Uma história Meia Noite
As chaves de outubro
Cláudia ficou com as chaves da casa nova e deu a Rui as da casa antiga. Estavam casados havia dezassete anos, mas aquela troca fez-se num café, com a dificuldade de uma negociação entre pessoas que não sabiam se voltariam a encontrar-se.

Cláudia ficou com as chaves da casa nova e deu a Rui as da casa antiga. Estavam casados havia dezassete anos, mas aquela troca fez-se num café, com a dificuldade de uma negociação entre pessoas que não sabiam se voltariam a encontrar-se.
Não se tinham separado. Pelo menos, era isso que diziam quando alguém perguntava. Cláudia, de quarenta e quatro anos, aceitara um trabalho em Braga. Rui, de quarenta e sete, continuava a gerir uma pequena empresa no Porto. A viagem diária parecia-lhes possível até a experimentarem durante seis semanas.
«Vou alugar um sítio durante uns meses», dissera ela.
Rui concordara depressa. Cláudia continuava sem saber se a rapidez tinha sido uma forma de apoiar a decisão ou uma maneira de se livrar da discussão.
O apartamento novo tinha uma cozinha estreita e uma janela sobre um telhado. Ela comprara uma frigideira, dois pratos e uma planta que não precisava de muita luz. Fazia as refeições à hora a que lhe apetecia. Deixava o livro aberto na mesa. Durante a primeira semana, dormira melhor do que nos últimos meses e sentira-se culpada por isso.
Rui telefonava às dez. Às vezes perguntava o que ela tinha comido. Cláudia respondia, e ambos ficavam sem assunto. Conheciam o dia um do outro demasiado bem para fazer perguntas interessantes, mas demasiado mal para saber onde tinham deixado de se ouvir.
Na terceira quinta-feira, ele apareceu com uma caixa de ferramentas. Ela recebera-o depois de um dia longo e pensara que havia alguma coisa estragada.
«A prateleira da casa de banho. Disseste que abanava.»
«Disse há dez dias.»
«Foi quando podia vir.»
Rui pousou a caixa. Cláudia percebeu que tinha conseguido transformar uma visita num erro antes de lhe dar espaço para acontecer. Ofereceu-lhe jantar. Ele perguntou se podia levar pão à rua. Era uma pergunta tão parecida com as de casa que ela teve vontade de lhe dizer que não eram obrigados a repetir tudo.
Deixou-o ir. Enquanto ele estava fora, tirou do armário um terceiro prato, comprado para visitas que até ali não tivera. Rui chegou com pão e duas peras. Pôs as peras no parapeito da janela, onde havia mais espaço do que na bancada.
Jantaram sem televisão. Cláudia contou um problema no trabalho que nunca tinha conseguido explicar ao telefone. Rui ouviu-a até ao fim. Quando ela acabou, ele perguntou se queria uma opinião ou só que ficasse ali.
«Só que fiques.»
Ele assentiu. Mais tarde, apertou os parafusos da prateleira e ficou a observar a divisão minúscula, como se tentasse descobrir quanto lugar aquela casa tinha para a sua presença.
«Trouxeste roupa?» perguntou Cláudia.
«Não sabia se devia.»
Ela também não sabia como responder. Queria que ele ficasse, mas não queria receber a visita como uma inspeção à vida que tinha começado a organizar. Disse-lhe ambas as coisas. Rui ouviu-as com a testa franzida, não por discordar, mas porque tinha de separar o que lhe doía do que ela estava realmente a dizer.
«Então posso ficar uma noite sem vir arrumar a tua casa?»
«Podes.»
Ele trouxe a caixa de ferramentas de volta para a entrada. Não a abriu outra vez.
Nessa noite, conversaram sentados no chão da sala, porque o sofá era pequeno demais para ficarem confortáveis lado a lado. Rui confessou que gostava de ter a casa antiga só para ele em algumas noites. Cláudia sentiu uma pontada de desilusão e, depois, reconheceu a liberdade que também estava a experimentar.
