Uma história Meia Noite
O relógio sem horas
O relógio da torre deixou de mostrar horas na noite em que Olívia regressou. Os ponteiros continuavam a mexer-se, mas o mostrador estava branco e ninguém em Noura conseguia lembrar-se dos números que ali tinham estado.

O relógio da torre deixou de mostrar horas na noite em que Olívia regressou. Os ponteiros continuavam a mexer-se, mas o mostrador estava branco e ninguém em Noura conseguia lembrar-se dos números que ali tinham estado.
Olívia tinha quarenta e quatro anos e reparava instrumentos de precisão. Vivera fora da cidade durante doze, trabalhando em observatórios onde a noite começava antes de as pessoas terem vontade de acabar o dia. Regressara para vender a oficina que herdara de uma tia, falecida aos setenta e dois. Esperava ficar duas semanas. O relógio atrasou a primeira manhã.
Simão foi procurá-la à oficina. Tinha quarenta e seis anos e cuidava dos jardins da cidade. Conhecera Olívia quando ambos já trabalhavam, antes de ela partir. Tinham passado uma primavera inteira a conversar junto à torre, sem conseguirem dizer porque escolhiam sempre aquele sítio.
Agora ele trazia uma chave grande, presa a uma fita vermelha.
«Preciso de subir», explicou. «Há raízes a entrar na parede.»
«As raízes não tiram números a um relógio.»
«É verdade. Mas ninguém sabe quem mais pode tratar das duas coisas.»
Olívia acompanhou-o. A torre tinha uma escada estreita e patamares onde a luz entrava através de janelas demasiado pequenas. O mecanismo estava limpo. Não havia ferrugem nem uma peça partida que justificasse o desaparecimento do mostrador.
Atrás do relógio, encontraram uma porta que Olívia nunca tinha visto. A madeira parecia recente, embora todos os pregos estivessem gastos. Simão experimentou a chave que trouxera. A porta abriu-se para uma sala sem janelas, iluminada por riscos de giz vermelho nas paredes.
Havia ali mapas da cidade. Nalguns, as ruas tinham mais árvores. Noutros, o rio corria por um canal diferente. Olívia encontrou a oficina desenhada num deles, com a sua própria letra numa placa sobre a entrada. Não se lembrava de ter feito aquela placa.
Simão aproximou-se de outro mapa. O jardim que ele tentava recuperar desde o verão estava pronto, com bancos e caminhos que ainda só existiam nas suas notas. No desenho, uma pessoa sentada num banco erguia a mão. Quando Simão tentou tocar-lhe, o risco de giz recuou para a outra ponta da parede.
Olívia leu uma frase escrita junto à porta: «O relógio mede escolhas que ninguém fez.»
Não sabia se devia rir. Nas cidades onde trabalhara, as pessoas respeitavam equações que quase ninguém compreendia. Noura preferia portas inesperadas e frases que não traziam instruções de uso.
«Devemos fechar isto», disse Simão.
«Devemos primeiro saber se a porta vai continuar cá.»
Ele pousou a chave no chão e ficaram a observar os mapas. Cada vez que falavam de uma possibilidade, surgia outro traço. Olívia mencionou vender a oficina. A placa com o seu nome desapareceu e a casa ganhou uma janela diferente. Simão disse que podia abandonar o jardim. Os bancos sumiram-se antes de ele acabar a frase.
Não eram promessas. Algumas alterações desfaziam-se sozinhas. Outras ficavam, incompletas, como ruas desenhadas por alguém que não conhecia o terreno. O relógio continuava a mover-se do lado de fora, incapaz de lhes dizer quanto tempo passara.
Olívia perguntou o que Simão tinha pensado fazer quando ela partira. Ele podia responder com uma graça e talvez fosse isso que ela esperasse. Em vez disso, disse que queria ter-lhe pedido para ficar mais uma semana.
Num dos mapas, apareceu uma mesa junto à oficina. Havia duas chávenas, mas nenhuma pessoa sentada.
«Porque não pediste?»
«Porque achei que já sabias.»
