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Uma história Meia Noite

O vestido de linho

O vestido continuava a ter a etiqueta. Comprei-o em março, pendurei-o no armário e passei a vê-lo como se pertencesse a uma mulher que um dia viesse buscar as coisas a minha casa.

Inês Azevedo3 min de leitura Sensual
Vestido de linho pendurado numa porta de madeira
Ao teu ritmo

O vestido continuava a ter a etiqueta. Comprei-o em março, pendurei-o no armário e passei a vê-lo como se pertencesse a uma mulher que um dia viesse buscar as coisas a minha casa.

Em setembro, Nélson convidou-me para jantar. Conhecíamo-nos do mercado, onde ele vendia pão e eu fingia precisar de escolher mais do que realmente precisava. Tinha quarenta e três anos. Eu tinha trinta e nove e um divórcio concluído havia dezoito meses, embora por vezes ainda respondesse às perguntas com a cautela de quem precisava de pedir autorização.

Disse-lhe que sim. No dia do jantar, tirei o vestido do armário e experimentei-o sem cortar a etiqueta. Parecia-me que havia alguma arrogância em querer estar bonita antes de saber se a noite merecia o trabalho.

Acabei por telefonar à minha amiga Joana, de quarenta anos. Pedi-lhe que viesse tomar café. Ela chegou, viu o vestido e perguntou por que tinha um papel pendurado nas costas.

«Ainda não sei se vou usá-lo.»

«Já estás a usá-lo.»

A frase resolveu menos coisas do que ela imaginava, mas resolveu a tesoura. Cortei a etiqueta e guardei-a numa gaveta, o que nos fez rir às duas.

Nélson chegou a horas. Eu cheguei cinco minutos depois porque passei três a conferir se a porta estava fechada. Jantámos num restaurante onde as mesas eram demasiado próximas. A conversa começou no pão e foi dar ao trabalho, à cidade e aos objetos que as pessoas guardavam por motivos difíceis de explicar.

Ele disse que conservava a primeira fatura da padaria. Eu não lhe contei da etiqueta. Ainda não queria que todas as minhas pequenas hesitações se tornassem material para um homem novo conhecer.

Quando o empregado de cabelo grisalho trouxe a sobremesa, Nélson perguntou há quanto tempo eu estava sozinha. A pergunta fez-me encolher. Ele reparou e disse que não precisava de responder. Eu respondi na mesma, mas acrescentei que sozinha nem sempre era a palavra que usava.

«Tens razão», disse ele.

Não corrigiu a frase para parecer que a tinha pensado melhor desde o princípio. Gostei disso.

Saímos a pé. O ar estava quente, uma noite de verão tardio em que as pessoas demoravam a aceitar o regresso dos horários. Nélson perguntou se queria continuar o passeio. Eu disse que sim e expliquei-lhe que não queria que isso fosse lido como uma promessa sobre o resto da noite.

Ele assentiu. Mudou o trajeto para uma rua com mais luz, apenas porque eu dissera que conhecia mal aquela zona. A atenção não veio acompanhada de comentário. Eu consegui finalmente deixar de verificar cada escolha.

Perto de casa, falei-lhe do vestido. Disse que o comprara sem motivo e que durante meses esperara por um motivo suficientemente bom para o usar. Nélson olhou para ele, depois para mim.

«Ainda bem que vieste.»

Era uma resposta melhor do que um elogio à roupa. Peguei-lhe na mão. Quando perguntou se me podia beijar, disse que queria. O beijo não me devolveu a mulher que eu tinha sido antes do divórcio. Ajudou-me a encontrar a que tinha ido jantar naquela noite.

Nélson despediu-se à porta e não ficou à espera de um convite que eu não fiz. Telefonei-lhe no dia seguinte. Marquei o segundo encontro antes de começar a discutir a decisão comigo.

Usei o vestido para ir comprar pão, numa quarta-feira. Chovia. Voltei com a bainha molhada e sem uma história grande para justificar o uso.

Nessa noite, encontrei a etiqueta na gaveta. Deitei-a fora.

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