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Uma história Meia Noite

Uma dança na cozinha

A rádio tocou a canção errada. Era essa a opinião de Paulo. Beatriz achou que uma canção não podia estar errada só por chegar no momento em que alguém lavava uma frigideira.

Inês Azevedo3 min de leitura Sensual
Rádio e uma mesa de cozinha sob a luz de um candeeiro
Ao teu ritmo

A rádio tocou a canção errada. Era essa a opinião de Paulo. Beatriz achou que uma canção não podia estar errada só por chegar no momento em que alguém lavava uma frigideira.

Estavam na casa nova havia três semanas. Aos quarenta e quatro anos, Beatriz descobrira que mudar de apartamento não eliminava os hábitos do casamento. Paulo, de quarenta e oito, continuava a lavar a louça pela ordem que aprendera sozinho e a considerar qualquer intervenção uma crítica profissional.

Naquela sexta-feira, discutiram por causa de um tapete. Beatriz queria tirá-lo da sala. Paulo queria conservá-lo, embora reconhecesse que tropeçava nele. Nenhum disse, durante a discussão, que o tapete viera da casa da mãe dele e que a decisão lhes pesava por motivos diferentes.

Jantaram quase em silêncio. Beatriz levantou a mesa. Paulo ficou a lavar a frigideira. Quando a rádio tocou a canção, ela encostou-se à bancada e começou a marcar o ritmo com o pé.

«Não te lembravas desta?»

Ele lembrava-se. Tocara num restaurante em Setúbal onde tinham ido depois de uma conversa difícil, muito antes do casamento. Beatriz não se lembrava do restaurante. Lembrava-se de Paulo lhe dizer que não sabia dançar e de o obrigar, por isso mesmo, a levantar-se.

«Continuo sem saber», avisou ele.

Ela estendeu-lhe a mão. Paulo olhou para a frigideira, depois para a mão. Secou os dedos num pano e aceitou.

A cozinha não tinha espaço. A primeira tentativa encontrou a mesa. A segunda encontrou o caixote do lixo. Beatriz propôs que dançassem sem sair do sítio, que era, segundo disse, a especialidade dos casamentos longos.

Paulo riu-se. Ela também. Encostaram-se um ao outro enquanto a música vinha da rádio pequena, cuja antena precisava de ficar numa posição absurda para não chiar.

«Não é por causa do tapete», disse Beatriz.

Paulo assentiu. Ela continuou. A casa nova parecia-lhe ainda uma extensão da antiga, com os mesmos objetos a ocupar as mesmas discussões. Queria que escolhessem alguma coisa juntos. Ele pensava que a mudança já era essa escolha, mas percebeu que não bastava ter transportado caixas para terem chegado ao mesmo sítio.

A música acabou. Nenhum dos dois se afastou logo.

«Podemos guardar o tapete no escritório», disse Paulo.

«Não há escritório.»

«Então acabámos de descobrir outro problema.»

Beatriz apoiou a cabeça no ombro dele. Disse que podiam dar tempo à sala antes de decidirem. Paulo propôs comprar uma cadeira horrível escolhida pelos dois. Ela considerou a proposta um princípio de negociação aceitável.

O beijo que se seguiu teve qualquer coisa de familiar e qualquer coisa de embaraçado. Beatriz deixou-o demorar. Paulo perguntou se queria dançar mais uma. Ela disse que queria, mas escolhia a canção.

A rádio não obedeceu. Puseram música no telefone e deixaram-no virado para baixo, sobre a mesa.

No sábado, foram ver cadeiras. Não compraram nenhuma. Regressaram com uma planta grande que não cabia onde Paulo a imaginara.

Puseram-na junto ao tapete. Por alguns dias, a sala encontrou uma conversa nova.

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