Uma história Meia Noite
A margem do espelho
Desmontei o espelho antes de decidir o que faria com a moldura. Rúben chegou com o almoço e encontrou-me sentada no chão, rodeada de peças de cerâmica que pareciam pertencer a vinte objetos diferentes.

Desmontei o espelho antes de decidir o que faria com a moldura. Rúben chegou com o almoço e encontrou-me sentada no chão, rodeada de peças de cerâmica que pareciam pertencer a vinte objetos diferentes.
«Ainda é um espelho?»
«Neste momento é uma opinião sobre a minha capacidade de acabar trabalhos.»
Ele pousou o saco numa mesa livre e sentou-se ao meu lado, sem tocar em nada. Era uma das coisas de que eu gostava nele. Não entrava no atelier a mexer nas peças para provar interesse. Perguntava. Aos trinta e oito anos, Rúben tinha aprendido uma forma de curiosidade que deixava espaço à resposta. Eu tinha trinta e quatro e uma tendência para interpretar silêncio como falta de entusiasmo, mesmo quando me convinha trabalhar sem interrupções.
Conhecemo-nos numa feira de artesanato onde ele foi comprar uma taça para a irmã. Escolheu a única que eu pensara não levar, porque o vidrado tinha corrido de forma irregular. Disse que gostava da cor. Perguntei se era mesmo aquela. Ele perguntou se eu costumava desencorajar os clientes. Rimo-nos, vendeu-se a taça e fiquei com o nome dele escrito num talão de encomenda.
Rúben regressou duas semanas depois para levantar outra peça. Convidou-me para um café e eu aceitei. A conversa correu bem o suficiente para me deixar desconfiada das minhas próprias expectativas. Trabalhava na manutenção de jardins públicos, gostava de cozinhar e tinha uma quantidade surpreendente de opiniões sobre bancos de rua. Eu falei de barro, de rendas e da dificuldade de explicar a diferença entre uma chávena feita à mão e uma lembrança comprada em série.
Sou uma mulher trans. Disse-lho nessa primeira tarde, numa conversa em que falávamos das vidas que tínhamos construído até ali. Rúben ouviu sem transformar a informação numa entrevista ou num elogio à sua própria abertura. Perguntou se eu queria mais café e, mais tarde, se podia voltar a ver-me. Gostei da naturalidade, embora soubesse que a confiança precisava de mais do que uma boa reação.
Fomos conhecendo as rotinas um do outro. Eu descobri que ele fazia listas de compras em papel e as perdia antes de chegar à loja. Ele descobriu que eu colecionava amostras de cores com nomes impossíveis. Havia uma chamada «neblina de verão» que parecia simplesmente cinzenta. Rúben insistia em lhe chamar cimento molhado, para minha indignação profissional.
O espelho fazia parte de uma exposição coletiva. A proposta inicial era uma moldura de pequenas peças azuis, todas diferentes, mas dispostas de forma regular. Eu trabalhara durante semanas até perceber que detestava o resultado. Era demasiado obediente. Parecia um objeto feito para corresponder à descrição escrita antes de eu começar, e a ideia de o apresentar assim deixava-me irritada.
Faltavam quatro dias para a montagem. Rúben perguntara se eu queria ajuda, e eu respondera que não, com uma brusquidão que não merecia. Na manhã em que trouxe almoço, já tinha desmontado metade da moldura e estava prestes a culpar a luz, a cola e uma peça que desaparecera debaixo do armário. Ele abriu as caixas de comida e disse que esperaria até eu conseguir escolher onde pousar um prato.
Comemos no chão. Contei-lhe que receava falhar a entrega e parecer pouco profissional. Rúben perguntou o que eu chamaria à decisão de apresentar uma coisa de que não gostava apenas para não admitir uma mudança. Irritei-me, porque a pergunta era boa e chegara antes de eu estar preparada para ela.
«Não preciso que me ensines o meu trabalho.»
