Uma história Meia Noite
O quarto virado a poente
Pedi um quarto virado a poente porque foi a primeira coisa que me ocorreu dizer. A rececionista perguntou se preferia duas camas. Olhei para Ana. Ana olhou para mim. Durante cinco segundos, esquecemo-nos de que tínhamos combinado a viagem.

Pedi um quarto virado a poente porque foi a primeira coisa que me ocorreu dizer. A rececionista perguntou se preferia duas camas. Olhei para Ana. Ana olhou para mim. Durante cinco segundos, esquecemo-nos de que tínhamos combinado a viagem.
Eu tinha trinta e um anos, ela trinta e cinco, e conhecíamo-nos havia quatro meses. Já tínhamos jantado, ido ao cinema e aprendido a discordar sobre os caminhos mais curtos. Nunca tínhamos passado um fim de semana fora. A proximidade, na receção de um hotel, tornara-se subitamente uma questão de mobiliário.
«Uma cama», disse Ana. Depois voltou-se para mim. «Se estiveres confortável.»
Eu disse que sim e levantei a mala como se fosse necessário fornecer uma prova.
O quarto era simples. Havia uma varanda para o mar, uma cadeira onde só cabia uma peça de roupa e uma cama tão grande que a rececionista podia ter evitado a pergunta. Ana pousou a mala e foi abrir a janela. Eu organizei os meus objetos na mesa, alinhando-os por uma necessidade que não tive coragem de explicar.
«Podemos ir dar uma volta», sugeriu.
Fomos. A aldeia tinha uma rua principal, duas esplanadas e uma loja fechada com cartazes de verões diferentes. Comprámos água e uma revista de palavras cruzadas. Ana resolveu metade das pistas enquanto eu escolhia peixe para o jantar.
À mesa, contou que também estivera nervosa na receção. Eu não acreditei logo. Estava habituado a confundir a tranquilidade dos outros com falta de medo.
«Achei que talvez te arrependesses quando recebêssemos a chave.»
«Eu achei que ia ressonar e estragar tudo.»
Ela começou a rir-se, depois percebeu que eu falava a sério e pegou-me na mão.
«Um fim de semana não é um exame.»
De regresso, a rua cheirava a lenha. Ana entrou numa mercearia para comprar bolachas. Eu fui atrás dela. Demorámo-nos a escolher entre dois pacotes iguais, até a senhora do balcão nos dizer que só mudava a embalagem.
No quarto, ficámos à varanda. O mar já não se via; ouvia-se. Disse a Ana que gostava dela e que isso me tornava menos interessante, porque me fazia tentar acertar em todas as coisas. Ela respondeu que tinha reparado e que preferia encontrar-me sem esse esforço.
«Não precisas de gostar da revista de palavras cruzadas.»
«Ainda bem. Há uma pista sobre rios que me está a destruir.»
Ana beijou-me. Eu correspondi e deixei, pela primeira vez naquele dia, de pensar no que deveria acontecer a seguir. Quando ela perguntou se estava tudo bem, disse-lhe que sim. Depois perguntei-lhe o mesmo. Ficámos a conversar até ter frio suficiente para fechar a varanda.
De manhã, acordei antes dela. O sol vinha do outro lado do edifício. O quarto virado a poente, tão importante na receção, não servia para ver o nascer do dia.
Ana abriu um olho e pediu-me a revista. Resolvi a pista do rio enquanto ela procurava o lápis.
Não ressonara. Ou talvez tivesse ressonado e o mundo continuasse inteiro. Fomos tomar o pequeno-almoço sem esclarecer o assunto.


