Uma história Meia Noite
Domingo em Caminha
Teresa comprou duas laranjas na feira e aceitou uma terceira porque o vendedor insistiu. Só depois reparou que não tinha espaço no saco e que o homem a seu lado observava a negociação com uma atenção desnecessária.

Teresa comprou duas laranjas na feira e aceitou uma terceira porque o vendedor insistiu. Só depois reparou que não tinha espaço no saco e que o homem a seu lado observava a negociação com uma atenção desnecessária.
«Se ofereceres uma», disse ele, «continuas a levar as duas que querias.»
Ela entregou-lhe a laranja antes de perguntar o nome. O homem chamava-se Luís, tinha sessenta e um anos e andava pela feira à procura de uma peça para um candeeiro. Teresa, de cinquenta e sete, não precisava de nada para além das laranjas. Tinha ido porque acordara cedo e não lhe apetecia passar o domingo a ouvir a máquina de lavar.
Conhecia Luís de vista. Encontravam-se às vezes numa pastelaria onde ele lia o jornal inteiro, incluindo páginas que já deviam estar desatualizadas. Teresa imaginara-o casado, não por ter visto alguma coisa que o confirmasse, mas porque havia homens que lhe pareciam nascer acompanhados por uma estrutura doméstica invisível.
Luís era solteiro. Tinha vivido com duas pessoas em épocas diferentes e gostava de falar disso sem apresentar nenhuma como um erro. A primeira trabalhava agora noutra cidade. Da segunda, sabia pouco. Não mencionou nenhuma delas naquela manhã. Perguntou a Teresa se ia continuar a percorrer a feira.
Ela disse que sim. Caminharam entre mesas com loiça antiga e objetos que tinham perdido a utilidade antes de perderem o preço. Luís segurava a laranja numa mão e examinava tomadas com a outra. Teresa avisou-o de que não percebia nada de candeeiros.
«Ainda bem. Já tenho opiniões suficientes.»
Pararam diante de uma caixa de discos. Teresa encontrou um álbum que tinha comprado durante uma viagem, já adulta, quando começara a trabalhar fora de Portugal. O disco custava agora menos do que uma fatia de bolo. Ficou um pouco ofendida com aquela desvalorização de uma memória que tinha transportado em malas durante anos.
Luís perguntou-lhe se tinha onde o ouvir. Ela respondeu que sim, embora o aparelho estivesse guardado numa arrecadação. O homem não disse que precisava de o recuperar. Limitou-se a comprar uma peça de latão que julgava servir para o candeeiro e a esperar que Teresa decidisse.
Ela levou o disco. Foram tomar café na praça. A laranja ficou em cima da mesa porque Luís ainda não tinha onde a guardar. Teresa pousou o álbum na cadeira ao lado e percebeu que tinha arranjado uma companhia que não lhe pedira primeiro uma explicação para a manhã.
Falou-lhe dos anos que vivera fora e do regresso que fizera aos cinquenta. Não se arrependia de ter voltado, mas ainda lhe custava ouvir pessoas perguntar se agora descansava. Continuava a trabalhar, a resolver coisas e a ter dias em que preferia não responder ao telefone.
«O descanso deve ser uma invenção de quem não sabe o que perguntar», disse Luís.
Ele trabalhava a tempo parcial numa oficina de reparações. Gostava de ter menos horas marcadas, mas não queria chamar àquela fase da vida um fim de nada. Contou-lhe que aprendera a cozinhar peixe no forno depois dos cinquenta, por necessidade, e que ainda experimentava combinações pouco prudentes.
Teresa gostou daquela conversa sem balanços finais. Tinha a sensação de que as pessoas esperavam que, a certa idade, alguém se apresentasse através do que já fizera. Ela queria ter o direito de dizer que não sabia o que faria na semana seguinte.
Quando o empregado veio recolher as chávenas, Luís perguntou se ela tinha planos para o almoço. Teresa disse que não. A pergunta era simples. Ainda assim, demorou a responder ao convite que veio a seguir. Durante muito tempo, associara um almoço prolongado ao trabalho de parecer agradável até alguém decidir que a noite também lhe pertencia.
