Uma história Meia Noite
A casa de setembro
O plano de férias de Leonor tinha nove páginas e uma capa com a fotografia da casa. Mauro encontrou-o na mala, entre os livros, e perguntou se havia um exame no último dia.

O plano de férias de Leonor tinha nove páginas e uma capa com a fotografia da casa. Mauro encontrou-o na mala, entre os livros, e perguntou se havia um exame no último dia.
Ela tirou-lhe a pasta da mão. Já tinham discutido os percursos por mensagem. Não queria começar as férias a ouvir que organizava demasiado uma semana que ambos tinham levado meses a conseguir marcar.
Leonor tinha trinta e seis anos, Mauro trinta e nove. Viviam juntos havia sete e trabalhavam em empresas diferentes, com horários que pareciam combinar apenas para lhes reduzir as noites disponíveis. Alugaram uma casa no interior durante a segunda semana de setembro. O anúncio prometia silêncio, uma cozinha equipada e um terraço com vista para o vale. Nenhum dos dois perguntou o que queria fazer com aquele silêncio.
Chegaram numa tarde quente. Leonor abriu as janelas e foi verificar os quartos. Mauro ficou sentado no degrau da entrada, a observar um gato que não parecia pertencer à casa mas assumia a sua vigilância. Quando ela voltou, perguntou-lhe se queria desfazer as malas.
«Daqui a pouco.»
«Vamos jantar cedo para sair cedo amanhã.»
Mauro olhou para a pasta. Não discutiu. Subiu para o quarto e colocou a roupa na gaveta que Leonor lhe indicou.
O jantar correu bem até ela lhe mostrar o percurso do dia seguinte. Havia uma caminhada, uma visita a uma aldeia e uma prova de produtos locais. Tudo tinha sido escolhido com atenção. Mauro leu a página, pousou-a e disse que queria ficar em casa de manhã.
Leonor ouviu mais do que ele dissera. Pensou nos meses a procurar uma semana comum, no dinheiro que tinham gasto e no esforço para não acabarem num sítio qualquer a consultar os telefones. Se ele queria ficar em casa, porque tinham ido até ali?
Mauro respondeu que queria ficar naquela casa, onde não havia roupa para lavar nem contas para organizar. Não queria transportar os dias de trabalho para uma paisagem diferente.
«Podias ter dito isso antes.»
«Podias ter-me perguntado antes de reservares as três coisas para amanhã.»
Ficaram ambos à espera de uma terceira frase que resolvesse a discussão. Não veio. Leonor foi para o terraço com o livro. Mauro lavou os pratos e sentou-se no degrau. A casa tinha espaço suficiente para não precisarem de fingir boa disposição em divisões onde não queriam estar.
Na manhã seguinte, ela saiu sozinha para a caminhada. Não o fez para o castigar, embora uma parte da sua pressa quisesse que Mauro percebesse o que estava a perder. Levou água e o percurso impresso. Ao fim de meia hora, descobriu que se tinha esquecido de verificar a subida.
O caminho era mais exigente do que a descrição lhe fizera supor. Leonor parou várias vezes. Não havia ninguém a quem pudesse mostrar que a escolha tinha sido boa. A certa altura, sentou-se numa pedra e começou a achar graça à necessidade que tivera de transformar uma manhã de férias numa demonstração de competência.
Continuou até um miradouro e regressou sem cumprir o resto do programa. Encontrou Mauro no terraço, a descascar legumes. Tinha ido a uma mercearia próxima e comprado o suficiente para dois dias. O gato vigiava-o a partir de uma cadeira.
«Correu bem?» perguntou ele.
«Correu. Mas se tivesses vindo, já me tinhas pedido para voltar atrás quatro vezes.»
«E tu tinhas ignorado as primeiras três.»
Leonor deixou a mochila junto à porta. Não queria usar aquela concordância para fingir que nada se passara. Disse-lhe que tinha medo de chegarem ao fim das férias sem nenhuma recordação em comum, depois de passarem o ano quase sem tempo juntos.
