Meia Noite Meia Noite
+18

Uma história Meia Noite

Duas passagens

Lídia guardava dois bilhetes para a última sessão de um cinema que ia fechar. Não sabia ainda a quem dar o segundo e recusava-se a chamar a isso um problema, embora o trouxesse dobrado no bolso há três dias.

Leonor Vale7 min de leitura Sensual
Dois lugares num cinema, com bilhetes e uma luz quente entre tons vermelhos e azuis.
Ao teu ritmo

Lídia guardava dois bilhetes para a última sessão de um cinema que ia fechar. Não sabia ainda a quem dar o segundo e recusava-se a chamar a isso um problema, embora o trouxesse dobrado no bolso há três dias.

Tinha trinta e quatro anos e trabalhava numa associação cultural. A cidade conhecia-a como a mulher que conseguia arranjar cadeiras, projetores e voluntários para acontecimentos que pareciam impossíveis uma semana antes. Quase ninguém lhe perguntava se, depois de tudo montado, lhe apetecia ficar.

No cinema, tratava da recolha de testemunhos. Os antigos frequentadores podiam gravar uma memória numa sala lateral. Havia histórias de filmes esquecidos, encontros interrompidos e namoros que tinham começado sem qualquer assistência do argumento projetado no ecrã.

Eva apareceu para fotografar a sala vazia. Tinha vinte e nove anos, uma máquina pequena e uma folha com as autorizações de imagem. Não fotografava ninguém que não quisesse aparecer. Antes de começar, perguntou a Lídia se podia deslocar uma caixa para ver a parede atrás dela.

«Podes fazer quase tudo, desde que depois se encontre a caixa.»

Eva escreveu «parede» na tampa e pousou-a junto à porta. Lídia gostou de uma pessoa que resolvia um problema sem lhe oferecer outro para a seguir.

Passaram a manhã a trabalhar perto uma da outra. Eva fotografava os lugares gastos nos braços das cadeiras. Lídia recebia pessoas e ajudava-as a começar relatos que tinham contado tantas vezes que já não sabiam onde entrava a primeira frase.

Ao almoço, sentaram-se nos degraus da cabine de projeção. Eva trazia uma marmita. Lídia tinha comprado uma sandes que se desfazia antes da segunda dentada. A outra mulher ofereceu-lhe um guardanapo e uma tampa para usar como prato.

«És sempre tão preparada?»

«Só para coisas que se derramam.»

Eva não perguntou se Lídia era casada. Perguntou porque se tinha oferecido para trabalhar num cinema que lhe custava ver fechar. Lídia explicou que tinha passado ali muitos anos, primeiro como espectadora e depois a ajudar em sessões especiais. Fechar a sala parecia-lhe uma coisa que devia impedir, embora não tivesse dinheiro nem autoridade para isso.

«Talvez estejas a tentar acompanhar uma coisa que não consegues salvar», disse Eva.

Lídia ficou sem resposta. Não gostava de pessoas que interpretavam a sua vida demasiado depressa, mas Eva falara do trabalho, não da mulher que estava a conhecê-la. A diferença deu-lhe vontade de continuar a conversa.

Ela contou que tinha fotografado o apartamento onde vivera durante oito anos, antes de o deixar depois de uma separação. Não usara as imagens para se convencer a ficar. Queria lembrar-se de que havia sido uma casa boa durante parte daquele tempo.

À tarde, Lídia reparou que olhava para a entrada cada vez que Eva saía para mudar uma bateria. Achou a própria expectativa um pouco inconveniente. Tinha uma lista enorme de tarefas. Não cabia nela outra coisa que precisasse de atenção e pudesse não resultar.

Eva encontrou-a a testar o microfone para as apresentações da última noite. Lídia leu uma frase demasiado formal e fez uma careta.

«Parece que vai falar um ministério inteiro.»

«Diz o que queres dizer.»

«Quero que as pessoas saibam que eu também vou ter saudades disto.»

Eva acenou. Lídia tentou outra vez. A voz saiu-lhe mais baixa, mas conseguiu terminar sem usar palavras que nunca diria numa conversa.

Antes de Eva se ir embora, Lídia tirou os dois bilhetes do bolso. Segurou-os pela ponta como se ainda pudessem servir para um assunto de trabalho.

«Já tens lugar para a sessão?»

«Não. As fotografias dão-me entrada, mas não me dão cadeira.»

