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Uma história Meia Noite

O inventário das escolhas

A lista começou com um pedido de férias que eu não queria fazer. Quando cheguei à quinta linha, já estava a escrever coisas que nunca tinha dito em voz alta, nem às pessoas que julgavam conhecer-me melhor.

Inês Azevedo7 min de leitura Sensual
Caderno aberto numa mesa, com objetos pessoais e luz de uma janela.
Ao teu ritmo

A lista começou com um pedido de férias que eu não queria fazer. Quando cheguei à quinta linha, já estava a escrever coisas que nunca tinha dito em voz alta, nem às pessoas que julgavam conhecer-me melhor.

Tinha trinta e nove anos e trabalhava no controlo de qualidade de uma fábrica. Fazia listas por profissão. Peças verificadas, medidas, desvios, causas prováveis. Na vida fora do trabalho, aceitava decisões alheias com uma eficiência que começava a cansar-me. Dizia que qualquer restaurante servia. Dizia que podia conduzir. Dizia que não me importava de ir naquele fim de semana, mesmo quando queria ficar em casa.

O pedido de férias era para uma viagem organizada por duas amigas. Gostava delas. Não gostava de passar sete dias a mudar de hotel para dizer que tinha visto cinco cidades. Escrevi isso na primeira linha. Na segunda, anotei que queria aprender a fazer pão. Na terceira, que me apetecia voltar ao teatro sem esperar que alguém escolhesse o espetáculo.

A quarta linha não tinha verbo. Era um nome: Noé.

Noé tinha quarenta e dois anos e trabalhava numa empresa diferente, no mesmo parque industrial. Encontrávamo-nos à hora de almoço num restaurante onde as mesas eram pequenas e as pessoas acabavam por partilhar lugares. Conhecia-o havia meses. Sabia que gostava de sopa, que preferia sentar-se longe da televisão e que perguntava como eu estava sem aproveitar a resposta para começar a falar de si.

Não sabia se vivia acompanhado. Nunca perguntara. Mantinha as conversas naquele intervalo seguro entre saber coisas de uma pessoa e admitir que queria saber outras.

Na quinta linha escrevi: «Quero perguntar.»

Telefonei às amigas nessa noite. Disse que não ia na viagem. A primeira ficou desiludida. A segunda perguntou se estava tudo bem. Tentei explicar sem apresentar o cansaço delas como uma coisa ridícula nem as minhas preferências como uma descoberta superior. Gostava de viajar com mais tempo no mesmo sítio. Naquele ano, ia experimentar fazê-lo.

Quando desliguei, a lista continuava curta. Não precisava de escrever uma vida inteira para conseguir mudar uma reserva.

No dia seguinte, Noé sentou-se à minha frente no restaurante. Trazia o cabelo húmido porque tinha ido a pé debaixo de chuva. Ofereci-lhe um guardanapo e ele aceitou-o sem tentar provar que molhar-se era uma escolha especialmente interessante.

Falámos de trabalho. Depois contei-lhe que recusara uma viagem. Ele perguntou onde me apetecia ir. Disse-lhe que ainda não sabia, mas que queria uma casa perto do mar e uma semana sem malas refeitas todos os dias.

«Isso já é saber bastante», respondeu.

Eu podia ter continuado a falar de casas. Em vez disso, perguntei-lhe se vivia com alguém. Noé pousou a colher e olhou para mim com uma atenção que me fez verificar se a frase tinha saído demasiado brusca.

«Vivo sozinho. Estás a perguntar por causa das férias?»

«Não. Estou a perguntar por causa de mim.»

Ele sorriu. Não me obrigou a transformar a frase numa explicação completa. Disse que gostava de falar comigo e que tinha pensado em convidar-me para sair, mas eu parecia sempre muito ocupada. Respondi que costumava parecer ocupada precisamente quando não sabia o que fazer com um convite.

Combinámos ir ao teatro. Escolhi o espetáculo. Noé perguntou a hora e comprou o seu bilhete, para não deixar a minha decisão transformada em trabalho extra. Gostei daquele pormenor, embora ainda não soubesse se gostaria dele fora do restaurante.

