaço necessário para alguém se aproximar.

Elisa apresentou-lhe os participantes novos e deixou-o conversar enquanto recebia outras pessoas. Não precisava de o manter junto dela durante toda a tarde para demonstrar que tinham uma relação. Quando a sala esvaziou, foram juntos arrumar as cadeiras.

O jantar foi em casa de Elisa. Santiago guardou a mala no quarto de hóspedes, como tinham combinado, e deixou a bicicleta no lugar coberto que lhe mostrara meses antes. Tinha-a trazido para que pudessem passear na manhã seguinte. Elisa alugaria uma, até decidir se queria comprar.

Sentaram-se na cozinha. O primeiro desenho continuava preso no frigorífico, embora a fita adesiva já tivesse perdido parte da força. Santiago aproximou-se para o endireitar e Elisa disse que o deixasse assim.

Depois perguntou-lhe a que horas queria sair no dia seguinte. Ele respondeu que podia ser depois do pequeno-almoço. Elisa consultou o tempo, confirmou que não choveria de manhã e fechou o telefone. Tinham uma estrada para escolher e, ao fim da tarde, aquela casa à qual regressar.

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