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Uma história Meia Noite

Coração de papel

O coração vinha dobrado dentro de um livro de contas. Desdobrei-o com a pinça, à espera de uma declaração antiga, e encontrei uma lista de compras com batatas, sabão e uma palavra que parecia «coragem».

Inês Azevedo7 min de leitura Quente
Coração de papel e ferramentas de conservação numa mesa de trabalho.
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O coração vinha dobrado dentro de um livro de contas. Desdobrei-o com a pinça, à espera de uma declaração antiga, e encontrei uma lista de compras com batatas, sabão e uma palavra que parecia «coragem».

Era «couve». Descobri-o cinco minutos depois e fiquei desiludida comigo própria. Tinha trinta e nove anos, trabalhava a conservar documentos e devia saber que nem todos os papéis esperavam por uma história romântica. Naquela semana, porém, andava particularmente disponível para interpretar mal as coisas.

O livro pertencia a um teatro amador que celebrava cinquenta anos. Tinham-me pedido para estabilizar algumas páginas antes de as fotografarem para uma exposição. O homem que fazia a recolha chamava-se Samuel, tinha quarenta e três anos e aparecia sempre com um objeto que exigia uma explicação. Primeiro fora um programa coberto de riscos. Depois uma fotografia sem data. Na terceira visita trouxe uma flor feita de bilhetes usados.

Perguntei-lhe se havia alguma razão para a forma. Samuel explicou que os atores dobravam papel durante os ensaios em que tinham pouco para fazer. A flor era apenas uma maneira de sobreviver a uma discussão sobre cortinas. O coração talvez tivesse a mesma origem. Eu quis saber se ele também representava. Respondeu que trabalhava na iluminação e só subia ao palco quando alguma lâmpada se recusava a cumprir o papel.

Gostei da maneira como falava do teatro. Não parecia querer impressionar-me. Contava dificuldades concretas, como arranjar uma carrinha ou convencer alguém a não usar cola numa peça histórica. Eu estava habituada a clientes que me entregavam objetos frágeis pedindo que ficassem novos. Samuel perguntava o que devia continuar visível.

Mostrei-lhe o coração de papel. Ele leu a lista de compras e encontrou uma quarta palavra que eu não conseguira decifrar. Era o nome de uma marca de fósforos. A nossa grande descoberta daquele dia ficou, portanto, muito abaixo das expectativas literárias. Ainda assim, quando ele saiu, dei por mim a seguir-lhe os passos pelo som no corredor.

Dois dias depois convidou-me para visitar o teatro. Queria mostrar-me o lugar onde tinham encontrado os documentos. Fui numa tarde sem ensaio, com a desculpa profissional de avaliar as condições de armazenamento. A sala estava vazia. Samuel acendeu uma luz de serviço e pediu que eu tivesse cuidado com um degrau que toda a gente conhecia e ninguém sinalizava.

Subimos ao palco. Havia marcas de fita no chão, um cenário incompleto e uma cadeira que parecia mais antiga do que o edifício. Samuel explicou como a luz podia fazer aquela sala parecer maior ou mais íntima. Pedi que me mostrasse. Ele hesitou, como se a demonstração pudesse parecer uma forma barata de encanto, mas acabou por ir à cabine.

A primeira mudança foi quase impercetível. Depois a parede do fundo desapareceu na sombra e a cadeira ficou sozinha num círculo quente. Senti vontade de me sentar, embora ninguém mo tivesse pedido. Samuel regressou e ficou do outro lado do palco. Durante alguns segundos, o silêncio pareceu uma coisa preparada para nós.

«Gostas?»

«Gosto de perceber o que fazes.»

Ele sorriu. Eu devia ter dito apenas isso e esperado. Em vez disso, comecei a falar das caixas, da humidade e da necessidade de afastar o arquivo da parede exterior. Era uma fuga tão óbvia que quase pedi desculpa antes de acabar. Samuel escutou tudo e mostrou-me a arrecadação, devolvendo-me ao terreno em que eu sabia caminhar.

