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Uma história Meia Noite

Duas voltas à chave

A chave nova abriu a porta à primeira, o que desiludiu Teresa. Tinha preparado uma frase para o caso de a fechadura resistir e, sem esse pequeno obstáculo, ficou apenas com um saco de pão na mão.

Inês Azevedo7 min de leitura Quente
Duas chaves e duas chávenas sobre uma mesa vermelha, junto a uma janela com chuva.
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A chave nova abriu a porta à primeira, o que desiludiu Teresa. Tinha preparado uma frase para o caso de a fechadura resistir e, sem esse pequeno obstáculo, ficou apenas com um saco de pão na mão.

«Trouxe o que gostas», disse.

Vasco afastou uma caixa com o pé. A cozinha estava quase vazia. Na parede, o retângulo mais claro do calendário parecia uma janela para um ano que ambos tinham perdido. Teresa reconheceu a mesa vermelha, comprada num leilão quando tinham trinta anos e certezas muito económicas. Agora ela tinha quarenta e três, ele quarenta e cinco, e a mesa era o único objeto cuja divisão ainda não tinham discutido.

Não estavam a separar-se. Esta explicação, repetida aos amigos durante dois meses, começara a soar pouco convincente até para eles. Teresa aceitara um trabalho de seis meses em Aveiro. Vasco continuaria em Lisboa. Entregavam o apartamento porque o senhorio o queria vender. Era uma sequência de decisões práticas, com datas, recibos e uma empresa de mudanças. O casamento não aparecia em nenhum formulário.

«O pão já está cortado?»

«Está.»

«Então ainda te lembras.»

Ela pousou o saco com mais força do que pretendia. Lembrava-se de coisas suficientes para encher outro apartamento. Do café sem açúcar, do ombro que lhe doía quando chovia, da maneira como ele fingia não ouvir as notícias para poder reclamar da mesma notícia cinco minutos depois. O problema nunca fora a memória.

Tinham combinado acabar de arrumar a cozinha. Teresa trazia um comboio marcado para as nove. Vasco reservava a manhã seguinte para entregar as chaves. Trabalharam lado a lado, embrulhando pratos em folhas de um jornal desportivo que nenhum dos dois lia. A chuva começou antes das seis e tornou a varanda inutilizável. As caixas vazias tiveram de ficar no corredor.

Dentro de uma gaveta apareceu um envelope azul. Teresa reconheceu imediatamente a conta de um restaurante. Tinha-a guardado porque, nessa noite, Vasco lhe perguntara se queria morar com ele e depois se esquecera da carteira. Riram-se na altura. Agora ele estendeu-lhe o papel sem dizer nada.

«Foste tu que pagaste a entrada», comentou finalmente.

«Paguei tudo. Até o teu café.»

Ele sorriu, e aquele sorriso inesperado desarmou-a mais do que uma declaração. Nas últimas semanas, Vasco sorria como quem cumpria uma obrigação de boa educação. Este chegava-lhe aos olhos. Teresa ficou a olhar tempo suficiente para ele reparar. Baixou a conta, deixou de rir e perguntou se ela queria jantar ali.

«Não temos pratos.»

«Acabámos de embrulhá-los. Ainda sei onde estão.»

Havia ovos, duas cebolas e uma lata de tomate. Vasco cozinhou de casaco, porque já tinham levado o aquecedor. Teresa encontrou uma vela no fundo do armário e colocou-a num pires. Não tentou transformar aquilo numa ocasião. Pousou os talheres desencontrados e puxou duas cadeiras para a mesa. A luz da cozinha era demasiado branca; apagou-a.

Durante algum tempo falaram do caminho para a estação, das obras na rua, do frigorífico que o transportador prometera levar. Depois Teresa perguntou aquilo que vinha a evitar desde setembro.

«Ficaste zangado por eu ter aceitado?»

Vasco mexeu no pão. Não levantou logo os olhos.

«Fiquei zangado por teres achado que precisavas da minha autorização.»

«Não precisava.»

«Eu sei. Mas explicaste-me o contrato durante uma hora. Nem me disseste que estavas contente.»

Teresa sentiu vontade de responder depressa. Era o que fazia quando receava que uma conversa lhe fugisse. Naquela noite, encostou-se à cadeira e deixou a acusação pousar. Tinha preparado argumentos, horários e soluções antes de contar uma alegria. Esperara oposição e, quando ela não chegara, continuara a defender-se sozinha.

