Uma história Meia Noite
A casa de sal
A dona da casa deixou duas recomendações: não fechar as portadas com o vento de norte e sacudir os sapatos antes de entrar. Elisa cumpriu a segunda. A primeira teve de aprender à custa de uma pancada que acordou a rua.

A dona da casa deixou duas recomendações: não fechar as portadas com o vento de norte e sacudir os sapatos antes de entrar. Elisa cumpriu a segunda. A primeira teve de aprender à custa de uma pancada que acordou a rua.
Tinha alugado a casa por uma semana, perto de Vila Nova de Milfontes. Aos quarenta e um anos, dava pela primeira vez umas férias inteiras a si própria. Sem companhia por obrigação, sem um plano repartido, sem ter de concordar com um restaurante porque o outro já concordara com a praia.
Na primeira manhã, tomou o pequeno-almoço de pé. Não sabia o que fazer com a liberdade de não ter de sair. Acabou por sair na mesma e perdeu-se numa rua curta que terminava num quintal.
O homem que reparava uma bicicleta no quintal levantou a cabeça.
«O mar é para o outro lado.»
«Não estou necessariamente à procura do mar.»
«Então chegaste ao sítio certo. Aqui nunca o encontramos.»
Elisa riu-se. Perguntou se havia uma mercearia por perto. Ele limpou as mãos num pano e explicou o caminho sem usar a expressão muito fácil, o que ela agradeceu. Chamava-se Manuel, tinha quarenta e cinco anos e arranjava bicicletas num espaço que começara por ser uma garagem.
Nos dias seguintes, Elisa passou à porta dele quando ia comprar pão. A conversa durava primeiro dois minutos, depois dez. Manuel parecia ter sempre uma bicicleta desmontada e nunca a mesma. Elisa confessou que não pedalava havia quinze anos.
«Não é uma coisa de que o corpo se esqueça.»
«O meu esquece-se de muita coisa conveniente.»
Ele propôs emprestar-lhe uma bicicleta pequena. Elisa recusou nesse dia e aceitou no seguinte. Pediu que não tivesse mudanças, porque não queria negociar com uma máquina enquanto tentava manter-se direita. Manuel trouxe-lhe uma azul e levou outra para si.
Foram por uma estrada quase vazia, com o cheiro dos eucaliptos a atravessar o caminho. Elisa pedalou rígida durante os primeiros minutos. Manuel ficou atrás sem dar instruções. Quando ela parou, junto a um muro baixo, ele parou também.
«Não precisas de fazer o passeio todo.»
«Eu sei. Só estou a deixar de acreditar que vou cair.»
Continuaram. Na praia, pousaram as bicicletas longe da areia. Manuel trouxe água e duas maçãs. Elisa contou-lhe que trabalhava numa agência de viagens e que raramente tinha vontade de viajar. Passava os dias a organizar partidas com tanta precisão que, quando chegava a vez dela, tudo lhe parecia mais uma encomenda.
Manuel disse que nunca saíra do país. Não parecia envergonhado. Elisa teve vontade de lhe perguntar porquê e reconheceu, a tempo, que a pergunta traria dentro de si uma censura que não queria fazer.
Sentaram-se no muro. O vento puxava a camisola dela pelas costas. Manuel ofereceu-lhe o casaco. Elisa aceitou e ficou a segurar a manga demasiado comprida, como se o tecido necessitasse de uma decisão.
«É estranho estar aqui e não ter saudades de casa», disse.
«Há alguma obrigação de as ter?»
Ela abanou a cabeça. O barulho das ondas permitiu-lhe demorar a resposta.
Nessa noite, convidou-o para jantar. Fez arroz, comprou peixe já limpo e queimou o primeiro alho. Manuel chegou com um saco de pão e uma garrafa de azeite que a irmã, de quarenta e sete anos, fazia na aldeia onde ambos tinham crescido.
Comeram na cozinha. A porta para o quintal estava aberta. Elisa perguntou-lhe se costumava jantar com pessoas que alugavam aquela casa. Manuel disse que não e depois perguntou se a resposta era importante.
«Era. Já não é.»
Depois de levantarem a mesa, ela pediu-lhe que ficasse. Não lhe pediu para ficar a semana inteira, nem para resolver a distância entre Milfontes e Lisboa. Queria apenas mais uma conversa antes de apagar a luz da cozinha.
Ele sentou-se outra vez. Elisa pousou a mão na dele. Ficaram assim enquanto Manuel contava a história da bicicleta mais velha da garagem, uma encomenda que esperava por uma roda impossível de encontrar.
Quando se despediram, Elisa beijou-o. Ele devolveu o beijo e perguntou se podia voltar no dia seguinte. Ela disse que sim, mas só depois do almoço, porque a manhã seria para si.
Manuel compreendeu sem se mostrar ofendido. Essa foi a coisa de que ela mais gostou.
No sábado, antes de partir, deixou a bicicleta azul à porta da garagem. O casaco ficou no cesto, dobrado. Manuel apareceu antes de ela tocar.
«Voltaste a saber andar.»
«Ainda não sei travar bem.»
Ele segurou-lhe a mão por um instante. Elisa prometeu telefonar quando chegasse. Não prometeu voltar em agosto. Já tinha marcado uma semana para setembro.
Ao fechar a casa, sacudiu os sapatos com cuidado. Levou areia na mala apesar disso.


