Uma história Meia Noite
Passo a dois
A primeira vez que o Luís me convidou para dançar, pisei-lhe o pé antes de a música começar. Ele disse que apreciava um homem capaz de antecipar os problemas.

A primeira vez que o Luís me convidou para dançar, pisei-lhe o pé antes de a música começar. Ele disse que apreciava um homem capaz de antecipar os problemas.
Eu tinha cinquenta e um anos e acabara de me inscrever numa associação cultural para sair de casa às quintas-feiras. O formulário permitia escolher entre cerâmica, canto e dança. A cerâmica coincidia com o meu horário, cantar parecia-me uma agressão aos vizinhos, e assim cheguei à sala onde o Luís arrumava cadeiras enquanto assobiava uma melodia que nunca chegava ao fim.
Tinha quarenta e oito anos, olhos atentos e uma maneira irritante de parecer à vontade sem ocupar o espaço dos outros. Não era professor. Frequentava o grupo havia seis meses e fora promovido a responsável pelas cadeiras por ser o único que chegava cedo. Disse-me isso quando lhe perguntei se precisava de pagar a aula a ele. A minha primeira impressão foi, portanto, administrativamente errada.
Nas primeiras semanas dancei com várias pessoas. O grupo era pequeno, composto por adultos com mais vontade do que coordenação. Ninguém parecia interessado em fazer de conta que estava num concurso. Eu gostava dessa falta de solenidade, mas tornava-me rígido assim que tinha de confiar o equilíbrio a outra pessoa. O professor mandava-me baixar os ombros. Eu baixava-os durante três segundos.
Com o Luís era pior. Reparava no perfume do sabonete, na manga arregaçada e na expressão concentrada com que ele escutava as indicações. Depois esquecia-me de contar. Um dia pediu-me que parasse de olhar para os pés. Disse que continuariam lá, mesmo sem vigilância. Levantei os olhos e perdi definitivamente a conta.
Já sabia que gostava de homens. A descoberta não fazia parte daquela história. O que me custava era voltar a mostrar interesse depois de uma separação demorada, feita de conversas adiadas e objetos distribuídos por caixas. Tinha saído dessa relação com uma casa mais arrumada e uma desconfiança injusta em relação à minha capacidade de escolher alguém.
O Luís não me perguntou por isso. Falava de uma máquina de lavar avariada, do seu trabalho numa biblioteca e de um cão que não tinha, mas que um vizinho lhe emprestava para passeios demasiado longos. A certa altura percebi que conhecia os horários desse cão e continuava sem saber se ele partilhava a vida com alguém. A informação em falta começou a parecer deliberada, embora fosse culpa minha.
Perguntei numa noite de chuva, à saída. Estávamos os dois debaixo do toldo, à espera de uma melhoria que a previsão não prometia.
«Tens alguém à tua espera?»
Ele olhou para o relógio, depois para mim.
«O vizinho já foi buscar o cão. Se a pergunta era outra, a resposta também é não.»
Ri-me com a vergonha de ter sido compreendido. O Luís perguntou se eu queria tomar alguma coisa. Fomos a um café quase vazio, onde o empregado desligou uma das televisões quando entrámos. Pedimos chá e ficámos até à hora de fechar, falando com uma facilidade que não se transferia para os meus pés.
Descobri que ele tinha vivido vinte anos noutra cidade e regressara para cuidar do pai durante uma doença já ultrapassada. Agora tentava perceber que partes da vida queria conservar ali. Contei-lhe a minha separação sem fazer do ex-companheiro um vilão. O Luís ouviu e perguntou o que eu queria fazer de diferente. Não soube responder. Foi a primeira pergunta da noite que levei para casa.
A associação preparava uma pequena festa. O professor propôs que os pares apresentassem uma dança curta, sem obrigação. Eu disse logo que não. O Luís concordou antes de eu acabar de justificar. Essa concordância magoou-me de uma forma ridícula. Queria ser convencido, mas não queria admitir que desejava alguma coisa que me assustava.