«Estava muito contente», disse. «Ainda estou. E tive medo de que isso te magoasse.»

Vasco assentiu devagar. Também ele tinha coisas a admitir. Perante cada proposta de fim de semana, respondera com dificuldades: o trânsito, os prazos, o gato da vizinha de quem se oferecera para tratar. Nenhum impedimento era insuperável. Todos juntos pareciam uma porta encostada. Disse-o sem procurar uma desculpa que lhe desse razão.

O jantar arrefeceu enquanto falavam. Descobriram que tinham passado semanas a adivinhar respostas que nenhum pedira ao outro. Teresa receava chegar a Aveiro e sentir alívio. Vasco receava visitá-la e perceber que era apenas uma visita. Ditos em voz alta, os medos perderam alguma autoridade. Continuavam ali, mas já podiam ser discutidos.

Vasco foi aquecer a frigideira e ela acompanhou-o. Ficaram de pé junto ao fogão, a comer os últimos pedaços de pão com o molho. Teresa lembrou-se de quantas vezes tinham terminado uma discussão sem chegar a falar do assunto. Aquela, pelo menos, tinha chegado inteira à cozinha.

Ela foi buscar o telefone para mudar o comboio. Vasco levantou a mão, detendo-a antes de tocar no ecrã.

«Não precisas de ficar para provar nada.»

«Eu sei.»

«Tens uma reunião amanhã.»

«Às onze. Há um comboio cedo.»

Ficou à espera de que ele parasse de encontrar razões por ela. Vasco percebeu, fechou a boca e soltou uma gargalhada curta. Teresa alterou o bilhete. O pequeno aviso de confirmação pareceu-lhe uma decisão maior do que os contratos que assinara nesse mês, embora não resolvesse nenhum deles.

Havia um colchão no quarto, à espera do transporte. Havia também uma torneira a pingar e sacos de lixo por levar. Foram os dois à rua debaixo do mesmo guarda-chuva. O vento virou-o na esquina e regressaram a rir, molhados até aos joelhos. No patamar, Vasco tirou-lhe uma folha do cabelo. Teresa agarrou-lhe a mão antes de ele a baixar.

«Posso beijar-te?»

Ele olhou para ela com uma atenção que a fez esquecer o corredor.

«Podes. Estava a tentar perceber se ainda me ias perguntar.»

O beijo começou com a familiaridade de muitos anos e demorou-se com uma hesitação nova. Teresa reconheceu o homem diante de si sem sentir que já sabia tudo sobre ele. Quando se afastaram, ficaram de mãos dadas junto à porta, a ouvir a água escorrer do guarda-chuva para o chão. Não havia urgência em tornar aquele momento numa promessa.

Mais tarde apagaram a vela e deixaram a cozinha por acabar. A noite pertenceu-lhes sem balanços nem explicações. As caixas permaneceram no corredor; o futuro também podia esperar algumas horas.

De manhã, Vasco acordou antes do despertador e foi buscar café. Teresa encontrou-o sentado à mesa vermelha, com duas chaves diante de si. Uma era do apartamento que entregariam. A outra tinha uma etiqueta de papel com uma morada em Aveiro.

«Esta é minha?»

«É, se a quiseres. Não para chegares sem avisar.»

«Que desilusão. Já tinha preparado entradas dramáticas.»

Ela escreveu no verso da etiqueta o fim de semana em que gostaria de o receber. Ele tirou do bolso um bilhete de comboio comprado enquanto esperava pelo café. Era para a mesma sexta-feira. Teresa riu-se, mas não fingiu que a coincidência bastava. Combinaram horários, despesas e o direito de dizer quando alguma coisa estivesse a custar.

Faltava decidir a mesa. Vasco sugeriu vendê-la. Teresa olhou para as marcas dos copos, para uma queimadura antiga junto à borda e para o vermelho gasto onde ambos apoiavam os braços.

«Vai para Aveiro», decidiu. «Ainda cabe gente dos dois lados.»

Saíram com tempo para a estação. Teresa deu duas voltas à chave e entregou-a a Vasco. A outra ficou no bolso dele, presa à etiqueta que ela tinha escrito. Não era uma solução para seis meses. Era um modo concreto de começar a sexta-feira seguinte.

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