Uma história Meia Noite
A folha em branco
Na oficina de escrita, a regra era não explicar o texto antes de o ler. Rita desobedecia sempre. Nessa quinta-feira, começou por dizer que não tinha escrito nada.

Na oficina de escrita, a regra era não explicar o texto antes de o ler. Rita desobedecia sempre. Nessa quinta-feira, começou por dizer que não tinha escrito nada.
O orientador da oficina, um professor reformado, apontou para a folha que ela segurava. Rita pousou-a sobre a mesa, com a face em branco virada para cima. Do outro lado havia uma página inteira.
Sentado à sua frente, Miguel reconheceu o gesto. Também passava metade das sessões a defender-se de histórias que ninguém atacara. Aos trinta e nove anos, tinha aprendido a falar em público por causa do trabalho e descobrira que isso não o ajudava a ler um parágrafo que lhe importasse. Rita, de trinta e sete, era bibliotecária. Lia depressa, escrevia devagar e apagava quase tudo.
O texto dela falava de uma mulher que comprava um bilhete para um destino ao acaso. A mulher não chegava a partir. Ficava na estação a observar as pessoas que tinham escolhido a viagem. Rita leu com a voz baixa, levantando-a apenas nas frases de que menos gostava.
Quando acabou, Miguel disse que queria saber o que havia dentro da mala da personagem.
«Nada», respondeu Rita.
«Então porque é que pesa?»
Ela olhou para a folha. Foi a primeira pergunta daquela noite que não a fez querer justificar-se.
No fim da sessão, encontraram-se à porta da livraria. Chovia, como quase sempre parecia chover à quinta-feira em Coimbra. Miguel ofereceu-lhe parte do guarda-chuva. Rita recusou primeiro e voltou atrás quando a chuva aumentou. Andaram tão afastados que acabaram ambos molhados.
«A tua mala pesa por causa dos livros?»
«A minha pesa por causa das coisas que me esqueço de tirar.»
Ele pediu-lhe que continuasse a história. Rita disse que a história estava acabada. Miguel aceitou, mas na semana seguinte trouxe um texto sobre um homem que trabalhava numa estação e encontrava uma mala vazia.
Rita ouviu sem sorrir. Depois levantou a mão.
«Estás a roubar-me a personagem.»
«Estou a pedir-lhe que viaje.»
A turma riu-se. Rita não achou muita graça. Depois da sessão, explicou-lhe que não queria que transformasse o texto dela num pretexto para a aproximar de si. Miguel ficou sério. Pediu desculpa, sem acrescentar que não era essa a intenção. Era uma parte da intenção, e sabia-o.
Durante duas semanas, limitaram-se a cumprimentar-se. Rita voltou a escrever. O texto seguinte tinha uma mulher que se zangava com uma mala porque era mais fácil do que zangar-se com o homem que a tinha perdido. Miguel fez perguntas apenas sobre a mala.
A aproximação recomeçou por iniciativa dela. Convidou-o para um café antes da oficina. Disse que gostava de conversar com ele e que preferia que as personagens ficassem fora disso. Miguel prometeu não convocar funcionários ferroviários para os encontros.
Passaram a chegar meia hora antes. Às vezes, falavam dos livros. Outras vezes, do trabalho, da renda e das dificuldades pequenas que tornam uma semana comprida. Nenhum tentou transformar o outro numa pessoa mais corajosa.
Em junho, a oficina acabou. Miguel perguntou se continuavam os cafés à quinta-feira. Rita respondeu que não precisava de uma oficina para lhe poder marcar um encontro.
Foi ela quem o beijou à porta da livraria, depois de o ouvir dizer que também queria continuar. Miguel deixou cair o guarda-chuva. A chuva, dessa vez, não serviu de desculpa a nada.
No verão, Rita acabou a história da estação. A mulher partia, mas a mala continuava vazia.
Miguel leu o texto e não lhe sugeriu pôr nada lá dentro.


