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Uma história Meia Noite

O lugar ao teu lado

Na planta do pátio cabiam duas cadeiras, mas Joana desenhou apenas uma. Duarte reparou na falta antes de reparar na oliveira.

Leonor Vale7 min de leitura Quente
Duas cadeiras num pátio de Coimbra com uma oliveira e um caderno de desenho.
Ao teu ritmo

Na planta do pátio cabiam duas cadeiras, mas Joana desenhou apenas uma. Duarte reparou na falta antes de reparar na oliveira.

«Não recebes visitas?»

«Recebo. Podem trazer a cadeira.»

Ele riu-se e continuou a medir a parede. Aos trinta e oito anos, Joana sabia tornar uma resposta defensiva numa piada suficientemente boa para ninguém insistir. Comprara aquela pequena casa em Coimbra com o dinheiro de quinze anos de trabalho e recusava chamar-lhe um recomeço. Era o primeiro sítio que escolhia inteiramente para si. Tinha direito a uma cadeira, a uma oliveira e a não explicar tudo no mesmo dia.

Duarte era o vizinho que lhe emprestara um berbequim. Tinha quarenta anos, trabalhava numa oficina de bicicletas e sabia resolver problemas sem os transformar em demonstrações de competência. Oferecera-se para prender uma treliça à parede depois de a ver tentar segurá-la com uma vassoura. Joana aceitara a ajuda e comprara parafusos a mais, caso precisasse de prolongar a visita.

O pátio recebia sol durante três horas. Ela queria cultivá-lo como quem prepara um quarto: com lugares para pousar coisas, alguma sombra e espaço para mudar de ideias. Duarte escutava as explicações sem sugerir logo uma solução. De vez em quando fazia uma pergunta que a obrigava a escolher. Joana gostava disso e começava a desconfiar da facilidade com que esperava pelas perguntas seguintes.

Conheciam-se havia seis semanas. Encontravam-se na mercearia, na rua e, por uma coincidência pouco credível, quase sempre que ela precisava de levar vidro ao contentor. Duarte já lhe tinha proposto um café. Ela respondera que estava cheia de trabalho. Na semana seguinte, propusera um passeio. Ela dissera que ia chover. Na terceira tentativa ele perguntara apenas se queria que continuasse a convidá-la.

«Quero», respondera Joana, surpreendendo os dois.

Era por isso que estavam ali naquela tarde. A treliça servira de pretexto, embora ninguém tivesse acertado se aquilo contava como um encontro. Ela preparara limonada e uma tarte comprada, que fingira considerar fazer. Ele trouxera uma camisa limpa numa mochila, explicando que vinha da oficina. A explicação deixara-a contente de uma maneira desproporcionada.

Quando a treliça ficou presa, Duarte afastou-se para a observar. Joana manteve a mão na madeira, sentindo o calor que a tarde acumulara. Devia oferecer a tarte, agradecer e deixar que ele escolhesse ficar. Em vez disso, começou a falar de uma caleira que precisava de reparação. Duarte pousou o berbequim.

«Joana, posso fazer-te uma pergunta sem relação com a casa?»

Ela assentiu, já arrependida da caleira.

«Queres ir jantar comigo amanhã?»

«Como vizinhos?»

«Como duas pessoas que se acham interessantes. Espero não estar a falar pelas duas.»

Joana sentou-se no degrau. O joelho dele tinha uma mancha de terra. Achou aquela mancha muito mais difícil de enfrentar do que a proposta. Era um pormenor real, de alguém que podia passar a fazer parte dos seus dias, e ela estava habituada a gostar à distância, com saídas de emergência bem identificadas.

«Nunca tive uma relação», disse.

Duarte não pareceu compreender imediatamente o peso da frase. Esperou. Joana contou o suficiente: encontros adiados, uma amizade por quem se apaixonara sozinha, trabalho usado como desculpa até a desculpa se tornar rotina. Não tinha uma história terrível escondida. Tinha apenas chegado ali por caminhos pequenos e receava que a sua falta de prática parecesse uma falta de alguma coisa essencial.

«Não te estou a pedir um currículo», respondeu ele.

Ela riu-se, desta vez sem se defender.

