Uma história Meia Noite
O nome na reserva
O meu nome estava errado na reserva e o do homem à minha frente também. Só descobrimos isso quando o empregado nos pediu que decidíssemos qual dos dois esperava uma pessoa chamada Artur.

O meu nome estava errado na reserva e o do homem à minha frente também. Só descobrimos isso quando o empregado nos pediu que decidíssemos qual dos dois esperava uma pessoa chamada Artur.
Eu chamava-me Duarte. Tinha quarenta e dois anos, fazia traduções técnicas e conhecia muito bem a diferença entre um erro pequeno e um erro que uma pessoa vai continuar a explicar durante meses. O outro homem, de trinta e nove, chamava-se Afonso. Trabalhava numa seguradora e tinha marcado um jantar com alguém que só vira por fotografia.
Também eu. O encontro fora organizado por uma aplicação que parecia conhecer melhor os meus hábitos de navegação do que a minha paciência. Tinha trocado mensagens com um Artur durante dez dias. Conversávamos bem. Ainda assim, antes de sair de casa, passara tempo demais a decidir se uma camisola me fazia parecer interessado ou apenas alguém com frio.
Afonso mostrou a confirmação no telefone. Eu mostrei a minha. O restaurante tinha registado as duas reservas com o nome da pessoa que nenhum de nós encontrava ali. As horas eram diferentes por quinze minutos. Não parecia uma coincidência particularmente promissora.
O empregado ofereceu-se para separar as mesas. Afonso disse que podíamos esperar no balcão até perceber o que se passava. Aceitei. Não gostava de começar a noite sozinho numa mesa para duas pessoas, observado por um empregado que tentaria ter pena de mim sem o demonstrar.
Pedimos água. Afonso ligou para o número que tinha e ouviu uma resposta automática. Eu enviei uma mensagem que ficou sem resposta. Olhámos para os telefones e depois um para o outro.
«Parece que encontrámos a mesma pessoa», disse ele.
«Ou que a mesma pessoa resolveu não nos encontrar.»
Afonso tirou o casaco. Não estava zangado. Parecia sobretudo interessado em perceber se devia regressar a casa ou pedir qualquer coisa para comer. Aquela falta de dramatismo ajudou-me. Eu já estava a preparar uma versão da noite em que alguém me humilhava sem sequer aparecer.
«Queres jantar?» perguntou.
«Isto passou a ser um encontro?»
«Por enquanto, é uma pergunta sobre comida.»
Fomos para uma mesa junto à parede. O empregado retirou um dos cartões com o nome Artur e levou-o para a receção. O outro ficou num copo pequeno, entre o azeite e uma vela que não chegaram a acender.
Afonso gostava de cozinhar e tinha opiniões difíceis de justificar sobre arroz. Eu gostava de comer e tinha uma cozinha organizada para provar que era capaz de viver sozinho. Contei-lhe que a maior parte dos meus tachos cabia num armário e não saía dele durante semanas.
«Então lavá-los deve ser fácil.»
«A minha competência doméstica depende bastante de não usar as coisas.»
Ele riu-se. A conversa mudou depressa para o trabalho. Afonso falava de seguros com uma ironia que não o impedia de levar a sério as pessoas que lhe telefonavam. Eu expliquei-lhe porque traduzir instruções de máquinas às vezes exigia imaginar alguém a tentar segui-las com medo de partir uma coisa cara.
Quando o empregado trouxe os pratos, nenhum estava a consultar o telefone. Comemos devagar. Afonso perguntou-me se vivia sempre naquele bairro. Disse-lhe que regressara ao Porto depois de quase dez anos fora e que ainda não sabia se era um regresso ou uma nova mudança.
Ele nunca tinha saído da cidade por mais de três meses. Por vezes, sentia que isso o tornava menos interessante diante de pessoas que apresentavam países como se fossem características de personalidade. Respondi-lhe que os meus anos fora tinham incluído supermercado, trabalho e bastante dificuldade em perceber instruções de aquecimento.
«Também tive alguma vida», acrescentei. «Mas nem toda precisa de aparecer numa conversa de jantar.»
