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Uma história Meia Noite

A varanda do quinto

Clara não tinha convidado ninguém. Pôs duas cadeiras na varanda porque sempre lhe parecera triste uma cadeira sozinha, e depois passou três meses a ocupar apenas uma.

Clara Vilar3 min de leitura Sensual
Varanda sobre os telhados do Porto com duas cadeiras
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Clara não tinha convidado ninguém. Pôs duas cadeiras na varanda porque sempre lhe parecera triste uma cadeira sozinha, e depois passou três meses a ocupar apenas uma.

A varanda do quinto andar cabia numa fotografia melhor do que cabia na vida. Era preciso passar de lado entre o vaso do gerânio e a mesa. Aos trinta e oito anos, Clara tinha comprado o apartamento com a ideia de que podia aprender a não pedir licença para os seus próprios planos. A varanda fazia parte desse plano, embora não soubesse para quê.

Sérgio apareceu por causa de uma antena. Tinha quarenta e dois anos, trabalhava como eletricista e fora chamado pelo condomínio para resolver um problema no telhado. Clara autorizou a passagem pelo apartamento, depois de confirmar o nome com a administradora do prédio, uma vizinha reformada. Não costumava abrir a casa a quem tocava sem aviso.

O trabalho durou vinte minutos. A conversa, mais dez. Sérgio perguntou pelo gerânio e Clara confessou que ainda não sabia se o estava a regar demasiado ou de menos. Ele disse que o gerânio costumava resolver esses assuntos, desde que o deixassem respirar.

Uma semana depois, encontraram-se na padaria. Sérgio reconheceu-a e perguntou se a antena funcionava. Clara respondeu que sim, mas não tinha televisão. Ele riu-se. Ela explicou que a melhoria era do prédio, não necessariamente dela.

Começaram a tomar café ao domingo. Primeiro por coincidência, depois por mensagem. Sérgio chegava de bicicleta. Clara demorava a escolher o pão, embora acabasse sempre com o mesmo. Tinham assuntos suficientes para gastar uma manhã e cautela suficiente para não prometer outra antes de se despedirem.

Na quarta vez, Clara convidou-o a conhecer a vista sem subir ao telhado. Sérgio aceitou. Trouxe um pacote de bolachas e perguntou, à porta, se era suposto ter trazido vinho. Clara disse que não sabia o que era suposto e que as bolachas lhe pareciam uma boa resposta.

Sentaram-se nas duas cadeiras. A cidade estava clara, com a luz a prender-se aos telhados. Sérgio falou de uma casa que queria recuperar. Clara falou do apartamento, do dinheiro que gastara e das coisas que ainda a assustavam quando ficava sozinha.

Ele não ofereceu soluções. Clara percebeu isso com alívio. Estava cansada de homens que ouviam uma preocupação e começavam imediatamente a procurar ferramentas.

Quando entrou para fazer café, Sérgio ficou na varanda. Não a seguiu. Clara regressou com as chávenas e encontrou-o a olhar para o vaso.

«Está melhor.»

«A planta ou a varanda?»

«A planta. Sobre a varanda, ainda estou a reunir informação.»

Clara pousou as chávenas e aproximou-se. Perguntou se podia beijá-lo. Sérgio disse que sim e levantou-se com tanta pressa que quase bateu na mesa. Ela riu-se antes de lhe tocar no rosto.

O beijo não alterou a dimensão da varanda. Continuaram a ter de passar de lado. Clara gostou desse facto concreto, de nada precisar de se tornar maior para que houvesse espaço para os dois.

Ao fim da tarde, Sérgio foi embora. Ela ficou a arrumar as chávenas e a pensar se devia regar o gerânio.

Não o regou. Na manhã seguinte, a segunda cadeira continuava vazia. Já não lhe pareceu triste.

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