Olívia olhou para as chávenas. Disse-lhe que também tinha esperado uma pergunta. Se a tivesse ouvido, talvez ficasse. Talvez não. Não podia usar um desenho numa parede para dar uma resposta mais certa do que a pessoa que fora.
Os mapas multiplicaram-se. Nalguns, ela nunca saíra. Noutros, regressara muito antes. Simão tentou seguir uma rua com o dedo e a sala tornou-se mais estreita. A parede moveu-se um pouco, sem ruído, até a porta ficar quase escondida entre dois desenhos.
Olívia afastou-lhe a mão. Não sabia o que aconteceria se continuassem a procurar uma versão em que ambos estivessem satisfeitos com todas as decisões. A torre parecia ganhar espaço dentro deles e perder espaço para a saída.
«Quero voltar à rua», disse Simão.
Ela concordou. Pegaram na chave e atravessaram a porta enquanto ainda cabiam os dois. Na escada, Olívia teve de se sentar por um momento. Simão ficou perto, sem a tocar antes de saber se queria ajuda.
«Quero que fiques aqui comigo», disse ela.
Ele sentou-se no degrau de baixo. A frase podia referir-se à escada ou à cidade. Não tentou escolher a interpretação que lhe convinha.
Saíram para uma manhã que já devia ter sido tarde. As pessoas consultavam os relógios de bolso e discutiam porque a torre não concordava com nenhum. Olívia disse que precisava de examinar o mecanismo outra vez. Não contou a ninguém o que encontrara atrás dele. Ainda não tinha palavras que servissem para uma reunião na praça.
Nos dias seguintes, trabalhou na oficina. Simão aparecia para lhe levar peças e depois regressava ao jardim. Não passavam todas as horas juntos. Encontravam-se ao fim da tarde, junto à torre, e falavam do que tinham realmente feito.
Olívia adiou a venda por um mês. Não prometeu ficar para sempre. Queria experimentar trabalhar ali sem transformar a experiência numa reparação do passado. Simão perguntou se podia ajudá-la a arranjar a placa da entrada. Ela aceitou, desde que escolhessem uma letra que ainda não estivesse desenhada em nenhuma parede.
Pintaram a placa numa tarde de vento. A fita vermelha da chave serviu para prender uma ponta enquanto a tinta secava. Olívia reparou que Simão tinha guardado as notas do jardim e levava uma a cada reunião, em vez de tentar aprovar o projeto inteiro de uma vez.
«Estás a fazer menos?» perguntou.
«Estou a fazer a parte que consigo começar.»
Nessa noite, voltaram à torre. A porta continuava lá. A sala parecia maior, com menos mapas nas paredes. Olívia viu a oficina com a placa nova, ainda um pouco torta. O jardim de Simão mostrava apenas um caminho pronto. Os desenhos não tentavam completar o que nenhum deles decidira.
Junto à saída, a frase mudara. Dizia agora: «O relógio espera que escolham hoje.»
Simão olhou para Olívia. Perguntou se ela queria passear com ele depois de descerem. Ela respondeu que sim. Disse-lhe também que estava a gostar de o conhecer de novo, como o homem que agora cuidava daquele jardim e não como alguém que devia ter feito uma pergunta doze anos antes.
Ele aproximou-se e pediu-lhe um beijo. Olívia aceitou. A sala não mudou de tamanho. Não apareceram mais ruas nem casas nas paredes. Ficaram abraçados durante um instante e depois saíram, levando a chave.
À meia-noite, os números regressaram ao mostrador da torre. Eram ligeiramente diferentes, escritos à mão em vez de talhados no metal. As pessoas disseram que o relógio tinha sido reparado. Olívia não discutiu a explicação.
Um mês depois, abriu a oficina ao público. Simão chegou com a primeira encomenda, um instrumento pequeno que usava para medir a inclinação dos canteiros. Olívia escreveu o nome dele na folha de entrada e pediu-lhe três dias.
«E para o passeio?» perguntou ele.
Ela olhou para o relógio, que agora sabia dar uma resposta bastante normal.
«Depois de fechar. Às seis.»


