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Uma história Meia Noite

À distância de um sim

No cartão que encontrou ao pequeno-almoço, Diana chamava-se Helena e tinha uma viagem marcada para uma cidade inventada. O homem que vivia com ela havia nove anos perguntava se podia encontrá-la antes da partida.

Leonor Vale7 min de leitura Quente
Dois lugares num bar com luz quente e reflexos abstratos de tinta marmoreada.
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No cartão que encontrou ao pequeno-almoço, Diana chamava-se Helena e tinha uma viagem marcada para uma cidade inventada. O homem que vivia com ela havia nove anos perguntava se podia encontrá-la antes da partida.

Gonçalo escrevera o convite depois de uma conversa sobre fantasias pouco espetaculares. Diana não desejava ser outra pessoa para sempre. Gostava apenas de imaginar como seria conhecer de novo alguém que já sabia onde ela guardava os medicamentos e por que razão evitava telefonar à companhia da eletricidade. Queria um encontro onde a familiaridade não chegasse antes dela.

Tinham trinta e sete e quarenta anos. A relação era boa, dizia Diana, com a irritação de quem percebe que uma coisa boa também exige atenção. Nos últimos meses, as conversas começavam por horários e acabavam na lista de compras. Não havia uma crise suficientemente dramática para justificar uma grande mudança. Havia o cansaço de se encontrarem sempre no papel de pessoas responsáveis pela mesma casa.

O cartão propunha uma brincadeira. Encontrar-se-iam num hotel com bar aberto ao público, fingindo conhecer-se pela primeira vez. Podiam inventar profissões, destinos e pequenas histórias. Qualquer um podia interromper o jogo dizendo o nome verdadeiro do outro. Diana leu as regras e acrescentou uma: nenhuma fotografia, nenhuma publicação e nenhuma necessidade de continuar se aquilo lhes parecesse ridículo.

Gonçalo assinou por baixo com um nome falso demasiado comprido. Diana riscou metade. A primeira colaboração da noite estava resolvida antes de saírem de casa.

Ela chegou primeiro. Escolheu uma mesa perto da janela e pediu água com gás. Trazia um vestido azul que usava pouco, não por estar guardado para uma ocasião especial, mas porque se esquecera de que gostava dele. Enquanto esperava, começou a sentir-se absurdamente nervosa. Sabia como Gonçalo caminhava, o que pediria e a maneira como procuraria uma cadeira que não abanasse. Ainda assim, ouviu a porta abrir e endireitou-se.

Ele apareceu sem o casaco habitual e com um livro que não era dele. Parou junto à mesa, apresentou-se pelo nome inventado e perguntou se a cadeira estava livre. Diana teve de olhar pela janela para não começar logo a rir. Quando recuperou a compostura, respondeu que esperava por um homem que talvez se tivesse perdido.

«Conheço esse tipo», disse Gonçalo. «Geralmente recusa consultar o mapa.»

Ela reconheceu a referência a uma discussão antiga e ergueu uma sobrancelha. Ele percebeu que quase quebrara a regra. Recomeçaram. Diana era ilustradora de mapas de cidades imaginárias. Gonçalo afinava relógios em navios. Nenhum sabia o suficiente sobre a profissão escolhida para sustentar mais de três perguntas. Essa incompetência salvou-os da solenidade.

Inventaram uma cidade com ruas que mudavam de direção às quintas-feiras. Um navio onde todos os relógios marcavam horas diferentes porque os passageiros não queriam chegar ao mesmo tempo. Uma casa construída à volta de uma árvore que dava chaves em vez de frutos. A conversa foi ganhando uma liberdade que Diana não sentia havia meses. Não precisavam de chegar a uma conclusão útil.

Depois Gonçalo perguntou à mulher inventada de que tinha medo. Diana podia ter respondido qualquer coisa. Escolheu uma verdade.

«De passar a vida a adiar coisas que ninguém me proibiu.»

Ele não fez uma piada. Ficou à espera. Diana contou que queria tirar três meses para trabalhar num projeto pessoal, mas nunca dizia isso sem acrescentar logo as dificuldades. Não era um mapa de cidades imaginárias. Era um livro de desenhos de casas onde tinha vivido. A ideia acompanhava-a desde antes de se conhecerem.

