Uma história Meia Noite
Depois da reunião
Às sete e quinze, a sala de reuniões ainda tinha catorze copos, uma planta inclinada e o desenho de uma casa que ninguém daquela sala podia pagar. Joana recolheu os copos. André apagou do quadro a palavra URGENTE.

Às sete e quinze, a sala de reuniões ainda tinha catorze copos, uma planta inclinada e o desenho de uma casa que ninguém daquela sala podia pagar. Joana recolheu os copos. André apagou do quadro a palavra URGENTE.
Era a terceira versão do projeto. Na primeira, o cliente queria mais vidro; na segunda, queria mais privacidade. Naquela tarde, pedira uma solução que juntasse as duas coisas sem aumentar o orçamento. Joana e André, ambos arquitetos e sócios com a mesma quota, tinham passado a reunião a trocar olhares sobre a mesa.
«Vamos embora?»
Joana ficou a examinar o desenho. Tinha trinta e três anos e uma capacidade irritante para continuar a trabalhar quando já não estava a produzir nada. André, de trinta e sete, conhecia essa capacidade desde o primeiro projeto que fizeram juntos.
«Só preciso de acabar esta coisa.»
«Essa coisa já está acabada. Falta-te deixá-la em paz.»
Ela dobrou a folha. Ele esperou. Há dois meses que os outros colaboradores começavam a sair mais cedo à sexta-feira e os deixavam sozinhos com uma sala vazia. Joana desconfiava das intenções de todos, incluindo as suas.
Conheciam-se havia quatro anos. Eram bons a discutir paredes e maus a discutir o que acontecia quando os assuntos deixavam de ter medidas. André enviava-lhe fotografias de portas em cidades onde ia de férias. Joana respondia com janelas de sítios onde não ia de férias, porque quase nunca as tirava.
Na rua, o ar estava frio. O escritório ficava num primeiro andar de Campo de Ourique, por cima de uma loja que vendia tecidos. A montra acendia-se às sete e meia. Joana sempre quis saber quem decidia a disposição daqueles veludos.
«Podíamos jantar», disse André.
«Ainda para falar do cliente?»
«Não. Se dissermos a palavra orçamento, pagamos uma multa.»
Foram a uma tasca de que Joana gostava. Sentaram-se numa mesa junto ao balcão. A televisão mostrava um jogo sem som e alguém se esquecera de apagar, num quadro pequeno, a sopa do dia anterior.
A primeira meia hora custou. Sem trabalho para os amparar, as perguntas soavam mais cuidadosas. André contou que aprendera a fazer pão e Joana perguntou se era uma daquelas coisas que as pessoas faziam para poderem falar sobre si durante vinte minutos. Ele confessou que, por enquanto, só fazia pão suficiente para justificar cinco.
Ela riu-se e a conversa soltou-se. Descobriram discordâncias novas: André gostava de hotéis; Joana preferia casas onde alguém tivesse deixado uma chávena com uma lasca. Ela queria viajar de comboio até à Itália; ele queria regressar à terra onde nascera, no Ribatejo, e ficar uma semana sem marcar nada.
«Podias fazer isso.»
«Tu também podias apanhar o comboio.»
Joana desviou os olhos. Havia coisas que eram mais fáceis quando ninguém lhes apontava a simplicidade.
Quando acabaram de jantar, André propôs um passeio. Ela aceitou. Caminharam devagar por ruas que atravessavam todas as semanas depressa. A cidade mudou de escala. Uma janela aberta mostrava uma estante; noutra casa, um vizinho de cabelo branco regava plantas com um jarro de vidro.
Pararam à porta de uma padaria já fechada. Joana percebeu que a conversa chegara a um ponto que não se resolvia com uma piada.
«Temos de saber separar isto do escritório», disse.
André encostou-se à parede, deixando espaço entre os dois.
«Se quiseres que não haja isto, continuamos colegas.»
«Não foi o que eu disse.»
«Eu sei. Estou a tentar não adivinhar.»
Ela gostou da resposta. Estava habituada a homens que consideravam a dúvida uma maneira sofisticada de pedir insistência. André deixava-a ser dúvida.
Joana aproximou-se e pegou-lhe na mão. Disse que queria ir com calma, que ainda não sabia o que significava aquele jantar e que gostaria de repetir. André disse que também. Não fizeram um contrato de prevenção de tristezas; estabeleceram o suficiente para poderem continuar a noite.
O beijo aconteceu perto do jardim, depois de ele perguntar e de ela responder aproximando-se. Foi Joana quem o interrompeu para rir. André ainda tinha na manga uma pequena marca do apagador do quadro.
«Trouxeste o escritório contigo.»
Ele tentou limpar a manga. Piorou a mancha.
Na segunda-feira, chegaram com dez minutos de diferença. O cliente enviara uma quarta alteração. Joana abriu o email e chamou André à secretária.
Ele leu, fechou os olhos e começou a rir-se. Ela acompanhou-o. Depois trabalharam.
Às sete, desta vez, Joana foi a primeira a guardar o computador. Pousou a folha dobrada numa gaveta e deixou a casa impossível à espera da manhã.


