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Uma história Meia Noite

A segunda primeira vez

Rita chegou ao encontro com vinte minutos de antecedência e passou quinze deles a ponderar ir-se embora. Aos quarenta e seis anos, não esperava voltar a ensaiar uma apresentação de si própria diante de uma porta fechada.

Leonor Vale7 min de leitura Sensual
Casaco vermelho junto a uma mesa de café à janela, numa pintura em tons de meia-noite.
Ao teu ritmo

Rita chegou ao encontro com vinte minutos de antecedência e passou quinze deles a ponderar ir-se embora. Aos quarenta e seis anos, não esperava voltar a ensaiar uma apresentação de si própria diante de uma porta fechada.

O restaurante só abria às oito. Na montra, conseguia ver a mulher que escolhera um vestido simples para não parecer ter pensado demasiado no assunto. Conseguia ver também que essa mulher segurava a mala com ambas as mãos.

Vítor apareceu com um ramo de alecrim embrulhado em papel. Tinha quarenta e nove anos, estava divorciado havia cinco e dava aulas numa escola de adultos. Tinham trocado mensagens durante três semanas. Rita gostara de ele não usar fotografias com óculos escuros nem começar todas as conversas com uma pergunta sobre o fim de semana.

«Não trouxe flores», disse ele. «Tenho uma vizinha que me dá alecrim em quantidades difíceis de justificar.»

Rita ficou com o ramo e perdeu a primeira frase que tinha preparado.

Entraram quando a empregada abriu a porta. A sala ainda estava vazia. Sentaram-se perto da janela e receberam uma ementa que Rita leu inteira, incluindo a descrição dos acompanhamentos, porque não sabia onde pousar os olhos.

«Podes perguntar o que quiseres», disse Vítor.

«Isso parece uma armadilha.»

«É possível que eu não responda bem. Mas não é uma armadilha.»

Rita perguntou-lhe porque tinha escolhido aquele restaurante. Ele explicou que conhecia a comida, que não havia música alta e que as mesas tinham distância suficiente para duas pessoas falarem sem oferecer a sua vida aos vizinhos. Não havia uma história mais interessante escondida na escolha. Rita agradeceu-lhe a ausência de mistério.

Contou-lhe que era viúva. Já o tinha escrito numa mensagem, mas precisou de o dizer naquela sala para deixar de ouvir a palavra antes de cada resposta. O marido morrera seis anos antes. Durante os primeiros três, Rita não tinha pensado em voltar a conhecer alguém. Nos outros três, tinha pensado e desistido antes de fazer qualquer coisa.

Vítor não lhe perguntou se estava pronta. Rita receava essa pergunta porque nunca saberia responder sem parecer que apresentava um certificado. Ele perguntou-lhe como tinha corrido o dia. Ela falou do trabalho numa biblioteca e de uma impressora que tinha decidido parar na página quarenta e sete de um relatório.

O assunto banal fez-lhe bem. Conseguia estar ali sem transformar cada minuto numa demonstração de coragem.

Vítor falou de um aluno de sessenta anos que aprendera a escrever o nome com uma letra diferente e agora experimentava assinaturas em todas as folhas. Rita imaginou o homem a descobrir uma forma nova de se apresentar. Pensou que talvez não fosse a única pessoa naquela cidade a rever um nome que usara durante muito tempo.

Quando chegaram os pratos, ela já tinha largado a mala. Vítor pediu água para os dois e disse que ia conduzir. Rita ficou aliviada por não precisar de decidir se um copo de vinho lhe facilitava a conversa ou se, no dia seguinte, lhe serviria de desculpa para o que tivesse dito.

Falaram de coisas de que não gostavam. Ela detestava caminhadas organizadas com pessoas que chamavam a tudo «uma experiência». Ele detestava pessoas que faziam perguntas sem esperar pela resposta. Vítor tinha uma lista de tarefas que nunca conseguia acabar. Rita tinha uma lista de livros que acabava mesmo quando não gostava deles.

«Isso deve ser muito cansativo.»

«É uma maneira bastante dispendiosa de provar uma coisa que ninguém me pediu.»

Vítor sorriu. Rita percebeu que começava a gostar de o fazer sorrir. Foi essa descoberta, mais do que qualquer comentário sobre o vestido, que a deixou inquieta.