Mauro pousou a faca. Explicou que sentia falta de estar com ela sem assistir à gestão do tempo. Nos últimos meses, tinha começado a viver os convites como tarefas, até quando lhe apeteciam. Não era justo para ela nem uma coisa de que se orgulhasse.
Almoçaram no terraço. Leonor perguntou-lhe o que queria fazer naquela tarde. Ele disse que gostava de ir à aldeia que ela tinha escolhido, mas sem marcar a visita seguinte. Podiam ficar o tempo que lhes apetecesse. Ela aceitou e fechou a pasta antes de levar os pratos para a cozinha.
Na aldeia, encontraram uma loja que vendia livros usados e ferramentas. O homem que a geria não precisava de que escolhessem depressa. Mauro passou meia hora a examinar um objeto que julgava servir para medir paredes. Leonor encontrou um guia antigo da região, com estradas que já não existiam da mesma maneira.
Compraram o guia e deixaram a ferramenta. Mauro não chegou a perceber o que era. A ausência de resposta pareceu-lhe uma coisa que podia levar para casa sem sentir que deixara trabalho por acabar.
Ao regressarem, pararam junto a uma ponte. Leonor aproximou-se da água e Mauro ficou a vê-la escolher um lugar para se sentar. Não lhe tirou uma fotografia sem perguntar. Ela chamou-o e ele sentou-se ao lado, com os sapatos pendurados pela ponta dos dedos.
«Ainda gostas de viajar comigo?» perguntou Leonor.
Mauro não respondeu imediatamente. Disse que gostava, mas que às vezes receava desapontá-la antes de chegarem ao destino. Leonor ouviu a frase até ao fim. Não podia resolver esse receio dizendo-lhe que era absurdo. Podia deixar de tornar cada mudança de plano numa confirmação de desinteresse.
«Amanhã podes ficar em casa outra vez», disse. «Eu quero ir ver a feira.»
Ele concordou. Perguntou se ela queria companhia à noite. Leonor aproximou a mão da dele e respondeu que sim. Ficaram perto da ponte até a luz mudar. O regresso demorou mais do que qualquer dos dois teria posto no programa.
Na terceira noite, Mauro preparou uma mesa no terraço. Leonor chegou da feira com pão e uma toalha que não precisava de comprar. A toalha era amarela e ficou demasiado comprida. Prenderam uma ponta com duas pedras para não voar.
Jantaram sem falar dos dias que faltavam. Depois, Mauro pôs música no telefone, baixa o suficiente para não chegar à casa vizinha. Leonor levantou-se e convidou-o a dançar. O terraço não tinha um chão regular. Deram passos pequenos, corrigiram-se e acabaram a rir quando uma das pedras caiu da mesa.
Mauro abraçou-a. Leonor beijou-o com a vontade que reconhecia e que nos últimos meses parecera sempre ter uma hora errada. Não precisavam de acrescentar nada àquela noite para a justificar. Ficaram juntos no terraço enquanto a casa arrefecia.
As férias não se tornaram perfeitas. Num dia choveu e a cozinha cheirou a pão queimado porque Mauro esquecera o forno ligado. Noutro, Leonor insistiu num percurso que ambos abandonaram depois de encontrarem a estrada cortada. Discutiram de novo, mas por assuntos que conseguiram acabar antes do jantar.
Na última manhã, ela encontrou a pasta dentro do saco dos livros. Tirou-lhe a capa e guardou o resto. Queria aproveitar os percursos noutra ocasião, sem transformar a semana numa derrota da pessoa que os escolhera.
Mauro segurou a porta enquanto ela carregava as malas. O gato ficou no degrau, pouco interessado na despedida. Leonor deixou a toalha amarela dobrada num saco separado.
Em casa, estenderam-na na mesa da cozinha. Não cabia melhor ali, mas não a cortaram. Mauro marcou uma noite sem trabalho na agenda. Leonor perguntou-lhe o que queria fazer. Ele disse que ainda não sabia e, pela primeira vez em muito tempo, isso não a fez procurar logo uma lista.