Na semana seguinte cheguei cedo. O Luís estava a arrastar a última cadeira. Disse-lhe que tinha mudado de ideias sobre a festa. Ele apoiou as mãos no encosto e perguntou se eu queria dançar por vontade própria ou para provar que não tinha medo. Respondi que as duas coisas talvez estivessem um pouco misturadas.
«Então ensaiamos primeiro. A festa decide-se depois.»
Foi a proposta certa. Ficámos uma hora depois da aula, com autorização para fechar a sala. Sem ninguém a observar, consegui prestar atenção à música. O Luís contava baixinho quando eu me perdia. A mão dele era firme sem me empurrar. Comecei a perceber que confiar não significava abdicar do meu movimento. Significava comunicar a tempo de podermos fazer o mesmo caminho.
No fim do ensaio, ele perguntou se podia abraçar-me. Eu devia estar com uma expressão particularmente satisfeita, porque o abraço veio acompanhado de uma gargalhada. Ficámos assim mais tempo do que a celebração de oito passos justificava. Quando nos afastámos, beijei-lhe a face e perguntei se gostaria de jantar comigo no sábado.
«Como avaliação do progresso?»
«Como um encontro. Estou a praticar perguntas claras.»
Ele aceitou. No sábado cozinhei uma receita que já sabia fazer, contrariando a minha tendência para escolher desafios impróprios em ocasiões importantes. O Luís trouxe sobremesa. Jantámos à mesa da cozinha, e eu senti pela primeira vez que a casa não precisava de parecer completamente renovada para receber alguém novo.
Depois pusemos música. Ele estendeu-me a mão, e dançámos entre a mesa e o frigorífico, desviando-nos de uma cadeira que nenhum quis interromper o momento para afastar. Quando a canção terminou, ficámos parados. Perguntei se o podia beijar. O Luís respondeu aproximando-se e dizendo o meu nome, como se o estivesse finalmente a usar sem outra finalidade.
O beijo deixou-me contente e nervoso, duas coisas que eu julgara incompatíveis com a idade adulta. Ele não tentou resolver o nervosismo. Sentámo-nos no sofá, conversámos mais um pouco e deixámos que a noite seguisse ao nosso ritmo. De manhã, encontrei a sobremesa esquecida no frigorífico e duas chávenas por lavar. Gostei daquela desordem pequena.
Na festa, a música começou antes de estarmos preparados. O meu primeiro impulso foi pedir que parassem. O Luís levantou as sobrancelhas, numa pergunta silenciosa. Respirei e fiz o passo seguinte. Enganei-me uma vez, talvez duas. O público bateu palmas sem saber, ou sem se importar, e acabámos a rir.
Um amigo meu filmou tudo de lado, com metade da imagem ocupada por uma coluna. Vimos a gravação mais tarde e concordámos que era a melhor documentação possível. Não havia pormenor suficiente para eu analisar os erros. Havia, porém, um instante em que se via o meu sorriso antes de eu reparar na câmara. O Luís pediu que lhe enviasse o vídeo. Guardei esse pedido com mais cuidado do que a gravação.
Não saí dali transformado num homem corajoso em todas as circunstâncias. Continuava a ter receios, incluindo o de gostar demasiado depressa. Mas, quando o Luís me perguntou se queria ficar para a dança seguinte, não procurei uma resposta que me protegesse. Disse que sim e fui eu quem lhe deu a mão.
Na quinta-feira seguinte chegámos separados. Eu vinha do trabalho, ele de um passeio com o cão emprestado. Arrumámos as cadeiras enquanto o professor procurava uma coluna que não ligava. A rotina regressou, menos cinematográfica do que a festa, e foi aí que percebi que queria continuar. Não apenas nas noites em que a música ajudava. Também naquelas em que era preciso descobrir onde alguém tinha guardado o cabo.