Depois do café, ele perguntou se queria dar uma volta. Rita podia escolher voltar para casa. A possibilidade existia de forma clara, sem uma expressão desapontada já preparada do outro lado da mesa.

Aceitou caminhar. Levaram o alecrim num saco que a empregada lhes deu. A cidade estava húmida, com o chão a refletir as luzes das lojas. Vítor caminhava ao ritmo dela. Rita tinha a sensação de que o seu braço ocupava um espaço excessivo entre ambos.

«Estás muito quieta», disse ele.

«Estou a tentar decidir se te posso dar a mão sem fazer disto um acontecimento.»

Vítor estendeu a mão.

«Podemos experimentar e depois falar de outra coisa.»

Ela aceitou. As mãos encaixaram com um pequeno ajuste dos dedos, um gesto prático que Rita agradeceu. Vítor começou a contar-lhe como se perdera num parque de estacionamento onde trabalhara durante quatro anos. A história era absurda. Rita ouviu-a até ao fim e, quando se riu, reparou que já não estava a verificar continuamente o que sentia.

Pararam num jardim pequeno. Ela reconheceu um banco onde costumava sentar-se com o marido. Não havia nenhuma obrigação de ficar ali. Disse a Vítor que preferia continuar a andar. Ele perguntou para que lado e seguiram pela rua de cima.

Rita tinha imaginado que um primeiro encontro obrigaria a comparar pessoas. Naquela noite, havia antes lugares que precisava de escolher e frases que podia dizer sem explicar tudo. Vítor não lhe pedia para apagar uma vida. Estava a convidá-la a ocupar a que ainda tinha.

À porta do carro, ficaram ambos com as chaves na mão. Vítor disse que gostara do jantar. Rita respondeu que também, depressa demais, e depois acrescentou que tinha gostado de andar com ele.

«Quero voltar a ver-te», disse.

Era uma frase mais difícil do que a primeira e saiu melhor. Vítor concordou, sem fazer dela uma promessa. Podiam marcar outro dia quando lhes apetecesse. Rita pediu-lhe que não esperasse três dias para escrever porque tinha visto esse conselho num sítio qualquer. Ele garantiu-lhe que já não tinha paciência para estratégias que exigiam um calendário.

Ela beijou-o na face antes de entrar no carro. Vítor ficou um instante junto à porta, com a expressão de quem tinha recebido uma resposta diferente da esperada, e agradeceu-lhe a noite. Rita foi para casa a conduzir mais devagar do que precisava.

Na cozinha, colocou o alecrim num frasco com água. O telefone vibrou enquanto tirava os sapatos. A mensagem dizia: «Chegaste bem? Eu consegui encontrar o carro.» Ela respondeu com uma fotografia do ramo, sem precisar de aparecer na imagem para se mostrar.

Na manhã seguinte, teve vontade de contar o encontro a alguém e receio de ouvir interpretações. Escolheu uma amiga que sabia fazer perguntas pequenas. A amiga perguntou se queria repeti-lo. Rita disse que sim. Não houve um discurso sobre merecer felicidade. Falaram das horas do cinema e da possibilidade de chover.

O segundo encontro foi num sábado à tarde. Vítor encontrou-a na fila de uma pastelaria. Rita não chegara cedo e não ensaiara uma frase. Trazia uma bolsa de pano com dois livros que julgava que ele gostaria de ler. Um estava por acabar.

«Esse é para ti?» perguntou ele.

«Era. Resolvi não gostar até ao fim.»

Sentaram-se junto à janela. Rita contou-lhe que tinha pensado muito na noite anterior ao jantar, e quase nada depois de o encontrar. Vítor disse que isso lhe parecia um bom princípio, embora não soubesse se devia ficar ofendido pela segunda parte.

Ela riu-se e inclinou-se para o beijar. Desta vez não escolheu a face. O beijo foi curto, no meio de uma tarde com chávenas a bater nos pires e pessoas a pedir troco. Quando se afastou, Rita sentiu que a sua vida não tinha regressado a um ponto antigo. Estava simplesmente a acontecer outra coisa.

Vítor abriu o livro que ela desistira de terminar. Encontrou um marcador na página setenta e três.

«Posso continuar daqui?»

Rita empurrou o prato dos bolos para o centro da mesa.

«Podes começar onde quiseres.»

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