Uma história Meia Noite
Maré de dentro
O barco que Leonor pretendia pintar desapareceu antes de ela acabar o desenho. Quando voltou ao cais, encontrou apenas a corda molhada e um homem a perguntar por um lenço vermelho.

O barco que Leonor pretendia pintar desapareceu antes de ela acabar o desenho. Quando voltou ao cais, encontrou apenas a corda molhada e um homem a perguntar por um lenço vermelho.
O lenço era dela. Estava preso à alça do saco, depois de ter passado a manhã pendurado num corrimão. Leonor mostrou-lho. O homem pareceu aliviado de uma forma que não combinava com um objeto tão pouco valioso.
«Pensei que alguém o tivesse perdido.»
«Perdi-o durante vinte minutos. Já estamos reconciliados.»
Ele apresentou-se como André e perguntou se podia ver o desenho. Leonor hesitou. Aos trinta e quatro anos, continuava a esconder os cadernos como se um traço mal feito pudesse denunciar uma falha mais séria. Trabalhava em contabilidade e passara os últimos oito anos a adiar um curso de ilustração. A semana na Ria Formosa era a primeira experiência de férias sem companhia, sem agenda e sem uma pessoa a quem atribuir as decisões.
André tinha trinta e sete anos e instalava sistemas de som em espaços culturais. Estava na ilha a ajudar um amigo a preparar uma pequena exposição. O barco pertencia ao homem que transportava as estruturas. Regressaria ao fim da tarde, garantiu. Leonor disse que já não precisava. A proa que inventara era melhor do que a verdadeira.
«Então não te apresento o dono. Ia ficar ofendido.»
Sentaram-se num muro baixo, à sombra insuficiente de uma árvore. André perguntou-lhe o que a trouxera ali. Ela respondeu que precisava de não ser útil durante alguns dias. A frase saiu-lhe antes de a poder tornar mais simpática. Ele não riu. Contou que desligara as notificações do trabalho e passara a primeira manhã a verificar se o telefone continuava ligado.
Almoçaram numa esplanada, cada um pagando a sua parte sem o pequeno teatro da insistência. Leonor gostou de poder escolher peixe sem discutir a relação entre preço e tamanho da dose. Gostou também de André lhe perguntar por que razão desenhara uma janela numa embarcação que não a tinha. Era uma pergunta sobre o desenho, não sobre a possibilidade de ela ganhar dinheiro com aquilo.
À saída, ele convidou-a a visitar a exposição ainda desmontada. Leonor aceitou com a condição de não ter de carregar nada. Acabou a segurar uma ponta de uma tela enquanto André procurava o suporte certo. Repreendeu-o. Ele ofereceu-lhe uma credencial imaginária de pessoa rigorosamente dispensada de ajudar.
Os trabalhos eram fotografias antigas cedidas por moradores. Leonor demorou-se diante de uma mulher que aparecia sentada numa soleira, com um prato sobre os joelhos e os olhos afastados da objetiva. André contou-lhe que ninguém sabia o que ela estava a olhar. Tinham perguntado à família, consultado outros negativos, comparado a direção das sombras. A curiosidade sobrevivera a todas as explicações.
«Ainda bem», disse Leonor. «Ela fica com alguma coisa só dela.»
Ele olhou para a fotografia de novo. Depois olhou para Leonor. A atenção durou pouco, mas alterou o espaço entre ambos. Ela baixou os olhos para o programa da exposição e percebeu que tinha vontade de ficar, não por não saber onde ir, mas por querer ouvir a resposta dele.
Encontraram-se de novo no dia seguinte. André levou café; Leonor trouxe dois pastéis que chegaram esmagados. Caminharam até uma zona onde o lodo descoberto pela maré refletia o céu em pequenas poças. Ela sentou-se a desenhar. Ele ficou ao lado, a ler um livro que não abriu durante vinte minutos.
«Podes falar», disse Leonor. «Não estou a fazer uma cirurgia.»
«Estava a tentar parecer uma companhia tranquila.»
«E és?»
