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Uma história Meia Noite

Sem reserva

O restaurante fechava à meia-noite. Às onze e cinquenta e oito, Marta entrou e perguntou se ainda havia sopa. Afonso, que já tirara o avental, ficou a olhar para a panela.

Tomás Reis3 min de leitura Sensual
Balcão de uma cozinha de restaurante após o serviço
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O restaurante fechava à meia-noite. Às onze e cinquenta e oito, Marta entrou e perguntou se ainda havia sopa. Afonso, que já tirara o avental, ficou a olhar para a panela.

«Sopa há. Serviço é que está a acabar.»

«Posso comer ao balcão.»

Ele serviu-lhe uma taça. Não sabia que aquela seria a primeira de muitas vezes em que Marta chegaria tarde e conseguiria convencê-lo sem parecer estar a tentar.

Ela tinha trinta e sete anos e saía de um turno numa clínica veterinária. Afonso tinha quarenta e um e geria um pequeno restaurante em Aveiro. Os horários de ambos coincidiam apenas nas sobras do dia. Na segunda visita, Marta trouxe uma caixa de pensos porque o vira com dois cortes no dedo. Na terceira, Afonso deixou uma taça de sopa separada antes de fechar a cozinha.

A aproximação pareceu fácil enquanto nenhum lhe deu nome. Marta comia, Afonso limpava o balcão, e falavam das coisas que corriam mal no trabalho sem pedir ao outro uma solução. Às vezes, ela ficava a ajudá-lo a arrumar as cadeiras. Afonso recusava essa ajuda e aceitava-a logo a seguir.

Numa noite de novembro, a sopa acabou. Afonso fez-lhe uma sandes e sentou-se ao lado dela. Era a primeira vez que deixava o trabalho por terminar para conversar.

Marta reparou. Também reparou que ele tinha mudado a camisa, uma camisa azul que não costumava usar no restaurante.

«Isto é um encontro?»

Afonso olhou para a sandes.

«Está a correr pior do que eu tinha planeado.»

«Não disse que estivesse a correr mal.»

Ele contou que queria convidá-la para jantar numa folga. Marta disse que gostaria, mas a folga dela nunca coincidia com a dele. Ficaram a comparar horários no telefone, como duas pessoas a tentar marcar uma reparação.

Encontraram uma manhã de domingo. Afonso reservou uma mesa para pequeno-almoço noutra cidade, com a formalidade excessiva de quem finalmente podia deixar alguém tratar dos pratos. Marta apareceu com vinte minutos de atraso porque tinha ficado presa numa chamada de trabalho.

O pequeno-almoço custou mais do que as conversas de fim de serviço. À luz do dia, pareciam menos capazes de se encontrar. Afonso fez perguntas demasiado arrumadas. Marta respondeu como se estivesse numa entrevista. Acabaram por admitir que sentiam falta do balcão.

Foram caminhar. Afonso perguntou-lhe se queria voltar a tentar, sem reserva e sem um plano que exigisse uma pessoa mais interessante do que ele. Marta aceitou. Pegou-lhe na mão antes de atravessarem a rua.

O primeiro beijo aconteceu junto ao carro, depois de uma pergunta breve e de um sim. Não teve a solenidade que Afonso imaginara. Marta precisava de procurar a chave na mala e a buzina de outro carro interrompeu-os.

Na semana seguinte, ela voltou ao restaurante às onze e cinquenta e oito. Afonso tinha guardado sopa, mas não tinha mudado de camisa.

Sentou-se ao lado dela. As cadeiras podiam esperar dez minutos.

Marta pousou a colher e disse que a manhã de domingo não tinha sido má. Tinha apenas sido cedo demais para uma conversa que aprendera a existir à noite.

Afonso concordou. Serviu mais sopa para si.

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