Ele pousou os talheres. Disse que não pretendia fazê-lo, mas que eu lhe pedira uma opinião. Tinha razão. O silêncio seguinte foi desconfortável, sem a utilidade imediata que as discussões têm nos filmes. Pedi desculpa. Expliquei que andava a ouvir julgamento até nas perguntas mais simples. Não era uma responsabilidade que ele pudesse resolver ficando sempre calado.
Rúben contou-me que também tinha receio de ocupar espaço a mais. Gostava de mim, mas não queria tornar-se a pessoa que aparecia para salvar cada dia difícil. Preferia saber quando eu precisava de companhia, quando queria ajuda e quando queria estar sozinha. Concordámos em tentar perguntar de forma mais concreta, sem esperar que a proximidade nos desse poderes de adivinhação.
Ele saiu depois do almoço. Fiquei a trabalhar e encontrei a solução quando deixei de tentar reconstruir a ordem anterior. A moldura não precisava de fechar o espelho por completo. Distribuí as peças em duas margens, deixando uma zona aberta onde o reflexo encontrava diretamente a parede. O objeto começou a respirar. Telefonei à curadora e expliquei a mudança. Ela pediu uma fotografia, olhou e confirmou que havia espaço.
Na noite seguinte convidei Rúben para ver a peça. Não trouxe ferramentas nem comida. Trouxe apenas uma garrafa que abriu depois de eu pousar o espelho em segurança. Ficámos diante dele, refletidos num ângulo pouco favorecedor, e rimos da seriedade com que tínhamos imaginado aquela apresentação.
«Agora gosto», disse eu.
Rúben perguntou de quê, exatamente. Mostrei-lhe a margem aberta, a diferença de brilho entre duas peças e a pequena sombra que surgia quando a luz vinha de lado. Ele aproximou-se para ver melhor. O ombro dele tocou no meu. Já nos tínhamos beijado antes, mas naquele instante senti uma vontade nova de o deixar ficar dentro de um dia que começara mal e terminava sem disfarces.
Virei-me para ele e pedi um abraço. Rúben envolveu-me com cuidado, esperando que eu decidisse quando me afastar. Fui eu quem procurou o beijo. Ficámos um momento junto à mesa, sem falar do trabalho ou da exposição. Depois convidei-o para ir comigo para casa. Ele aceitou, e a noite seguiu com a proximidade que ambos queríamos, longe de qualquer obrigação de corresponder a uma imagem perfeita.
Na inauguração, usei um vestido que comprara por gostar do corte e sapatos que me arrependi de escolher ao fim de meia hora. Rúben chegou com a irmã, a dona da primeira taça. Apresentei-os aos colegas e vi-o afastar-se para me deixar conversar com visitantes. Mais tarde encontrou-me junto ao espelho, finalmente descalça atrás de um pequeno banco.
Tinha vendido duas peças pequenas e recebido uma encomenda que me obrigaria a aprender uma técnica nova. Anotei os contactos com a concentração que usava para não mostrar entusiasmo a mais. Rúben reparou e perguntou, em voz baixa, se podia dar-me os parabéns sem estragar a minha expressão profissional. Deixei-o. O beijo na face e a mão breve sobre a minha trouxeram-me de volta à alegria concreta daquela noite, para lá das contas que já começava a fazer.
Uma pessoa perguntara se a margem aberta simbolizava alguma coisa específica. Eu respondera que podia simbolizar o que cada um encontrasse, mas nascera sobretudo de uma decisão de composição. Estava cansada de ter de transformar todos os objetos numa explicação completa de mim. Rúben ouviu e disse que gostava de eu poder deixar algumas coisas ser apenas trabalho bem feito.
Saímos depois da desmontagem das mesas de apoio. Ele levava os meus sapatos num saco, eu levava uma fatia de bolo embrulhada num guardanapo. Não comprara o espelho; eu também não precisava que o fizesse para demonstrar que acreditava em mim. Tinha estado presente, tinha feito perguntas e continuava ao meu lado quando a sala ficou vazia. Naquela noite, era essa a forma de atenção que eu queria levar para casa.


