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Uma história Meia Noite

A última prova

Marta viu o erro quando já havia cento e vinte convites impressos. Faltava uma letra ao nome da exposição e, por coincidência infeliz, a palavra resultante fazia sentido.

Tomás Reis7 min de leitura Quente
Duas figuras adultas numa oficina de impressão iluminada por luz quente.
Ao teu ritmo

Marta viu o erro quando já havia cento e vinte convites impressos. Faltava uma letra ao nome da exposição e, por coincidência infeliz, a palavra resultante fazia sentido.

«Podemos dizer que é uma escolha artística», sugeriu Henrique.

«Podemos também fechar a oficina e fugir.»

Eram os dois sócios de um pequeno espaço de impressão em Guimarães. Marta tinha trinta e nove anos, Henrique quarenta e um. Trabalhavam juntos havia quatro anos, depois de empregos diferentes lhes terem ensinado a mesma aversão a reuniões sem finalidade. A oficina vivia de cartazes, edições pequenas e clientes que descobriam os prazos demasiado tarde. A exposição daquele fim de semana era deles.

Não tinham dinheiro para uma segunda tiragem completa. Tinham papel suficiente para sessenta convites e uma noite livre, caso dormir deixasse de ser prioridade. Marta separou as folhas aproveitáveis. Henrique fechou a porta e colocou um letreiro a informar que regressariam de manhã. Conheciam bem aquele ritual de emergência. O problema era que, desde a última vez, alguma coisa entre ambos deixara de caber na palavra trabalho.

Começara com um jantar depois de uma entrega. Depois houvera outro, sem entrega. Na semana anterior, Henrique acompanhara Marta até casa e ficara no portão mais tempo do que qualquer assunto justificava. Ela chegara a aproximar-se, mas um vizinho aparecera com perguntas sobre o lixo e o momento perdera-se numa conversa municipal. No dia seguinte tinham falado apenas de tintas.

Marta não queria arriscar a oficina por uma atração que talvez sobrevivesse melhor enquanto hipótese. Também começava a achar cobarde a maneira como usava a oficina para não perguntar nada. Henrique parecia partilhar as duas preocupações. A prova errada oferecia-lhes uma tarefa concreta atrás da qual se podiam esconder durante algumas horas.

«A letra desaparecida é minha», disse ele. «Fui eu que revi.»

«Eu aprovei.»

«Podemos repartir a culpa em percentagens iguais.»

Marta concordou e escreveu cinquenta por cento no canto de uma folha. Ele acrescentou o nome dela. Ficaram os dois a olhar para aquela ata absurda, depois riram-se com o cansaço de quem já gastara a irritação. A decisão seguinte foi simples: fariam uma nova composição, mais pequena, usando o verso dos convites para incluir uma nota sobre o processo de impressão.

Enquanto Marta preparava os tipos, Henrique foi buscar jantar. Voltou com sopa e sanduíches, porque sabia que ela se esquecia de comer quando estava concentrada. Não fez dessa atenção um favor. Pousou o saco longe das tintas, afastou uma cadeira e continuou a trabalhar. Marta observou-o a dobrar cuidadosamente o casaco para não o sujar e sentiu uma ternura que já não conseguia atribuir à amizade profissional.

Comeram sentados no chão, encostados a armários diferentes. A oficina cheirava a papel húmido e madeira antiga. Do andar de cima chegavam passos e o som indistinto de um rádio. Marta perguntou se Henrique tinha aceitado o convite para dar um curso no Porto. Ele respondeu que ainda não, porque isso ocuparia duas tardes por semana.

«Conseguimos organizar-nos», disse ela.

«Sei que conseguimos.»

«Então qual é o problema?»

Henrique pousou a colher. Admitiu que lhe custava imaginar a oficina sem estar sempre ali. Marta percebeu que o receio era semelhante ao seu: mudar alguma coisa boa podia parecer ingratidão. Falou-lhe de uma residência artística a que queria candidatar-se. Nunca mencionara o assunto porque duraria um mês. Ele perguntou por que razão ela achava que precisava de esconder uma ambição para proteger a parceria.

Marta riu-se sem alegria.