Não fizeram contas para ver quem gostava mais de estar sozinho. Falaram antes das coisas que queriam escolher de novo. Ela queria passear com Rui sem que o passeio terminasse no supermercado. Ele queria poder convidá-la para jantar sem ouvir primeiro a lista das tarefas que ficavam por fazer.
«Estamos a precisar de voltar a namorar?»
«Estamos a precisar de deixar de fazer de conta que isso já ficou tratado.»
Rui encostou a cabeça à parede. Cláudia puxou-o pela mão para se levantar. Foram caminhar até à praça, numa cidade que ele conhecia pelas reuniões e ela pelos trajetos entre casa e trabalho. Pararam diante de uma montra de roupa e discutiram se um casaco verde lhe ficaria bem. Ela gostou de descobrir que ainda podiam discordar de uma coisa sem arrastar os últimos seis meses.
Ao regressarem, Rui ficou junto à porta. Tinha a chave, mas esperou que ela a usasse. Cláudia percebeu o gesto e beijou-o antes de entrar. Foi ela quem o convidou a passar. Ele não fez qualquer piada sobre autorizações numa casa onde tinha acabado de apertar parafusos.
Na sexta-feira de manhã, ele saiu antes dela. Deixou pão num saco e lavou as duas chávenas que tinham usado. A caixa de ferramentas continuava na entrada. Cláudia telefonou-lhe quando a viu.
«Esqueceste-te de alguma coisa.»
«Foi de propósito. Preciso de uma desculpa para voltar.»
«Podes dispensar a caixa.»
Houve um silêncio breve. Rui perguntou se podiam jantar no sábado, desta vez no Porto. Cláudia aceitou, mas pediu que escolhessem um restaurante. Não queria chegar a casa e passar a noite a pôr a máquina a lavar.
No sábado, encontrou-o diante de um cinema antigo. Rui comprara os bilhetes e estava nervoso. A história do filme parecia-lhe indiferente; tinha escolhido aquela sala porque era pequena e ficava perto do sítio onde tinham jantado no primeiro encontro.
Cláudia lembrou-se do restaurante. Rui lembrava-se de um problema com a conta. Nenhum recordava o que tinham comido. A diferença das memórias divertiu-os e desfez a obrigação de repetir uma noite que já não podiam ter.
Depois do filme, foram a outro sítio. Cláudia tirou as chaves do bolso para procurar um lenço e deixou-as cair na mesa. Rui olhou para os dois conjuntos de metal. Um deles tinha um porta-chaves que lhe dera há muitos anos. O outro tinha apenas uma etiqueta branca.
«Queres que eu vá para Braga?» perguntou.
Ela pensou antes de responder. Não lhe ofereceu uma solução bonita para uma pergunta prática. Queria continuar naquele trabalho. Queria ficar com ele. Não sabia ainda se as duas coisas acabariam na mesma casa.
«Quero que não tenhas de adivinhar o que eu quero. E quero deixar de adivinhar o que tu aceitas só para não discutir.»
Rui passou o dedo pela borda do copo. Disse-lhe que também queria mudar algumas coisas no trabalho e nunca chegava a começar. A distância entre as casas tinha revelado outras distâncias que ambos tratavam como inevitáveis.
Marcaram um jantar por semana e uma manhã de domingo sem compromissos. Não chamaram ao acordo uma solução definitiva. Cláudia insistiu que podiam revê-lo quando deixasse de lhes servir. Rui anotou a primeira data no telefone e mostrou-lha, sem qualquer solenidade.
Em outubro, passaram um domingo a montar a prateleira da sala. A caixa de ferramentas tinha regressado ao Porto e voltado a Braga na mala do carro. Cláudia segurava a madeira enquanto Rui media a parede.
«Aqui?»
«Um pouco mais à esquerda.»
Ele mudou-a de sítio. Ela confirmou a medida. Na prateleira pousaram os livros que Rui queria ler e a planta que finalmente começara a crescer. As chaves ficaram junto à porta, em dois ganchos separados. Quando saíram para almoçar, Cláudia escolheu levar apenas as de Braga. Rui levou as outras e perguntou que caminho lhe apetecia fazer.


