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Uma história Meia Noite

O intervalo do concerto

Ouvi a voz de Marina antes de a conhecer. Estava a discutir o preço de uma garrafa de água com um funcionário da sala e fazia-o com uma calma que me pareceu mais eficaz do que qualquer protesto.

Inês Azevedo7 min de leitura Sensual
Duas pessoas adultas junto à janela de uma sala de concertos, entre cortinas vermelhas e luz de candelabros.
Ao teu ritmo

Ouvi a voz de Marina antes de a conhecer. Estava a discutir o preço de uma garrafa de água com um funcionário da sala e fazia-o com uma calma que me pareceu mais eficaz do que qualquer protesto.

Eu segurava uma pasta de partituras e tentava não parecer perdida. Tinha trinta e três anos, chamava-me Sofia e tocava piano num pequeno grupo de adultos que ensaiava duas vezes por semana. O concerto daquela noite era o primeiro desde que regressara a Coimbra. Passara tanto tempo a preparar as peças que chegara sem verificar onde ficava a entrada dos músicos.

Marina ganhou a discussão, comprou a água e ofereceu-se para me mostrar o caminho. Tinha trinta e seis anos, desenhava cenários e conhecia os bastidores melhor do que o átrio. Não ia trabalhar naquela noite. Tinha ido ouvir uma amiga que cantava no nosso grupo.

«Deixo-te junto à porta certa», disse. «Depois tens de te perder sozinha.»

Agradeci-lhe. Ela reparou nas partituras e perguntou se eu tocava uma peça de que gostava. Respondi que sim, mas que a preferia quando não tinha cinquenta pessoas à espera de ouvir o resultado.

«Então vou ouvir por conta das outras quarenta e nove.»

Não soube responder. Marina afastou-se com a garrafa na mão e eu entrei na sala de preparação com mais vontade de acertar do que tivera nos últimos ensaios.

Sou uma mulher trans. Essa informação costuma entrar demasiado cedo nas conversas quando alguém já sabe ou julga ter descoberto. Naquela noite, Marina não começou por me pedir uma história sobre mim. Perguntou por uma música. Durante o concerto, pensei nisso com uma gratidão discreta que não queria confundir com interesse, embora o interesse já estivesse a dar sinais bastante próprios.

Na primeira peça, toquei uma nota errada. A nossa cantora continuou como se nada tivesse acontecido, e eu consegui regressar ao compasso. Marina estava na quarta fila. Não procurou o meu olhar. Gostei de ela não tentar oferecer-me, à distância, uma assistência que só me faria perder outra nota.

No intervalo, fui buscar água. Ela estava junto à parede, a observar um cartaz de um espetáculo antigo. Disse que conhecia a pessoa que tinha desenhado as letras. Não me perguntou pela nota errada. Perguntou como era tocar e ouvir a sala ao mesmo tempo.

Tentei explicar. Às vezes, a tosse de alguém parecia mais alta do que o piano. Outras vezes, o público desaparecia e eu só regressava à sala no fim da peça. Marina disse que, num cenário, também havia uma diferença entre ver um desenho e assistir à primeira vez em que alguém entrava nele.

Falámos durante todo o intervalo. Quando chamaram os músicos, eu tinha ainda uma pergunta por fazer. Marina percebeu e indicou a porta com a mão.

«Vai. Continuamos depois.»

Na segunda parte, consegui ouvir as outras pessoas do grupo em vez de me vigiar continuamente. O concerto acabou com uma palma mais longa do que esperávamos. Fiquei ao piano enquanto a sala se levantava, sem saber o que fazer aos braços. Depois recolhi as partituras e fui guardar o equipamento.

Demorei vinte minutos. Pensei que Marina já se tivesse ido embora. Encontrei-a no átrio, sentada ao lado da amiga que cantava connosco. A amiga estava a mudar de sapatos. Marina explicou que oferecera boleia e que não pretendia sair enquanto houvesse alguém a andar desconfortavelmente.

Convidei as duas para tomarmos qualquer coisa. A amiga recusou porque tinha de trabalhar cedo. Marina perguntou se eu aceitava esperar enquanto a levava a casa. Aceitei. Fiquei junto à porta da sala e, quando ela regressou, já tinha deixado a pasta no meu carro.