Durante a semana, inscrevi-me numa oficina de pão para adultos. No primeiro encontro, a massa ficou tão pegajosa que passei metade do tempo a tentar recuperá-la das mãos. A professora explicou-me o que estava errado. Não disse que eu era naturalmente talentosa. Aprendi mais depressa por causa disso.

No sábado, fui ao teatro com Noé. Não cheguei cedo para controlar tudo. Encontrei-o à porta, com dois programas na mão. Um deles estava dobrado porque o tinha guardado no bolso. Falou-me do caminho que fizera e perguntou se eu queria tomar qualquer coisa antes de entrar.

Queria, mas disse que não porque faltavam quinze minutos. Depois corrigi a resposta.

«Quero água. Estou só a tentar organizar o intervalo antes de chegar.»

Ele foi comigo ao bar. Comprámos água e entrámos a horas. O espetáculo tinha uma personagem que aceitava trabalhos de que não gostava para poder dizer que era indispensável. Eu ri-me demasiado numa cena. Noé não me perguntou se me reconhecera, mas depois da peça disse que também passava dias a resolver coisas que ninguém lhe tinha pedido.

Saímos para a rua e escolhemos uma esplanada. Perguntei-lhe o que lhe apetecia fazer nas férias. Noé queria percorrer uma estrada do interior de bicicleta. Não me convidou para a viagem só porque eu lhe contara a minha. Era bom descobrir que podia gostar de alguém sem tornar os seus planos uma obrigação partilhada.

Falámos das relações que já tínhamos tido. Eu tinha vivido com uma pessoa durante seis anos. Ao fim de algum tempo, já não sabia quais das decisões da casa tinha tomado por vontade própria. Noé disse que também aprendera a reconhecer o hábito de ceder e depois cobrar a cedência em silêncio.

Não demos conselhos um ao outro. Perguntámos antes o que queríamos que fosse diferente. Eu queria responder antes de verificar se a resposta era conveniente para alguém. Ele queria deixar de apresentar as próprias necessidades como se fossem pequenos incómodos pelos quais devia pedir desculpa.

Quando nos levantámos, Noé perguntou se me apetecia caminhar até ao carro. Disse-lhe que sim. A resposta saiu sem a frase habitual sobre ele não precisar de se dar ao trabalho.

À porta do carro, beijei-o. Ele aproximou-se também e ficámos abraçados durante um momento. O beijo não me deu uma certeza sobre todos os dias seguintes. Deu-me vontade de repetir um encontro, que era uma decisão suficientemente grande para aquela noite.

Em casa, abri a lista. Não escrevi o nome dele com um sinal de tarefa concluída. Uma pessoa não ficava tratada porque eu conseguira fazer uma pergunta. Acrescentei antes uma linha: «Quero continuar a escolher sem fingir que não me importa.»

Na terça-feira, fiz pão sozinha. A primeira tentativa saiu baixa e irregular. Enviei a fotografia a Noé e disse que não aceitava elogios automáticos. Ele perguntou se era comestível. Respondi que sim, sobretudo com sopa.

Convidou-me para jantar na sexta-feira e pediu que levasse o pão. Fiz outro. Correu melhor, mas não lhe enviei uma fotografia para assegurar antecipadamente o interesse. Levei-o num pano, ainda morno, e cheguei à hora combinada.

Noé tinha preparado a mesa sem escolher o meu lugar. Perguntou-me onde queria sentar-me. Parece uma coisa pequena quando a conto. Para mim, naquele momento, não foi. Escolhi a cadeira junto à janela e pedi-lhe que ficasse à minha frente.

Nas férias, fui uma semana para o mar. Ele fez parte da viagem de bicicleta que tinha planeado. Falámos à noite quando nos apetecia e não transformámos todas as chamadas numa prova de proximidade. Quando regressámos, encontrei-o no restaurante do costume.

Sentou-se à minha frente e perguntou o que me apetecia comer. Olhei para a ementa, escolhi e fiz o pedido. Depois disse-lhe que queria vê-lo no domingo. Noé abriu a agenda e perguntou a hora. A lista estava em casa, dentro de uma gaveta. Já não precisava de a levar para responder.

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Depois da última linha

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