Naquela noite telefonei à minha amiga Paula. Disse-lhe que achava Samuel interessante, mas talvez estivesse apenas a confundir atenção com interesse. Ela perguntou se isso não seria mais fácil de esclarecer com ele. Achei a sugestão ofensivamente razoável. Desliguei sem prometer nada e passei o resto da noite a escrever uma mensagem que apaguei quatro vezes.

Enviei-a de manhã. Convidava-o para jantar, sem referência ao teatro ou ao trabalho. Samuel respondeu depressa: queria muito. As duas palavras ocuparam o meu dia de forma pouco proporcional. Consegui acabar uma reparação delicada, responder a emails e comprar detergente, mas tudo parecia acontecer com uma luz ligeiramente diferente.

O jantar foi numa tasca onde eu ia com frequência. Escolhi-a porque não queria passar a noite a tentar compreender a ementa. Samuel chegou cedo e confessou que tinha dado duas voltas ao quarteirão. Essa pequena falta de pose ajudou-me a contar que estava nervosa. Ele parecia igualmente contente por não ter de representar tranquilidade.

Falámos de relações anteriores, mas também de contas, férias e do absurdo de guardar cabos de aparelhos que já não existiam. Eu tinha saído de uma relação onde acabara por pedir licença para quase tudo. Não queria transformar Samuel no responsável por reparar essa história. Disse-lhe apenas que precisava de tempo para voltar a confiar na minha vontade quando alguém me dava espaço.

Ele respondeu que podia perguntar, mas não adivinhar. A frase agradou-me pela modéstia. Não prometia compreender-me melhor do que eu própria. Ao sair, ofereceu-me a mão. Aceitei. Caminhámos até ao rio, onde o vento nos obrigou a procurar abrigo junto a uma parede. Fui eu quem o beijou, depois de lhe perguntar se também estava a pensar nisso.

Samuel respondeu que estava desde a visita ao palco. Eu ri-me, encostada a ele, e lamentei os vinte minutos de palestra sobre humidade. Disse que tinha aprendido imenso. Beijámo-nos outra vez antes de o humor nos servir de desculpa para sair dali. Quando nos despedimos, tínhamos marcado um segundo encontro e eu já não sentia necessidade de fingir indiferença para conservar alguma segurança.

A exposição abriu um mês depois. O coração de papel ficou numa pequena caixa, ao lado do livro de contas, com a lista de compras transcrita corretamente. Uma visitante perguntou se não poderia ser uma mensagem secreta. Respondi que podia imaginar o que quisesse, mas os documentos não nos autorizavam a afirmar mais do que sabíamos.

Na véspera da abertura, eu e Samuel tínhamos discutido por causa de uma moldura. Ele achava que chegava para proteger uma folha; eu sabia que o material podia danificá-la. O desacordo foi breve, mas deixou-me inquieta. Estava demasiado habituada a confundir discordância com o princípio de uma retirada. Samuel apareceu depois com outra moldura e perguntou se aquela servia. Não trazia ressentimento escondido na pergunta. Percebi que podia dizer não a uma ideia dele sem estar a recusar a pessoa inteira. Contei-lhe isso enquanto fechávamos a caixa do coração. Ele admitiu que também receara parecer descuidado perante mim. Acabámos a rir da quantidade de conversas que tinham ficado dentro de uma simples troca de materiais. No jantar dessa noite, conseguimos escolher pratos diferentes sem fazer disso uma questão simbólica, o que me pareceu um progresso razoável.

Samuel ouviu a explicação e esperou que ficássemos sozinhos. Depois entregou-me um papel dobrado. Abri-o com as mãos, dispensando a pinça. Dentro estava um convite para passarmos o domingo juntos e uma lista de coisas que ele precisava de comprar para o almoço. A última palavra era, desta vez sem margem para dúvida, coragem.

Levei o papel comigo. Nesse domingo fui a casa dele, ajudei a cozinhar e escolhi ficar até ao dia seguinte. A nossa intimidade cresceu longe das vitrinas, sem precisar de ser conservada por ninguém. Guardei o coração numa gaveta de uso diário, entre recibos e lápis. Queria encontrá-lo por acaso, dentro da vida que continuava a acontecer.

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