Afonso assentiu. Disse que tinha terminado uma relação longa no ano anterior. Não queria transformar aquela informação num convite para eu avaliar o que tinha corrido mal. Deu-ma porque era uma parte da vida dele que ainda ocupava espaço.
Gostei da forma como o disse. Eu próprio tinha contado histórias sobre relações anteriores como quem entregava uma lista de defeitos dos outros para não ter de examinar os seus. Naquela noite, não me pareceu necessário preparar uma defesa.
O meu telefone vibrou a meio da sobremesa. Artur pedira desculpa, alegando um problema no trabalho. Afonso recebeu uma mensagem parecida poucos segundos depois. Não comparamos as frases. Não precisava de haver uma investigação para decidirmos continuar o jantar.
Respondi que tinha encontrado companhia e que podia ficar tranquilo. Afonso perguntou se era uma forma de ser simpático ou uma provocação. Disse-lhe que eu só descobriria quando lesse a mensagem na manhã seguinte.
Ficámos no restaurante até a sala esvaziar. Pedi a conta e Afonso insistiu em dividir. Nenhum queria usar um jantar acidental para começar a cobrar favores. Saímos com o casaco ao ombro, porque a noite estava menos fria do que ambos tinham previsto.
À porta, houve um instante de indecisão. Afonso estava de carro. Eu podia ir a pé. Não conhecia bem aquele homem, mas já não o conseguia imaginar apenas como a outra pessoa que uma aplicação deixara à espera.
«Queres caminhar um bocado antes de ires?» perguntei.
Ele disse que sim. Fomos até uma praça onde as árvores deixavam cair folhas sobre bancos vazios. Afonso contou-me que tinha escolhido a camisa para o encontro por recomendação de um amigo. Eu mostrei-lhe a camisola e confessei a discussão que tivera sozinho diante do armário.
«Acho que ganhaste a discussão», disse.
«Não sei. O meu adversário era bastante teimoso.»
Sentámo-nos num banco. Não havia pressa de encher todos os espaços com frases. Afonso aproximou a mão da minha, pousada na madeira, e perguntou se aquilo continuava a ser apenas um jantar.
«Neste momento já não estamos a jantar.»
Ele sorriu. Dei-lhe a mão, por escolha, e ficámos assim a ouvir o movimento da praça. Quando me beijou, fê-lo devagar o suficiente para eu poder aproximar-me também. Não havia um equívoco a resolver. Havia duas pessoas a aceitar uma coisa que não tinham planeado.
Trocámos números antes de ele ir buscar o carro. Pedi-lhe que guardasse o meu nome corretamente. Afonso escreveu Duarte, mostrou-me o ecrã e acrescentou o nome do restaurante. Eu fiz o mesmo, mas sem o restaurante. Não queria que todos os encontros futuros precisassem de regressar àquele erro para serem interessantes.
No dia seguinte, enviou-me uma mensagem sobre arroz. Respondi com uma fotografia dos meus tachos, cuidadosamente arrumados, e disse que aceitava propostas que justificassem tirá-los do armário.
O segundo jantar foi em minha casa. Afonso chegou com os ingredientes e deixou-me cozinhar uma parte, embora eu lhe dissesse três vezes que não sabia fazê-la bem. Ele não pretendia instalar-se na cozinha para provar alguma coisa. Queria que jantássemos juntos sem um terceiro nome entre nós.
Queimei a primeira cebola. Afonso abriu a janela e foi buscar outra ao saco, sem sugerir que assumia o comando. Enquanto a cortava, disse-lhe que me tinha custado convidá-lo porque a casa nunca me parecia pronta para receber alguém. Ele olhou para a bancada, para os livros e para a cadeira onde deixara o casaco. Perguntou-me se pretendia entregar-lhe uma casa ou dar-lhe jantar.
Antes de nos sentarmos, tirei de uma gaveta o cartão que tinha trazido do restaurante. Afonso riu-se quando o viu. Virei-o e escrevi os nossos nomes no verso. A receita ficou por baixo, com uma nódoa de azeite que nenhum tentou limpar.