Gonçalo pousou o copo. Diana viu-o quase pronunciar o nome verdadeiro dela. Em vez disso, perguntou à desconhecida o que precisaria para começar. Ela respondeu: tempo, alguma poupança e a coragem de não saber se o resultado seria bom. Dizer aquilo a alguém que fingia não conhecer-lhe a história tornava a escolha menos pesada.

Chegou a vez dele. O afinador de relógios confessou que estava farto de ser sempre a pessoa descontraída. Às vezes sentia-se inseguro no trabalho, mas receava perder uma qualidade de que Diana parecia precisar. Ela ouviu sem o corrigir. Percebeu quantas vezes respondia a uma preocupação dele com «tu resolves», acreditando estar a encorajá-lo. Talvez estivesse também a deixá-lo sozinho com a obrigação.

O jogo perdeu alguma leveza, mas nenhum quis interrompê-lo. Havia um modo de dizer verdades dentro da invenção que lhes servia naquele momento. Quando pediram jantar, usaram os nomes verdadeiros para evitar confusões com a reserva. A breve saída da fantasia deu-lhes vontade de regressar a ela, agora com menos necessidade de representar bem.

Depois do jantar caminharam até uma praça. Gonçalo perguntou se a ilustradora tinha mesmo de partir naquela noite. Diana respondeu que podia perder o navio, desde que o afinador de relógios não lhe prometesse acertar todas as horas. Ele disse que só garantia perguntar qual delas importava.

«Diana», acrescentou então.

Ela parou. Era a palavra combinada para terminar a brincadeira. Gonçalo aproximou-se um pouco, mantendo espaço para que ela escolhesse.

«Quero beijar-te a ti. Sem personagem.»

Diana deu-lhe um beijo antes de responder. Havia nove anos de memória naquele gesto, mas também a surpresa de descobrir que ainda podiam dirigir atenção um ao outro sem saberem de antemão tudo o que ouviriam. Ficaram abraçados no passeio até um casal pedir licença para passar. A vida comum regressou com a delicadeza prática de obrigá-los a desocupar o caminho.

Voltaram para casa de táxi. Diana pousou a cabeça no ombro de Gonçalo, e ele segurou-lhe a mão durante o percurso. Não transformaram a noite numa tentativa de recuperar uma versão antiga da relação. A intimidade que escolheram depois pertenceu ao presente, com os corpos e os receios que tinham agora. O cartão ficou esquecido sobre a mesa até de manhã.

No domingo fizeram contas ao projeto de Diana. Gonçalo falou da dificuldade no trabalho sem uma graça a fechar cada frase. Não resolveram tudo. Encontraram espaço para um dia semanal de desenho e combinaram voltar ao assunto ao fim de um mês. Diana percebeu que a parte mais exigente da fantasia vinha depois, quando era preciso ouvir em casa o que tinha sido fácil dizer num bar.

Na quarta-feira, ela cancelou o primeiro dia de desenho para tratar de duas tarefas que podiam ter esperado. Gonçalo reparou, mas não a repreendeu. Perguntou se queria que fossem buscar jantar para ela recuperar parte da tarde. Diana começou a explicar por que já não valia a pena, ouviu-se e parou. Desenhou durante uma hora. O resultado foi uma página de janelas tortas e uma observação sobre a casa onde morara aos vinte e cinco anos. Mostrou-lhe a folha ao jantar. Ele fez uma pergunta sobre a escada, sem avaliar se aquilo era suficientemente bom para um livro. Diana agradeceu a pergunta. Precisava mais dessa curiosidade do que de um entusiasmo automático. No dia seguinte, foi ela quem perguntou como correra a reunião difícil que Gonçalo mencionara. Escutou a resposta até ao fim, resistindo à velha pressa de lhe dizer que tudo se resolveria.

Guardou o cartão numa gaveta, junto de bilhetes e fotografias. Nas costas desenhou a cidade inventada. Acrescentou duas figuras minúsculas numa praça e deixou uma rua por acabar. Gonçalo perguntou para onde ia. Diana respondeu que ainda não sabia, mas já tinha dito que sim ao primeiro troço.

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