Fomos a um café onde se ouvia a conversa sem música por cima. Marina falava dos cenários com uma precisão que me obrigava a imaginar corredores e entradas. Eu contava-lhe as salas onde gostava de tocar. Descobrimos que ambas prestávamos atenção a portas, embora por razões bastante diferentes.

Ela perguntou se eu tinha crescido naquela cidade. Disse-lhe que regressara aos trinta, depois de vários anos em Lisboa. Agora conseguia escolher melhor as pessoas com quem queria passar tempo. Não era uma história que me apetecesse contar inteira à primeira noite.

«Podemos falar do presente», disse Marina. «Já me parece bastante ocupado.»

Contei-lhe então que precisava de arranjar um piano digital para casa. Tinha um orçamento pequeno e receio de comprar um instrumento em que cada tecla soasse a uma porta de armário. Marina não percebia de pianos. Percebia de levar móveis por escadas difíceis. Ofereceu a segunda competência sem fingir a primeira.

Quando saímos, perguntou se gostava de mulheres. A pergunta foi direta e deixou-me aliviada por não precisar de interpretar mais uma sequência de sinais.

«Gosto», respondi. «E tu estás a perguntar por curiosidade ou por interesse?»

Marina sorriu de um modo diferente do que usara no intervalo.

«Por interesse.»

Disse-lhe que o interesse era recíproco. Ela aproximou-se e perguntou se podia beijar-me. Eu dei um passo na sua direção. O beijo não precisou de uma explicação anterior sobre quem eu era. Marina já sabia o suficiente para escolher estar ali, e eu podia escolher aproximar-me sem oferecer mais do que me apetecia.

Trocámos contactos junto ao carro. Marina enviou-me logo o endereço de uma loja de instrumentos onde tinha trabalhado numa montagem. Não prometeu um desconto. Conhecia a entrada das cargas e sabia que havia espaço para estacionar. Eu ri-me da utilidade daquela informação num momento em que me sentia pouco prática.

No sábado seguinte, fomos juntas ver pianos. Marina ficou a ouvir enquanto eu experimentava. Não fazia sinais exagerados nem tentava opinar sobre coisas que desconhecia. Quando me levantei do instrumento de que mais gostara, disse que eu tinha deixado de olhar para as mãos a meio da peça.

Foi uma observação melhor do que qualquer avaliação do som. Comprei o piano e marquei a entrega para a semana seguinte. Marina ofereceu-se para estar lá, desta vez sem usar as escadas como pretexto.

No dia da entrega, trouxe uma fita métrica. O piano coube no sítio que eu escolhera. A caixa vazia ocupou a sala inteira e passámos demasiado tempo a decidir como a dobrar. Acabámos por nos sentar no chão, a rir do objeto maior que tinha entrado em casa depois do instrumento.

Perguntei-lhe se queria ouvir a peça do concerto. Marina disse que sim, mas pediu que eu tocasse também qualquer coisa que não tivesse preparado para ninguém. Sentei-me e procurei uma música antiga, dessas que ainda sabia sem abrir uma pauta.

Ela encostou-se à parede. Tocava agora numa sala com uma só pessoa e continuava nervosa, embora de outra maneira. Quando me enganei, Marina não fingiu que não tinha ouvido. Sorriu. Recomecei a frase, terminei e afastei o banco para ela se sentar comigo.

Antes de tentar, Marina perguntou se eu seria uma professora exigente. Disse-lhe que dependia da desculpa que trouxesse para não praticar. Ela explicou que estava a desenhar uma escadaria para um espetáculo e tinha uma semana bastante difícil. Respondi que podia aprender durante os intervalos. Marina olhou para mim e concordou que, até ali, os intervalos nos tinham corrido bem.

Mostrei-lhe quatro notas. Marina repetiu-as, trocou a terceira e insistiu em aprender outra vez. Ficámos ali até as mãos deixarem de caber confortavelmente no pequeno espaço de teclado que eu escolhera para a lição.

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