Luís não parecia estar a planear a noite. Perguntou se ela gostava de peixe e mostrou-lhe um restaurante na rua ao lado. Teresa aceitou. Levou o disco debaixo do braço e a laranja que ainda tinha no saco, como quem não precisava de deixar provas de independência espalhadas pela cidade.
Almoçaram devagar. Luís escolheu mal uma entrada e admitiu-o sem dificuldade. Teresa disse que podia ter sido pior e provou um pouco para confirmar. Riram-se da tentativa de serem educados com comida que não queriam repetir.
Depois, ela perguntou porque ele a convidara.
«Porque estava a gostar de estar contigo.»
«Só isso?»
«Posso inventar uma explicação mais trabalhosa, mas o almoço já vai longo.»
Teresa sorriu. Luís tinha uma forma de responder que lhe permitia relaxar sem a tratar como uma pessoa difícil. Ela contou-lhe que estava divorciada havia nove anos e que, no princípio, gostara de ter todas as decisões da casa para si. Agora começava a sentir falta de discutir algumas delas com alguém que também tivesse de ficar com o resultado.
Ele perguntou se podia oferecer-lhe outra espécie de discussão. Queria saber qual seria a primeira faixa do disco que ela punha a tocar. Teresa respondeu imediatamente. Luís discordou, embora nunca tivesse ouvido o álbum inteiro. O desacordo pareceu-lhes uma boa razão para verificarem o assunto.
Marcaram a semana seguinte em casa dela. Teresa não o convidou naquele dia. Queria ir buscar o aparelho, verificar se funcionava e ter tempo para decidir que aquela visita lhe apetecia de facto. Luís aceitou a demora com a naturalidade de quem tinha uma vida à qual regressar.
Teresa deu-lhe o número e guardou o dele pelo nome, sem acrescentar «da feira» para se proteger da possibilidade de o voltar a ver. Ainda não sabia a quem contaria aquela manhã. Queria primeiro ficar com ela para si, sem comentários nem previsões de pessoas que não tinham estado sentadas à mesa.
Durante a semana, Luís enviou-lhe uma fotografia do candeeiro reparado. A peça não era a certa, mas ele conseguira aproveitar parte dela. Teresa respondeu que o aparelho tocava, embora precisasse de um fio que não encontrava em casa. Ele indicou-lhe uma loja. Não se ofereceu para aparecer e resolver tudo.
No domingo seguinte, chegou com pão e uma laranja. Teresa riu-se quando a viu. Tinha comprado três no sábado, desta vez de propósito. Pôs todas numa taça e mostrou-lhe o disco à espera junto ao aparelho.
Ouviram a primeira faixa sentados em cadeiras diferentes. À segunda, Teresa levantou-se para mudar o volume. Luís perguntou se lhe apetecia dançar. Ela disse que não dançava havia anos. Ele respondeu que não tinha pedido uma avaliação das suas capacidades.
Deram uns passos lentos na sala, com espaço para se corrigirem e para se rirem do tapete que insistia em prender os sapatos. Teresa aproximou-se por vontade própria. Quando a música acabou, ficou ali mais um instante e beijou Luís, sem qualquer esforço para parecer surpreendida com o gesto.
Depois sentaram-se outra vez. O disco continuou a tocar. Luís estendeu-lhe a mão para pedir a capa e Teresa entregou-lha. Ele leu os nomes das faixas em voz alta, pronunciando dois deles mal. Ela corrigiu-o e voltou a discutir a ordem pela qual deviam ouvi-las.
Na cozinha havia sopa para os dois. Teresa tinha-a preparado sem calcular se o convite para ficar lhe retirava alguma liberdade. Quando lhe perguntou se queria jantar, Luís disse que sim e foi buscar as tigelas à prateleira que ela lhe indicou.
Escolheu duas diferentes, uma branca e outra azul. Teresa viu-o pousá-las na mesa e decidiu não explicar onde guardava o conjunto completo. As duas que ele encontrara serviam perfeitamente.


