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Uma história Meia Noite

O dia em que não voltei

O barco partiu enquanto eu estava a contar as moedas. Vi-o afastar-se do cais e continuei com a mão aberta, como se aquelas três peças pudessem servir para alguma coisa urgente.

Leonor Vale4 min de leitura Sensual
Mala sobre um banco de um barco de passageiros
Ao teu ritmo

O barco partiu enquanto eu estava a contar as moedas. Vi-o afastar-se do cais e continuei com a mão aberta, como se aquelas três peças pudessem servir para alguma coisa urgente.

A próxima carreira demorava meia hora. Havia um banco livre e sentei-me nele, com a mala aos pés. Tinha trinta e cinco anos, uma reunião marcada do outro lado do rio e uma vontade pouco profissional de falhar a segunda tentativa.

O homem sentado ao lado reparou no barco. Disse que aquele capitão nunca esperava por ninguém. Não respondi. Ele pareceu compreender que uma observação não lhe dava direito a uma conversa e voltou ao jornal.

Passaram dez minutos. Telefonei para o escritório e expliquei o atraso. A minha colega de cinquenta anos disse que a reunião começara sem mim. Disse-o com tanta facilidade que eu percebi, de repente, quanto esforço andava a gastar para ocupar um lugar onde a minha ausência era resolvida num minuto.

Desliguei e ri-me. O homem levantou os olhos.

«Perdeste alguma coisa importante?»

«Ainda não sei.»

Chamava-se Artur e tinha quarenta anos. Ia buscar uma lente a uma loja de fotografia. Eu trabalhava em publicidade e ia defender uma proposta em que já não acreditava. Disse-lhe isso antes de perceber que estava a dizê-lo. A falta de história entre nós retirava peso à confissão.

Artur fechou o jornal. Não me perguntou por que motivo não mudava de emprego. Esse conselho tinha-me sido dado por pessoas que não conheciam a renda nem a quantidade de coragem que eu tinha disponível numa terça-feira.

Perguntou apenas se gostava de atravessar o rio.

Gostava. A vista era a única parte da viagem que não fazia depressa. Às vezes, fingia que ia a outra cidade, que ao chegar podia descer numa rua que ainda não tinha usado e passar a manhã a reparar nas montras.

«Hoje já perdeste a reunião», disse ele.

«Isso não me dá uma manhã.»

«Não. Só estava a confirmar.»

O barco seguinte chegou. Entrámos e ficámos no convés, perto da mala que eu não precisava realmente de levar. O telefone vibrou com três mensagens que não abri logo.

Artur contou que trabalhava como fotógrafo de objetos para catálogos. Fazia imagens muito limpas de coisas pouco interessantes e, nas folgas, procurava casas com as paredes a descascar. Eu conhecia bem aquela diferença entre o que se fazia por trabalho e aquilo a que se prestava atenção sem receber.

Do outro lado, ele despediu-se. Ia para a loja. Eu tinha de decidir se voltava ao escritório ou se procurava a rua que tantas vezes imaginara.

Pedi-lhe que me indicasse uma café. Ele indicou dois, para não ficar responsável pela escolha. Entrei no mais pequeno. Sentei-me junto à janela e escrevi, numa folha, o que ainda gostava do meu trabalho. A lista era curta, mas não estava vazia. Pela primeira vez em meses, comecei a pensar numa mudança que não precisasse de destruir tudo.

Artur passou pela montra uma hora depois. Viu-me, hesitou e entrou. Perguntou se podia sentar-se. Eu afastei a mala da cadeira.

Falámos até às duas. Depois tive de regressar. Não deixei o emprego naquele dia; não abandonei a vida por causa de uma conversa à beira do rio. Dei a Artur o meu número e marquei um café para sábado. As duas decisões eram pequenas. Também eram minhas.

No sábado, ele trouxe uma fotografia do banco do cais. Disse que quase a apagava por estar vazia. Eu pedi para a ver outra vez.

Antes de nos despedirmos, estendi-lhe a mão. Artur perguntou se podia beijar-me. Eu disse que sim, e o beijo foi a primeira coisa daquela manhã em que não senti pressa.

Voltei muitas vezes ao outro lado do rio. À reunião, nesse dia, não voltei.

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