Uma história Meia Noite
O inverno em Tavira
Celeste alugara a casa até março e levara roupa suficiente para desistir em novembro. Na primeira manhã, o homem da casa ao lado perguntou-lhe se os vasos da varanda estavam incluídos na mudança.

Celeste alugara a casa até março e levara roupa suficiente para desistir em novembro. Na primeira manhã, o homem da casa ao lado perguntou-lhe se os vasos da varanda estavam incluídos na mudança.
«Só os que sobreviverem ao caminho», respondeu ela.
«Então convém começar por este.»
Ele segurou o alecrim antes de o vaso escorregar. Chamava-se Artur, tinha sessenta e quatro anos e vivia em Tavira desde que deixara de trabalhar numa empresa de transportes. Celeste tinha sessenta e um, uma reforma recente e uma quantidade razoável de pessoas que lhe perguntavam por que razão queria passar o inverno longe de casa. A resposta, «para experimentar», parecia dececionar toda a gente.
Ficara viúva havia sete anos. Gostava da vida que reconstruíra, das amigas e do coro onde cantava às terças-feiras. Não fugia de uma tristeza secreta. Queria apenas descobrir como eram os dias quando ninguém esperava que ela ocupasse sempre o mesmo lugar. Arrendara a casa depois de ver fotografias pouco convincentes de uma varanda magnífica.
A varanda era realmente boa. A canalização, menos. Na segunda noite, uma ligação cedeu debaixo do lava-loiça. Artur apareceu com o contacto de uma canalizadora e ficou a segurar uma bacia enquanto ela chegava. Não tentou reparar o que não sabia. Celeste considerou essa prudência uma qualidade invulgar e ofereceu-lhe jantar como agradecimento.
Ele aceitou para quinta-feira. Na quarta avisou que não poderia ir, porque tinha consulta no hospital de Faro. Celeste respondeu que podiam combinar outro dia. Surpreendeu-se com a desilusão que sentiu. Não era pelo jantar; a comida podia ser congelada. Era pela facilidade com que já esperava ouvir a campainha.
Encontraram-se no sábado, junto ao mercado. Artur levava um saco de laranjas e parecia cansado. Disse que a consulta correra bem, mas os exames o tinham deixado impaciente com tudo. Celeste convidou-o a sentar-se. Beberam café ao sol, entre pessoas que falavam de compras e do tempo. Ela contou-lhe da canalização, ele contou-lhe da absurda quantidade de revistas antigas na sala de espera.
O jantar aconteceu nessa noite. Celeste fez arroz de peixe e recusou-se a pedir desculpa por estar ligeiramente passado. Artur trouxe um bolo que comprara numa pastelaria, apresentando-o como a sua maior competência culinária. Conversaram até tarde. Ele era divorciado, mantinha uma relação cordial com a ex-mulher e viajava menos do que tinha prometido a si próprio quando se reformara.
«O que te impede?» perguntou Celeste.
Artur pensou antes de responder. Não era dinheiro, nem saúde, nem falta de tempo. As razões concretas esgotavam-se depressa. Talvez lhe faltasse alguém com quem discutir se valia a pena sair de casa num dia frio. Celeste respondeu que essa discussão podia ser travada consigo próprio. Ele concordou e pediu mais bolo.
Começaram a passear de manhã. Às vezes falavam muito; noutras, Celeste levava uma máquina fotográfica e Artur aprendia a esperar enquanto ela tentava apanhar a mesma luz em cinco fachadas. Não lhe dizia que já tinha fotografias suficientes. Ela, por sua vez, não o apressava quando encontrava conhecidos que precisavam de contar uma história inteira para chegar a uma pergunta.
Em dezembro, Artur convidou-a para um baile da associação que frequentava. Celeste disse que não dançava havia anos. Ele respondeu que a música também tinha alguma idade, portanto estariam em igualdade de circunstâncias. Ela comprou uma blusa verde sem contar a ninguém para que servia. Experimentou-a três vezes e pendurou-a à vista, como se a peça fosse uma decisão que precisava de amadurecer.
