Uma história Meia Noite
O último comboio
O painel anunciou vinte minutos de atraso. Depois quarenta. Rui fechou o computador e pediu a Helena que guardasse a cadeira, como se aquela sala de espera fosse um sítio onde valesse a pena manter uma reserva.

O painel anunciou vinte minutos de atraso. Depois quarenta. Rui fechou o computador e pediu a Helena que guardasse a cadeira, como se aquela sala de espera fosse um sítio onde valesse a pena manter uma reserva.
Tinham começado a falar por causa de uma tomada. Havia uma só, atrás de um banco preso à parede. O carregador de Helena não chegava lá; o de Rui chegava, mas o computador dele já estava carregado. Resolveram o assunto sem cortesia excessiva e continuaram lado a lado.
Rui vinha de uma entrevista de emprego. Não sabia se a queria. Aos trinta e quatro anos, a possibilidade de mudar outra vez de cidade parecia-lhe menos uma oportunidade do que uma operação de desmontagem. Helena, de trinta e oito, regressava de um congresso onde passara dois dias a fingir que conhecia pessoas cujos nomes vinham impressos num cordão.
«Trouxe o cordão?»
«Está na mala. Prova de que sobrevivi.»
«Também dão aos entrevistados?»
«A vocês deviam dar uma pulseira que dissesse: não me perguntem como correu.»
Rui sorriu. Era a primeira pessoa daquele dia a não lhe fazer essa pergunta.
Foi buscar duas sandes à única máquina que ainda funcionava. Voltou com uma de queijo e outra cujo recheio não conseguiu identificar. Helena escolheu a segunda por espírito de investigação. Comeram debruçados sobre as malas, vendo um homem grisalho do outro lado da sala discutir com o telefone sem levantar a voz.
Quando o atraso passou para uma hora, saíram até à plataforma. Fazia frio suficiente para os manter acordados. Helena abotoou o casaco e Rui reparou que um dos botões era diferente dos outros.
«Perdi o original. A costureira disse que só encontrava um parecido.»
«Esse não é parecido.»
«Foi o que eu disse. Ela respondeu que o casaco não se importava.»
O comboio de mercadorias passou e obrigou-os a interromper a conversa. Helena recuou um passo, por instinto, e tocou no braço de Rui. Retirou a mão quando a composição acabou de passar. Ficou a olhar para a linha vazia.
«Não costumo falar assim com desconhecidos.»
«Eu também não costumo comprar sandes misteriosas para pessoas que acabo de conhecer.»
«Devias. É um ótimo teste de caráter.»
Voltaram à sala. A tomada deixara de funcionar. Nenhum dos dois tentou resolver o problema.
Helena contou que ensinava numa escola de formação para adultos e que gostava mais dos alunos que faziam perguntas embaraçosas. Rui trabalhava em sistemas de informação e gostava das avarias que tinham uma causa simples. Discordaram sobre o prazer de encontrar uma resposta. Helena queria uma pergunta melhor. Rui queria poder fechar o computador às seis.
A discordância prolongou-se com gosto. Não precisava de produzir um vencedor. Rui deu por si a defender coisas em que só acreditava pela metade, apenas para ouvir Helena contrariá-lo. Ela percebeu e avisou-o.
«Estás a tornar-te muito conveniente.»
Ele concedeu o ponto.
À meia-noite, o comboio entrou finalmente na estação. Helena tinha lugar na carruagem quatro; Rui, na sete. Ficaram por um instante diante das portas abertas, cada qual a segurar a própria mala. A facilidade da conversa tornara aquela despedida desproporcionada.
Rui ia perguntar-lhe o número quando Helena tirou do bolso um cartão do congresso. Escreveu no verso, apoiando-o na mala.
«O telefone é para coisas concretas. Não para perguntar se a viagem correu bem.»
«Então para quê?»
«Para dizeres onde se come uma sandes melhor.»
Ele guardou o cartão. Helena puxou a mala para a carruagem e voltou-se antes de entrar.
«E não tens de aceitar o emprego só porque te querem.»
Rui não teve tempo de responder. A porta fechou-se entre eles. Sentou-se no seu lugar e passou os primeiros minutos da viagem a olhar para o reflexo no vidro. Depois tirou o cartão. Helena tinha escrito o nome, o telefone e, em letras pequenas, «sem queijo industrial».
Na segunda-feira, telefonou-lhe às sete. Já recusara a proposta. Não foi isso que disse primeiro.
«Conheço uma padaria em que as sandes valem a viagem.»
Ela perguntou a que horas. Não perguntou como correra a entrevista.
Encontraram-se no sábado. Rui chegou antes e pediu uma mesa afastada da tomada. Helena trouxe o casaco do botão diferente. Ao sentar-se, pousou a mão sobre a dele durante um instante, suficientemente longo para não parecer um acidente.
«A viagem correu bem», disse ela.
«Pensei que não era permitido.»
«Agora já me conheces.»
A sandes era melhor. Nenhum deles lhe deu muita atenção.


