Uma história Meia Noite
A lista do frigorífico
Na lista do frigorífico faltava leite. Por baixo de detergente, alguém tinha escrito falar. Marta viu a palavra ao abrir a porta para guardar o queijo e fingiu não a ver.

Na lista do frigorífico faltava leite. Por baixo de detergente, alguém tinha escrito falar. Marta viu a palavra ao abrir a porta para guardar o queijo e fingiu não a ver.
Ela e Vasco viviam juntos havia onze anos. Tinham trinta e nove e quarenta e dois, respetivamente, empregos com horários diferentes e um talento recente para adiar tudo o que não vinha acompanhado de uma fatura. Na cozinha, cruzavam-se como dois hóspedes educados.
Às dez, Vasco chegou com leite. Marta indicou-lhe a prateleira sem levantar os olhos do computador. Ele guardou o saco, fechou o frigorífico e ficou diante da lista.
«Não foste tu?»
Ela olhou finalmente.
«Pensei que tinhas sido tu.»
Leram outra vez. A palavra estava na letra de Vasco, mas ele não se lembrava de a ter escrito. Marta recordava-se vagamente de ter pego na caneta enquanto telefonava para a assistência do esquentador. Nenhum dos dois tinha uma versão convincente.
A discussão podia ter acabado aí. Em vez disso, Vasco puxou uma cadeira.
«Já que está na lista.»
Marta fechou o computador com força a mais. Disse que estava cansada. Ele respondeu que também. Ficaram a olhar para a toalha, para uma mancha de café que sobrevivera a três lavagens e para o prato de queijo que ela ainda não tinha tapado.
«Sinto falta de jantarmos à mesma hora», disse Marta.
Vasco começou a explicar o horário do trabalho. Ela interrompeu-o.
«Eu conheço o teu horário.»
Ele ficou calado. Foi a primeira resposta útil daquela noite.
Marta continuou. Não queria um calendário de compromissos, nem uma escapadinha organizada em meia hora para resolver meses de ausência. Queria poder contar-lhe uma coisa quando acontecia, sem decidir antes se merecia interromper a televisão.
Vasco ouviu e depois disse que evitava perguntar-lhe pelo dia porque ela respondia sempre muito trabalho. Marta ia negar. Não negou.
A conversa perdeu a delicadeza. Houve uma frase injusta, uma resposta defensiva, uma ida ao corredor para respirar. Vasco voltou com duas chávenas e perguntou se ela queria chá. Marta disse que não, mas pegou numa das chávenas depois de ele se sentar.
À meia-noite, a lista tinha perdido importância. Tinham dito coisas pequenas e difíceis: que Vasco deixara de tocar guitarra porque ela reclamava do som; que Marta começara a ficar no escritório depois da hora para adiar a chegada a uma casa onde se sentia sozinha.
Não encontraram uma solução que servisse para pôr numa frase. Combinaram jantar à quarta-feira sem ecrãs e aceitaram que a primeira quarta-feira podia correr mal. Vasco pediu desculpa pela frase injusta. Marta pediu que não a transformasse numa regra sobre si.
Quando se levantaram, ela encostou a testa ao ombro dele. Vasco abraçou-a. Ficaram na cozinha, de pé, até o frigorífico começar a fazer o barulho habitual.
«Devia descongelar aquilo», disse ele.
Marta riu-se contra a camisola.
Na manhã seguinte, havia uma nova lista. Leite continuava lá, porque o que Vasco trouxera acabava depressa. Detergente também. A palavra falar tinha sido riscada.
Por baixo, Marta escrevera quarta.


