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Uma história Meia Noite

O mapa dobrado

Mónica marcava no mapa as cidades onde ainda não tinha estado. Eduardo marcava os sítios onde queria voltar. O mapa, ao fim de seis meses, parecia ter sido usado por duas pessoas que planeavam viagens diferentes.

Tomás Reis3 min de leitura Sensual
Mapa dobrado e uma chávena de café sobre uma mesa
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Mónica marcava no mapa as cidades onde ainda não tinha estado. Eduardo marcava os sítios onde queria voltar. O mapa, ao fim de seis meses, parecia ter sido usado por duas pessoas que planeavam viagens diferentes.

Talvez fosse isso que faziam. Mónica tinha quarenta anos, Eduardo quarenta e quatro, e viviam juntos havia três. Gostavam um do outro e da casa que tinham encontrado em Almada. Também sabiam que o gosto não resolvia automaticamente a diferença entre querer começar e querer regressar.

O mapa aparecera numa feira. Custara dois euros porque estava rasgado na dobra. Tinham-no comprado por brincadeira, numa tarde em que Mónica dizia que os planos do casal cabiam sempre no próximo fim de semana.

«Podíamos planear uma coisa que demorasse mais», propôs.

Eduardo trouxe o mapa para a mesa. Marcaram uma viagem de comboio, primeiro curta, depois tão comprida que já não havia férias suficientes. Riram-se da facilidade com que, no papel, nenhum trabalho precisava deles.

Passaram a inventar noites em cidades onde não estavam. Mónica descrevia um hotel com uma janela grande. Eduardo imaginava um restaurante onde a comida não vinha acompanhada de uma história sobre o chef. Ela escolhia uma livraria. Ele escolhia o caminho até lá. Às vezes, discordavam com mais empenho do que nas viagens que tinham realmente feito.

Numa quarta-feira, a brincadeira perdeu a leveza. Eduardo disse que não tinha dinheiro para a viagem naquele ano. Mónica respondeu que já sabia. Ele perguntou então por que continuava a marcar cidades.

«Porque ainda posso querer ir.»

A frase pareceu-lhe uma acusação. Eduardo fechou o mapa e levantou a mesa, embora ainda não tivessem acabado de jantar. Mónica deixou-o sair da cozinha e ficou a olhar para a dobra rasgada.

Mais tarde, encontraram-se na sala. Eduardo pediu desculpa por ter fechado a conversa junto com o papel. Explicou que cada marca lhe parecia uma promessa que estava a falhar. Mónica disse que cada silêncio dele lhe parecia uma maneira de reduzir o futuro ao que podiam pagar naquele mês.

Não tinham imaginado a mesma dificuldade. Essa descoberta deixou-os cansados, mas retirou à discussão a necessidade de encontrar um culpado.

No sábado, Eduardo propôs uma viagem de um dia. Mónica aceitou, com a condição de não ser apresentada como uma versão pobre da outra. Foram a Tomar. Almoçaram tarde, entraram numa livraria e compraram um livro que nenhum conhecia. Mónica encontrou a janela grande numa pensão que não chegaram a usar.

Ao fim da tarde, sentaram-se junto ao rio. Eduardo pegou-lhe na mão e perguntou se a viagem tinha corrido bem. Mónica respondeu que sim, mas ainda queria as outras. Ele disse que também.

O beijo veio depois, sem resolver o mapa. Mónica gostou de que a tarde pudesse ser boa sem exigir o abandono do que ainda faltava.

Em casa, voltaram a abrir o papel. Compraram fita própria para reparar a dobra, uma despesa que Eduardo considerou ironicamente a primeira reserva da viagem. Deixaram as marcas antigas e fizeram uma nova em Tomar.

Na margem, Mónica escreveu a data. Eduardo escreveu o nome da pensão.

Havia sítios onde queriam voltar. Havia outros onde ainda não tinham estado. O mapa conseguia conter ambos, desde que ninguém o fechasse depressa.

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