Uma história Meia Noite
A bicicleta vermelha
A bicicleta vermelha tinha um travão bom e um travão que servia sobretudo para fazer barulho. Carolina descobriu isso na primeira descida e voltou à oficina com a dignidade reduzida à metade.

A bicicleta vermelha tinha um travão bom e um travão que servia sobretudo para fazer barulho. Carolina descobriu isso na primeira descida e voltou à oficina com a dignidade reduzida à metade.
A mulher que lha alugara ouviu a explicação, testou o travão e pediu desculpa. Chamava-se Vera, tinha trinta e seis anos e ocupava a antiga oficina do pai, numa aldeia perto de Porto Covo. Carolina, de trinta e três, estava de férias e tinha prometido a si própria fazer alguma coisa que não pudesse ser concluída num ecrã.
Vera ofereceu-lhe outra bicicleta. Carolina recusou. Agora queria aquela, depois de a ter conseguido trazer de volta sem cair. Vera mudou o cabo do travão e pediu-lhe que desse uma volta diante da oficina. Funcionava.
Na manhã seguinte, Carolina passou para dizer isso. Não precisava de passar. Tinha começado a reconhecer que algumas informações eram apenas maneiras aceitáveis de procurar uma pessoa.
Vera estava a lavar o chão. Levantou-se e sugeriu um percurso até a uma praia mais afastada. Carolina perguntou se ela conhecia mesmo o caminho ou se era uma vingança pelo problema do travão.
«Conheço. Posso mostrar-te depois de fechar.»
Foram ao fim da tarde. Carolina era mais lenta nas subidas e mais cautelosa nas descidas. Vera ajustou a velocidade sem comentar. Quando chegaram à praia, encostaram as bicicletas a um muro e desceram a pé.
Não levaram toalhas. Sentaram-se numa rocha, com os sapatos ao lado. A água avançava o suficiente para os obrigar, de tempos a tempos, a recolher os pés. Carolina contou que desenhava interfaces para aplicações e que ultimamente tinha a sensação de passar o dia a tornar fáceis tarefas que as pessoas talvez não precisassem de fazer.
Vera ouviu. Disse que podia experimentar desenhar uma aplicação que a avisasse quando o vento mudava e ela tinha roupa estendida. Carolina riu-se, aliviada por não ter recebido uma lição sobre a simplicidade da vida fora da cidade.
A conversa passou para as coisas de que gostavam. Vera tinha uma coleção desordenada de discos. Carolina sabia cozinhar apenas dois pratos, mas sabia-os bem. Uma gostava de ficar na aldeia no inverno; a outra nunca tinha passado mais de três dias junto ao mar sem sol.
Na subida de regresso, Carolina parou a meio. Precisava de respirar. Vera pousou a bicicleta e ficou ao lado dela.
«Não tens de me acompanhar até à oficina», disse Carolina.
«Quero acompanhar-te.»
Foi a primeira frase da tarde que ambas deixaram sem uma piada. Carolina pegou na mão de Vera. Vera aproximou-se e perguntou se ela queria um beijo. Carolina quis.
Voltaram mais devagar. À porta da oficina, combinaram jantar no dia seguinte. Carolina informou que sabia fazer dois pratos. Vera escolheu o que não levava forno, porque a cozinha onde ficava alojada não o tinha.
A semana acabou. Carolina devolveu a bicicleta e perguntou se podia alugá-la outra vez em novembro. Vera disse que em novembro chovia. Carolina respondeu que ainda não conhecia o inverno junto ao mar.
Não decidiram, naquele momento, como funcionaria a distância. Trocaram números, horários e a vontade de descobrir. Vera escreveu-lhe nessa noite para saber se tinha chegado bem. Carolina respondeu com a fotografia de uma rua cinzenta em Lisboa e perguntou pelo travão.
Vera disse que continuava bom. O outro é que fazia barulho.
Em novembro, Carolina levou um casaco impermeável e ficou mais de três dias.


