Uma história Meia Noite
Depois da videoconferência
Carolina desligou a câmara e continuou a ouvir a voz de Tiago. A reunião tinha terminado, mas ambos se tinham esquecido de sair, cada um à espera de que o outro fosse o primeiro a desaparecer do ecrã.

Carolina desligou a câmara e continuou a ouvir a voz de Tiago. A reunião tinha terminado, mas ambos se tinham esquecido de sair, cada um à espera de que o outro fosse o primeiro a desaparecer do ecrã.
«Ainda estás aí?» perguntou ele.
«Estou. Ia dizer-te uma coisa, mas agora parece uma reunião nova.»
Trabalhavam na mesma equipa havia oito meses. Carolina tinha trinta e um anos e fazia investigação para projetos editoriais. Tiago, de trinta e cinco, tratava da produção gráfica. Nenhum chefiava o outro. Encontravam-se uma vez por semana no escritório e nos restantes dias falavam através de mensagens, chamadas e documentos que ambos insistiam em comentar depois da hora.
Carolina achava-o excessivamente confiante. Tiago achava que ela recusava qualquer ideia antes de verificar se era possível. Tinham aprendido a trabalhar bem juntos sem chegarem a corrigir as opiniões que tinham formado no primeiro projeto.
Naquela reunião, ela apresentara dados que obrigavam a refazer uma parte importante da publicação. Tiago defendera a alteração diante de um cliente que preferia não aumentar o prazo. Carolina preparara-se para discutir com ele e passara metade da chamada a adaptar-se à presença de um aliado.
«Queria agradecer-te», disse.
«Não preciso que me agradeças por concordar com uma coisa certa.»
«Eu sei. Mas concordaste antes de eu ter de gastar as cinco páginas de explicação que preparei.»
Tiago sorriu. Estava sentado numa cozinha, com uma chávena junto ao computador. Carolina nunca reparara que o fundo das chamadas era uma parede real. Julgara sempre que ele usava uma imagem de uma casa impecável escolhida para parecer tranquila.
Um ruído fez-o olhar para fora do enquadramento. Tiago explicou que a máquina de lavar acabara o programa e estava a anunciar a vitória com uma insistência difícil de suportar. Carolina riu-se. A casa perdeu imediatamente o aspeto de cenário.
Ele levantou-se para desligar a máquina e regressou. Podia ter encerrado a chamada nesse intervalo, mas sentou-se outra vez. Carolina encontrou uma pergunta que não vinha num documento.
«Vais ao escritório amanhã?»
«Ia trabalhar em casa. Mas posso ir.»
Ela disse que gostava de almoçar com ele. Acrescentou que não tinha nenhum ficheiro para discutir. Tiago deixou a mão sobre o rato e perguntou se devia entender aquilo como um convite fora do trabalho. Carolina respondeu que sim. A clareza custou-lhe menos do que continuar a preparar mensagens com duplo sentido.
Marcaram para a uma. Tiago sugeriu um restaurante a dez minutos do escritório. Carolina confirmou que não era o sítio onde a equipa costumava ir e passou a noite a tentar não fazer daquela escolha uma prova de nada.
No dia seguinte, trabalharam na mesma sala. Tiago cumprimentou-a e foi para a sua mesa. Não houve olhares que chamassem a atenção dos colegas nem uma tentativa de prolongar todas as perguntas práticas. Carolina agradeceu-lhe em silêncio aquela forma de deixar o convite existir sem o transformar num assunto coletivo.
À uma, saíram separadamente e encontraram-se na rua. Carolina levava o casaco na mão porque fizera calor durante a manhã. Tiago trazia uma mochila pequena. Ela perguntou se tinha levado trabalho. Ele mostrou-lhe um livro.
«Era para o caminho. Não estou a preparar uma apresentação.»
Sentaram-se junto à janela do restaurante. O primeiro assunto foi precisamente aquilo de que ambos tinham tentado fugir. Carolina perguntou-lhe pela gráfica. Tiago começou a responder, parou a meio e propôs que deixassem o trabalho de lado durante quinze minutos.
«Só quinze?»
«É um objetivo que talvez consigamos cumprir.»
Ela falou do apartamento que partilhava com uma amiga. Gostava da companhia, mas começava a querer uma casa onde as decisões não precisassem de um grupo de mensagens. Tiago vivia sozinho e disse que às vezes precisava de enviar uma mensagem a alguém para decidir uma coisa que só lhe dizia respeito.
