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Uma história Meia Noite

Uma mesa na janela

Durante três meses, Raul reservou a mesa da janela para uma pessoa que nunca apareceu. Madalena começou a pôr dois copos por hábito e a retirar um antes de levar o pão.

Clara Vilar7 min de leitura Quente
Mesa para duas pessoas junto a uma janela em Évora, numa pintura noturna.
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Durante três meses, Raul reservou a mesa da janela para uma pessoa que nunca apareceu. Madalena começou a pôr dois copos por hábito e a retirar um antes de levar o pão.

O restaurante ficava numa rua de Évora onde o sol chegava tarde no inverno. Madalena herdara o negócio de uma tia, mas não herdara o talento para aceitar que os clientes lhe reorganizassem a sala. A mesa da janela tinha quatro lugares. Raul ocupava um, sempre à quinta-feira, sempre às oito, pedindo autorização para conservar os restantes vazios até às nove.

Pagava a conta sem regatear, lia um livro e tratava todos pelo nome. Aos quarenta e quatro anos, tinha um ar menos misterioso do que triste, embora Madalena desconfiasse das histórias que os empregados inventavam durante a preparação do jantar. Ela tinha quarenta, trabalhava demasiado e sabia que um homem sentado sozinho podia estar apenas sentado sozinho.

Numa quinta-feira de janeiro, a reserva seguinte obrigou-a a fazer uma pergunta. Precisava de juntar mesas para um grupo. Raul levantou os olhos do livro e pediu desculpa. Claro que podia mudar de lugar. Guardou os óculos, pegou no casaco e escolheu uma mesa junto à cozinha, onde o barulho tornava impossível continuar a ler.

Madalena sentiu-se culpada. Levou-lhe o café e ficou um instante ao lado da cadeira.

«A pessoa de quem estás à espera sabe que vens?»

Raul olhou para a mesa vazia junto à janela. Demorou a responder.

«Sabia. Agora já não tenho a certeza de que se lembre.»

Era um amigo com quem tinha fundado uma pequena editora. Tinham discutido sobre dinheiro, direitos e uma decisão tomada sem consultar o outro. Antes disso, encontravam-se ali todas as quintas-feiras para jantar. Raul continuara a vir depois da discussão, primeiro como sinal de disponibilidade, depois por teimosia. A ausência do amigo tornara-se uma espécie de argumento que ele já não sabia abandonar.

Madalena ouviu a explicação inteira e respondeu que o peixe daquela noite estava especialmente bom. Raul riu-se. Agradeceu por ela não lhe oferecer uma lição sobre a vida. Madalena tinha várias disponíveis, disse, mas cobrava-as à parte. Na quinta-feira seguinte, ele pediu uma mesa para uma pessoa, sem localização especial.

Passaram a conversar no fim do serviço. Raul traduzia livros e trabalhava muitas vezes de casa. Madalena invejava-lhe o silêncio até ele explicar que, a certas horas, começava a falar com a chaleira. Ele invejava-lhe a presença constante de gente até passar uma noite a ouvir três reclamações incompatíveis sobre a mesma temperatura da sala.

Um dia trouxe-lhe um livro que mencionava uma receita antiga da região. Madalena experimentou-a e achou o resultado pouco interessante. Escreveu uma nota no marcador a explicar porquê. Raul respondeu na margem com uma defesa do autor. O livro passou a circular entre ambos, ganhando comentários que nada tinham que ver com a tradução.

A certa altura, Madalena encontrou uma pergunta junto à descrição de uma viagem: «Tens alguma noite livre?» Respondeu debaixo: «À segunda-feira. O restaurante fecha.» Entregou-lhe o livro sem abrir na página. Raul encontrou a resposta durante a sobremesa e levantou os olhos com uma expressão que a fez voltar depressa à cozinha.

Foram jantar fora na segunda-feira seguinte. Madalena prometeu não analisar o serviço e quebrou a promessa antes da entrada. Raul divertiu-se, mas pediu que ela escolhesse uma coisa de que gostava. Ela indicou a luz. Depois o pão. Depois a maneira como ele lhe fazia perguntas sem parecer estar a preparar uma resposta melhor.