Na noite do baile, Artur apareceu com um casaco que lhe ficava um pouco apertado nos ombros. Celeste não comentou. Ele elogiou a blusa sem usar a palavra elegante, pela qual ela começava a sentir uma antipatia injusta. Disse apenas que aquela cor lhe ficava bem e que estava contente por irem juntos.
Dançaram devagar. Artur conduzia com cuidado, atento ao espaço e às pessoas em redor. Celeste sentiu uma alegria inesperada ao reconhecer o seu corpo capaz de aprender outra proximidade. Não precisava de apagar a vida anterior, nem de pedir desculpa pela que agora podia querer. Quando a música terminou, foi ela quem pediu mais uma.
À porta de casa, Artur beijou-lhe a mão num gesto tão antiquado que ambos se riram. Celeste segurou-o pela manga antes que ele se afastasse.
«Podes beijar-me de uma maneira menos cerimoniosa, se quiseres.»
«Quero.»
Ela aproximou-se primeiro. O beijo surpreendeu-os pela simplicidade com que aconteceu depois de tantas semanas de passeios. Artur ficou a olhar para ela com um sorriso pouco discreto. Celeste abriu a porta e convidou-o a entrar. A noite prolongou-se com a intimidade que ambos escolheram, sem necessidade de contar os anos desde a última vez que se tinham sentido assim.
O problema apareceu em fevereiro. Celeste começou a organizar o regresso e Artur tornou-se excessivamente prestável. Procurava maneiras de ela enviar a bagagem, oferecia contactos de transportadoras, perguntava em que dia entregaria a chave. Ela percebeu que a eficiência escondia uma pergunta que ele não queria fazer.
Foi Celeste quem a colocou na mesa, durante um almoço.
«Estás a ajudar-me a partir ou a tentar saber se eu fico?»
Artur largou o garfo. Admitiu que gostaria que ela ficasse. Admitiu também que lhe parecia injusto pedir. Celeste agradeceu a honestidade, mas sentiu um aperto. Gostava dele. Gostava da sua casa no Norte. Não queria que uma escolha anulasse a outra apenas porque era mais fácil contar uma história com um final definitivo.
Passaram alguns dias sem resolver o assunto. Continuaram a ver-se, recusando transformar a incerteza num castigo. Celeste telefonou à amiga com quem cantava no coro e ouviu-se dizer que tinha saudades. Artur marcou uma viagem curta que adiara durante anos. Quando voltaram à conversa, ambos já tinham deixado de procurar uma solução que dispensasse algum trabalho.
Nessa semana foram ver uma exposição numa vila próxima. Perderam o autocarro de regresso porque Celeste insistira em entrar numa loja de tecidos. Artur ficou aborrecido e ela não lhe pediu que disfarçasse. Sentaram-se a esperar pelo seguinte, com dois cafés demasiado quentes e uma pequena distância entre as cadeiras. Ao fim de um quarto de hora começaram a rir da discussão. Celeste percebeu que desejava conhecer também aquele homem impaciente, capaz de dizer que estava cansado sem a fazer responsável por toda a sua vida. Contou-lhe isso. Artur respondeu que, apesar do elogio, continuava a achar o tecido horrível. Ela comprara-o precisamente por causa daquela cor impossível.
Combinaram visitas. Primeiro ele iria ao Norte, depois ela regressaria a Tavira por duas semanas. Fizeram contas, consultaram horários e reservaram tempo para continuarem a ter vidas próprias. Celeste não renovou o arrendamento. Artur não apresentou isso como uma derrota. Na véspera da partida, cozinharam juntos e discutiram durante dez minutos a quantidade correta de coentros.
De manhã, ele levou-a à estação. Celeste entregou-lhe o vaso de alecrim.
«É uma responsabilidade, não uma chantagem.»
«Ainda bem. Já estava a preparar uma declaração muito longa.»
Celeste pediu-lhe que a reservasse para a viagem seguinte, quando teriam tempo.
Beijaram-se antes de o comboio chegar. Celeste entrou com menos malas do que trouxera. Duas semanas depois, quando Artur tocou à campainha da sua casa, estava a chover. Trazia o alecrim numa caixa, porque não confiava no vizinho para o regar. Ela riu-se e abriu-lhe espaço no parapeito da cozinha.