«Mas também não quero que me trates como uma coisa frágil.»

«Posso começar por discordar da posição da oliveira. Vai tapar-te a luz.»

Joana atirou-lhe um pano de cozinha. A conversa continuou sem a solenidade que ela temia. Duarte falou de uma relação longa que terminara bem e de outra curta que o ensinara a fazer perguntas mais cedo. Nenhuma lhe dera um manual. Concordaram que o jantar podia ser só um jantar e que dizer isso não o tornava menos desejado.

No dia seguinte, Joana mudou de roupa três vezes e escolheu a primeira. Encontraram-se num restaurante pequeno onde a mesa abanava. Duarte tentou estabilizá-la com o cartão de uma oficina concorrente, o que a fez rir demasiado alto. Ela contou-lhe que desenhava mapas de exposição para museus. Ele admitiu que se perdia em quase todos os museus. Discutiram se isso era culpa de quem desenhava os mapas.

O melhor do jantar aconteceu quando deixaram de tentar ser interessantes. Joana contou uma discussão absurda com a impressora. Duarte mostrou-lhe a fotografia de uma bicicleta que alguém pintara inteiramente de dourado, incluindo os pneus. Chegaram à sobremesa sem consultar o telefone. Quando o empregado perguntou se precisavam de mais alguma coisa, Joana quase respondeu que precisava de tempo.

Regressaram a pé. A cidade tinha aquele sossego irregular das noites em que ainda há janelas abertas e louça a ser arrumada. No portão de casa, ela procurou a chave dentro da mala enquanto Duarte esperava a uma distância cuidadosa. Encontrou-a e continuou a procurar.

«Já a tens na mão», disse ele.

Joana mostrou a chave, culpada.

«Estou a tentar perceber como te convido a entrar sem parecer que sei exatamente o que estou a fazer.»

«Podes convidar-me sem essa parte.»

Ela abriu o portão. No pátio, a cadeira única pareceu-lhes uma piada demasiado preparada. Duarte sentou-se no degrau e Joana ficou ao lado dele. A oliveira projetava sombras pequenas na parede. Falaram da tarte que sobrara e de uma viagem que ele queria fazer de comboio, até o silêncio deixar de lhes pedir uma conversa nova.

«Gostava de te beijar», disse Joana.

«Também eu.»

Foi ela quem se aproximou. O beijo não resolveu a insegurança que a acompanhara até ali, mas deu-lhe uma experiência mais concreta do que todos os receios. Duarte esperou que ela voltasse a olhar para ele. Joana sorriu, encostou a testa à dele por um instante e pediu que não se fosse embora já.

Comeram a tarte diretamente da caixa. Quando ele saiu, era tarde, e tinham marcado outro encontro sem o esconder atrás de uma reparação. Joana fechou o portão e ficou no pátio a ouvir os passos dele afastarem-se. Sentia uma alegria que não precisava de tornar prudente para a merecer.

Na semana seguinte comprou uma segunda cadeira numa loja de usados. Era azul, mais baixa do que a primeira e impossível de combinar com a mesa. Duarte perguntou se ela queria trocá-la. Joana sentou-se para experimentar e respondeu que não.

Não tinham passado a ver-se todos os dias. Joana precisava das suas tardes de trabalho, e Duarte fechava a oficina demasiado tarde às quartas-feiras. Descobrir essa irregularidade foi um alívio. Ela não tinha de entregar a vida que construíra para poder partilhá-la. Na sexta-feira em que ele chegou cansado e quase sem assunto, comeram sopa no pátio. Joana achou aquele encontro tão importante como o primeiro jantar, talvez porque já nenhum dos dois tinha preparado uma apresentação.

«A tua planta não previa isso», observou ele.

«As plantas podem ser revistas.»

Ela deixou o desenho aberto sobre a mesa e acrescentou a cadeira com um lápis vermelho. Não desenhou Duarte sentado nela. Queria que aquele lugar continuasse a ser um convite, uma escolha que ele pudesse fazer de cada vez. Depois passou-lhe o lápis para que assinalasse onde, na sua opinião insuportavelmente prática, devia ficar a oliveira.

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