O elogio deixou-os em silêncio por alguns segundos. Raul contou que estava separado havia quatro anos. Madalena disse que terminara uma relação no verão anterior. Não fizeram inventários completos. Havia tempo para conhecer as dificuldades de cada um sem as apresentar como condições de entrada. Quando saíram, a cidade estava fria e quase vazia.

Raul perguntou se podia acompanhá-la até casa. Madalena disse que preferia caminhar mais um pouco. Deram uma volta que os trouxe duas vezes à mesma praça. Na segunda passagem, ela pegou-lhe na mão. Ele interrompeu uma frase sobre um livro e não tentou recuperá-la. Continuaram a andar, agora conscientes de cada mudança de direção.

O primeiro beijo aconteceu junto a uma montra apagada, depois de Madalena se aproximar e perguntar se ele queria parar de falar por um momento. Raul concordou com demasiada prontidão. Ela riu-se contra o sorriso dele. Mais tarde diria que essa atrapalhação a conquistara; nessa noite preferiu repetir o beijo antes de lhe dar uma explicação.

Durante algumas semanas, encontraram-se às segundas-feiras. Raul deixou de reservar a mesa da janela, mas continuou a jantar no restaurante de vez em quando. Madalena fazia questão de lhe cobrar a conta. Ele fazia questão de não se comportar como alguém com privilégios sobre o horário dela. A relação crescia nos espaços que ambos conseguiam escolher, sem invadir o trabalho por distração.

Numa dessas segundas-feiras ficaram em casa dele, a montar uma estante que chegara com instruções incompletas. Madalena classificou o manual como ficção experimental. Raul defendeu a tradução até perceber que tinham colocado a prateleira de cima ao contrário. Resolveram o erro, encomendaram jantar e passaram o resto da noite a escolher onde pôr os livros. Ela gostou de o ver indeciso entre organizar por autor e por tamanho. Era uma dificuldade sem gravidade, o tipo de assunto que se partilha quando já não é preciso tornar cada encontro memorável.

Então o antigo amigo de Raul apareceu. Madalena reconheceu-o pela maneira como ele olhou para a mesa da janela antes de perguntar por uma reserva. Não avisou Raul imediatamente. Ofereceu-lhe uma mesa, levou a carta e telefonou apenas quando o homem pediu expressamente que o fizesse. Aquela conversa pertencia-lhes.

Raul chegou meia hora depois. Sentaram-se durante quase duas horas. Houve gestos tensos, um papel dobrado, silêncios compridos. Madalena manteve a distância. Quando o amigo saiu, Raul ficou sozinho com dois cafés frios. Ela aproximou-se apenas depois de ele fazer um sinal.

«Não vamos voltar a trabalhar juntos», disse.

«Era isso que querias?»

«Achava que sim. Afinal queria que ele percebesse por que fiquei magoado.»

Madalena sentou-se à frente dele. Pela primeira vez, ocupava um dos lugares que tinham esperado durante meses. Não tentou transformar a coincidência numa mensagem do destino. Estava cansada, tinha farinha na manga e queria saber se ele tinha comido alguma coisa.

Fecharam o restaurante juntos. Raul ajudou a empilhar as últimas cadeiras e deixou a mesa da janela para o fim. Madalena apagou a luz da sala, conservando apenas a do balcão. Ele abraçou-a depois de perguntar se ela queria companhia ou sossego. Ela respondeu que, naquela noite, as duas coisas podiam vir da mesma pessoa.

Foram para casa dela. O livro das receitas ficou esquecido no balcão, aberto numa página onde ainda não tinham escrito nada. A noite teve o cuidado e a proximidade que escolheram partilhar longe do restaurante. Na manhã seguinte, Madalena fez café enquanto Raul procurava os óculos que pousara num sítio improvável.

Mais tarde recuperaram o livro. Na última página, ele escreveu uma reserva para segunda-feira, duas pessoas, sem mesa preferida. Madalena acrescentou uma condição: nenhum dos dois podia ficar à espera sem dizer ao outro o que desejava. Depois riscou a palavra condição e escreveu convite. A diferença pareceu-lhe suficiente para guardarem o livro outra vez.

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