«Provavelmente pela mesma razão que tu ainda não respondeste ao curso.»

Continuaram a imprimir depois do jantar. A máquina exigia um ritmo partilhado, mas deixava intervalos suficientes para a conversa prosseguir. Decidiram rever horários e ter uma reunião séria na segunda-feira. Não para impedir mudanças, mas para lhes dar lugar. Marta sentiu o alívio físico de uma preocupação que finalmente podia pousar numa mesa.

À meia-noite, Henrique encontrou uma mancha vermelha na manga dela. Apontou-a sem tocar. Marta tentou limpá-la e espalhou a tinta. Ele riu-se, ela ameaçou carimbar-lhe o casaco. A ameaça obrigou-o a recuar até à parede. Ficaram frente a frente, perto demais para fingirem que o espaço era apenas consequência da brincadeira.

«Há uma coisa que também devíamos discutir», disse Marta.

Henrique deixou de rir.

«O portão?»

«O portão. E os dois jantares. E esta conversa que estamos a ter há três semanas sem palavras.»

Ele confessou que tinha vontade de a beijar. Disse-o de forma tão direta que Marta deixou de procurar uma resposta elegante. Também queria. O que receava era o dia seguinte, quando houvesse faturas, desacordos e trabalho para dividir. Henrique não lhe prometeu que nada mudaria. Prometeu apenas que não usaria a sociedade para a pressionar a continuar uma relação que ela deixasse de querer.

Marta pediu tempo para pensar, e ele deu um passo atrás. Essa pequena distância fez mais pela confiança dela do que uma longa explicação. Voltaram à impressão. Acabaram os sessenta convites, numeraram-nos e deixaram-nos a secar. Quando o último ficou pousado, Marta foi lavar as mãos. Demorou-se a tirar a tinta debaixo das unhas, embora soubesse que uma parte ficaria até ao dia seguinte.

Henrique estava à porta, de casaco vestido, quando ela regressou. Perguntou se queria que a acompanhasse. Marta disse que sim, mas antes precisava de experimentar uma coisa. Aproximou-se e esperou pela resposta dele. Henrique pousou as chaves. O beijo aconteceu no intervalo que ambos tinham finalmente deixado livre, longe da máquina e das decisões que ainda precisavam de tomar.

Marta afastou-se a sorrir. Havia tinta na gola da camisa dele. Nenhum perguntou de quem era a culpa.

Na rua, caminharam sem pressa. Combinaram um jantar para domingo, depois da exposição, e concordaram que não levariam amostras de papel para discutir à mesa. Ao chegar ao portão, o vizinho não apareceu. Marta convidou Henrique a entrar para tomar chá. Ele aceitou. O resto daquela noite ficou separado dos prazos e das provas, reservado à descoberta que tinham adiado.

A exposição abriu no sábado com os convites corrigidos. Uma visitante elogiou a nota sobre o processo e perguntou se fora planeada desde o início. Marta respondeu que nascera de um erro. Henrique, do outro lado da sala, ouviu e levantou discretamente o copo de água. Ela devolveu o gesto.

Ao fim da tarde venderam a primeira gravura. A compradora pediu que ambos assinassem o embrulho, porque gostava de guardar os papéis das coisas que escolhia. Marta procurou uma caneta, Henrique segurou o rolo e, por uns segundos, trabalharam com a coordenação habitual. Ela percebeu que a proximidade nova não tinha apagado o que já sabiam fazer. Continuavam a ser dois profissionais capazes de discordar sobre a cor de uma parede durante meia hora. Essa continuidade, tão pouco espetacular, tranquilizou-a. Mais tarde diria a Henrique que era uma das razões por que se apaixonara. Naquele momento limitou-se a pedir-lhe a fita adesiva.

Na segunda-feira tiveram a reunião prometida. Henrique aceitou o curso, Marta começou a candidatura e ambos definiram horários que permitiam trabalhar sem estarem sempre juntos. Foi uma conversa menos romântica do que a noite da impressão, mas igualmente necessária. Quando terminaram, ela guardou a folha onde tinham repartido a culpa. Na margem escreveu a data do jantar seguinte, sem pedir uma prova adicional.

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