«Nem sempre. Às vezes faço perguntas a mais.»
Ela esperou pela primeira. André quis saber se o curso que adiava tinha inscrições abertas. Leonor respondeu que sim, até sexta-feira. Irritou-se com a simplicidade da pergunta. Preferia falar de talento, oportunidade e grandes obstáculos. Um prazo concreto tirava-lhe muitas desculpas.
Não discutiram. Ela fechou o caderno e disse que precisava de passear sozinha. André aceitou sem ficar ofendido por ela precisar de distância. Esse respeito tornou mais difícil mantê-la. Leonor caminhou até perder de vista o cais, sentou-se junto a uma vedação e abriu no telefone a página do curso. Preencheu metade do formulário. Depois guardou-o, determinada a não transformar um homem acabado de conhecer numa razão para mudar de vida.
Regressou à exposição ao fim da tarde. André estava a testar uma gravação de vozes, baixando o volume para não perturbar os vizinhos. Ela esperou que terminasse e entregou-lhe o desenho do barco.
«Não me inscrevi por tua causa», anunciou.
Ele examinou a folha, confuso.
«Está bem. Mas inscreveste-te?»
«Inscrevi.»
André sorriu sem reclamar uma parte da decisão. Leonor sentiu-se capaz de lhe contar que estava assustada. O curso começava em novembro, duas noites por semana, e não oferecia nenhuma garantia de que ela fosse boa. Ele respondeu que as melhores coisas que aprendera também não vinham com essa garantia. A frase podia ser banal; a forma como a disse, sem a usar para encerrar o assunto, permitiu-lhe acreditar nela.
Na inauguração, Leonor usou o lenço vermelho no cabelo. André apresentou-a pelo nome, sem lhe acrescentar uma profissão ou uma história. Ela conversou com pessoas desconhecidas, ouviu as gravações e descobriu detalhes nas fotografias que não vira antes. Quando saíram, a noite estava limpa. O último barco para a margem ainda demorava.
Foram até ao cais. André perguntou se podia dar-lhe a mão. Leonor respondeu aproximando a sua, e caminharam assim até ao fim das tábuas. O encontro tinha uma data de fim possível, um regresso ao trabalho, cidades diferentes. Ela não queria fingir que essas coisas não existiam. Também não queria usá-las para se ausentar antes de partir.
«Gostava que me beijasses», disse.
André aproximou-se devagar. Leonor fechou os olhos apenas quando já não precisava de adivinhar o que ele pretendia. O beijo foi breve. O seguinte, pedido com um sorriso e recebido da mesma forma, deixou-os mais tempo junto ao corrimão. Um motor arrancou do outro lado da água e fez ambos olhar para o relógio.
No domingo despediram-se sem promessas heroicas. Trocaram moradas, escolheram um fim de semana e combinaram que nenhum usaria o silêncio para parecer menos interessado. André ficou no cais enquanto Leonor embarcava. Ela abriu o caderno durante a travessia e desenhou-o de memória, demasiado pequeno para lhe acertar no rosto.
Antes de partir, tinha passado pela esplanada do primeiro almoço. Pediu um café e desenhou a mesa vazia. O empregado perguntou se esperava alguém. Leonor respondeu que não, e percebeu que aquela resposta continuava a deixá-la contente. Conhecer André não apagara a descoberta de gostar da própria companhia. Queria levar as duas coisas consigo. Dobrou a conta dentro do caderno, pagou e regressou à pensão para buscar o saco. No quarto havia areia junto à porta e um copo onde deixara os lápis. Arrumou tudo sem a sensação habitual de ter vivido as férias de outra pessoa. A semana tinha sido sua, incluindo o que agora começava.
Em casa, na segunda-feira, encontrou uma mensagem com uma fotografia da exposição. O barco inventado estava pousado na secretária de André, ao lado das ferramentas. Leonor respondeu com a fotografia da inscrição confirmada. Depois acrescentou uma pergunta sobre o jantar do fim de semana seguinte. A distância podia organizar a viagem; não precisava de escolher por eles.