Descobriram que ambos passavam domingos a cozinhar mais do que conseguiam comer. Carolina congelava caixas sem etiquetas. Tiago etiquetava tudo e depois esquecia-se de abrir o congelador. Discutiram qual seria a forma mais eficiente de preservar alimentos que nenhum chegava a usar.
Não havia nada de particularmente extraordinário na conversa. Carolina gostou disso. Durante meses, conhecera Tiago através de problemas que precisavam de respostas rápidas. Agora podia ouvi-lo pensar num assunto sem prazos e reparar nas pausas que não eram falhas da ligação.
O almoço durou mais do que planeavam. Quando regressaram, havia tarefas à espera. Combinaram falar depois do trabalho, sem exigir que um encontro reorganizasse imediatamente todos os dias.
Às seis, Carolina recebeu uma mensagem: «Os quinze minutos já passaram. Queres tentar outra vez?» Respondeu que sim e sugeriu o sábado. Tiago escolheu um percurso junto ao mar que conhecia bem. Ela pediu que não fosse uma caminhada apresentada como uma prova de resistência. Ele garantiu que havia bancos e um sítio para almoçar.
No sábado, Carolina chegou com sapatos confortáveis e sem uma única nota no telefone. Tiago parecia diferente fora do escritório, embora usasse quase a mesma roupa. Cumprimentou-a sem pressa e perguntou se queria começar pelo passeio ou pelo café.
Ela escolheu passear. O caminho era plano, com vento suficiente para lhes desarrumar o cabelo. Tiago contou-lhe que tinha pensado em convidá-la antes, mas receava que ela se sentisse obrigada a ser simpática por trabalharem juntos.
«Eu podia ter recusado», disse Carolina.
«Podias. Mas queria ter a certeza de que sabias que eu também sabia isso.»
Ela compreendeu o cuidado. Disse-lhe que gostava de poder continuar a discordar dele no trabalho, mesmo que ali as coisas corressem bem. Tiago respondeu que contava com isso. A publicação seguinte não ficaria melhor se ambos começassem a concordar para evitar uma conversa difícil.
Pararam junto a um muro. Carolina perguntou-lhe porque, na primeira reunião, tinha dito que um problema de produção era fácil. Ela passara meses a ouvir aquela frase como uma forma de desvalorizar o seu trabalho.
Tiago lembrava-se da reunião. Explicou que chamara fácil à impressão, não à investigação. Estava nervoso e tinha tentado tranquilizar o cliente com uma frase que acabara por irritar metade da equipa. Carolina riu-se, aliviada e um pouco embaraçada por ter guardado uma interpretação tão definitiva.
«Podias ter perguntado», disse ele.
«Podias ter explicado.»
Concordaram que ambos tinham razão. Continuaram o passeio sem precisar de escolher um vencedor.
Ao almoço, sentaram-se numa esplanada abrigada do vento. Carolina contou-lhe uma viagem que gostaria de fazer sozinha. Tiago não se ofereceu para a acompanhar antes de saber se era esse o convite. Perguntou-lhe apenas onde queria ir. Ela percebeu que a atenção dele não ocupava todo o espaço das coisas que dizia.
Mais tarde, no caminho para o carro, deu-lhe a mão. Tiago aproximou-se e ela beijou-o, escolhendo um instante em que não tinham de resolver nenhuma frase. Ficaram abraçados por um momento, no meio de uma tarde clara, até Carolina se lembrar de que tinha deixado o casaco no restaurante.
Voltaram para o buscar. O empregado tinha-o guardado debaixo do balcão e entregou-o sem comentários. Tiago ajudou-a a vesti-lo e perguntou se devia escrever uma nota para evitar esquecimentos futuros.
«Não ponhas isto no documento do projeto», respondeu ela.
Na segunda-feira, tiveram outra videoconferência. Carolina discordou de uma escolha de papel. Tiago pediu-lhe que explicasse a razão e alterou a proposta depois de a ouvir. A reunião terminou a horas. Ambos saíram da chamada sem esperar um pelo outro.
Cinco minutos depois, o telefone dela vibrou. Tiago perguntava se o casaco continuava em casa. Carolina enviou uma fotografia do cabide e retomou o trabalho com um sorriso que não precisava de aparecer na câmara.


