Meia Noite Meia Noite
+18

Uma história Meia Noite

O quarto virado a poente

Pedi um quarto virado a poente porque foi a primeira coisa que me ocorreu dizer. A rececionista perguntou se preferia duas camas. Olhei para Ana. Ana olhou para mim. Durante cinco segundos, esquecemo-nos de que tínhamos combinado a viagem.

Leonor Vale3 min de leitura Sensual
Quarto de uma pensão com luz de fim de tarde
Ao teu ritmo

Pedi um quarto virado a poente porque foi a primeira coisa que me ocorreu dizer. A rececionista perguntou se preferia duas camas. Olhei para Ana. Ana olhou para mim. Durante cinco segundos, esquecemo-nos de que tínhamos combinado a viagem.

Eu tinha trinta e um anos, ela trinta e cinco, e conhecíamo-nos havia quatro meses. Já tínhamos jantado, ido ao cinema e aprendido a discordar sobre os caminhos mais curtos. Nunca tínhamos passado um fim de semana fora. A proximidade, na receção de um hotel, tornara-se subitamente uma questão de mobiliário.

«Uma cama», disse Ana. Depois voltou-se para mim. «Se estiveres confortável.»

Eu disse que sim e levantei a mala como se fosse necessário fornecer uma prova.

O quarto era simples. Havia uma varanda para o mar, uma cadeira onde só cabia uma peça de roupa e uma cama tão grande que a rececionista podia ter evitado a pergunta. Ana pousou a mala e foi abrir a janela. Eu organizei os meus objetos na mesa, alinhando-os por uma necessidade que não tive coragem de explicar.

«Podemos ir dar uma volta», sugeriu.

Fomos. A aldeia tinha uma rua principal, duas esplanadas e uma loja fechada com cartazes de verões diferentes. Comprámos água e uma revista de palavras cruzadas. Ana resolveu metade das pistas enquanto eu escolhia peixe para o jantar.

À mesa, contou que também estivera nervosa na receção. Eu não acreditei logo. Estava habituado a confundir a tranquilidade dos outros com falta de medo.

«Achei que talvez te arrependesses quando recebêssemos a chave.»

«Eu achei que ia ressonar e estragar tudo.»

Ela começou a rir-se, depois percebeu que eu falava a sério e pegou-me na mão.

«Um fim de semana não é um exame.»

De regresso, a rua cheirava a lenha. Ana entrou numa mercearia para comprar bolachas. Eu fui atrás dela. Demorámo-nos a escolher entre dois pacotes iguais, até a senhora do balcão nos dizer que só mudava a embalagem.

No quarto, ficámos à varanda. O mar já não se via; ouvia-se. Disse a Ana que gostava dela e que isso me tornava menos interessante, porque me fazia tentar acertar em todas as coisas. Ela respondeu que tinha reparado e que preferia encontrar-me sem esse esforço.

«Não precisas de gostar da revista de palavras cruzadas.»

«Ainda bem. Há uma pista sobre rios que me está a destruir.»

Ana beijou-me. Eu correspondi e deixei, pela primeira vez naquele dia, de pensar no que deveria acontecer a seguir. Quando ela perguntou se estava tudo bem, disse-lhe que sim. Depois perguntei-lhe o mesmo. Ficámos a conversar até ter frio suficiente para fechar a varanda.

De manhã, acordei antes dela. O sol vinha do outro lado do edifício. O quarto virado a poente, tão importante na receção, não servia para ver o nascer do dia.

Ana abriu um olho e pediu-me a revista. Resolvi a pista do rio enquanto ela procurava o lápis.

Não ressonara. Ou talvez tivesse ressonado e o mundo continuasse inteiro. Fomos tomar o pequeno-almoço sem esclarecer o assunto.

WhatsAppX

Depois da última linha

Opiniões dos leitores

Sem avaliações

Clica nas chamas para avaliar. Não precisas de conta.

Ainda não há opiniões publicadas. Conta-nos o que ficou desta leitura.

Entra ou cria uma conta para comentar