Lídia ofereceu-lhe o segundo bilhete. Explicou que queria vê-la ali fora do trabalho. Eva leu a fila e o número. Depois perguntou se devia trazer a máquina. Lídia respondeu que preferia que trouxesse apenas tempo para ficar.

A sessão aconteceu dois dias depois. Lídia chegou com uma hora de antecedência e descobriu que os voluntários tinham tratado das coisas sem ela. O microfone funcionava. As cadeiras estavam limpas. As pessoas sabiam onde colocar os casacos. Pela primeira vez desde o anúncio do fecho, não havia uma tarefa urgente à qual pudesse agarrar-se.

Eva encontrou-a no átrio. Trazia uma camisola vermelha e uma bolsa sem espaço para equipamento. Mostrou-lhe o bilhete antes de a cumprimentar, numa graça discreta que permitia às duas reconhecer o convite sem ficar a observá-lo.

Lídia apresentou a sessão. Agradeceu às pessoas pelo nome e disse que também ia sentir falta da sala. Não explicou o que cada imagem deveria significar. Voltou ao seu lugar enquanto as luzes se apagavam.

Durante o filme, Eva pousou a mão no apoio entre as cadeiras. Lídia reparou nela e teve de escolher se deixava a sua mão ficar escondida debaixo do casaco. Acabou por a aproximar. Eva virou a palma e esperou. Os dedos tocaram-se sem nenhum movimento que pudesse ser confundido com acaso.

Lídia perdeu uma frase do filme. Não lamentou a perda. Ficou com a mão na de Eva até ao intervalo, quando ambas se levantaram para esticar as pernas. Ninguém lhes pediu uma explicação. A sala continuava cheia de pessoas ocupadas com os seus próprios encontros e despedidas.

Depois da sessão, houve discursos que duraram mais do que o previsto. Lídia ajudou a fechar uma porta e voltou ao átrio, onde Eva conversava com uma mulher que lhe mostrava uma fotografia antiga. A fotografia não era de ninguém que conhecessem. Era de uma fachada que já não existia.

Saíram perto da meia-noite. Eva perguntou se Lídia precisava de regressar à associação. Ela respondeu que não. Tinha deixado instruções e, por uma vez, ia confiar nas pessoas a quem as dera.

Caminharam até uma esplanada ainda aberta. Pediram chá e dividiram uma fatia de bolo que o empregado disse ser a última. Eva contou-lhe as coisas de que gostaria de tirar fotografias quando não tivesse de apresentar um projeto. Lídia falou dos sítios onde queria ir sem organizar a visita de mais ninguém.

«Podíamos ir a um desses sítios», sugeriu Eva.

«Sem eu fazer um programa?»

«Podias fazer uma lista. Mas eu reservava o direito de a ignorar.»

Lídia riu-se. Quando saíram da esplanada, aproximou-se e perguntou se podia beijá-la. Eva respondeu que era uma boa maneira de acabar a discussão sobre programas. Beijaram-se junto a uma rua pouco iluminada, depois afastaram-se apenas o suficiente para continuarem a sorrir.

Na semana seguinte, encontraram-se numa estação para passar o dia fora. Lídia tinha comprado duas passagens e guardado a confirmação no telefone. Não preparara um itinerário. Eva trazia a máquina de fotografar e perguntou-lhe se podia tirar uma fotografia às duas antes de saírem.

Lídia aceitou. A imagem ficou um pouco torta porque Eva não acertou à primeira no enquadramento. Tentou repetir, mas Lídia pediu-lhe que guardasse aquela.

Não estavam a posar como pessoas que sabiam o que lhes ia acontecer. Lídia tinha o cabelo sobre um olho. Eva ria-se de qualquer coisa que a fotografia não conseguira apanhar. Atrás delas, a hora da partida aparecia desfocada. Quando chamaram o comboio, foram procurar os lugares sem discutir quem deveria ficar junto à janela.

Eva abriu a mochila para mostrar o almoço que trouxera. Lídia reconheceu a tampa que tinham usado como prato e aproximou a sua mala, onde havia pão para as duas. Não precisavam de comprar mais nada antes de partir.

WhatsAppX

Depois da última linha

Opiniões dos leitores

Sem avaliações

Clica nas chamas para avaliar. Não precisas de conta.

Ainda não há opiniões publicadas. Conta-nos o que ficou desta leitura.

Entra ou cria uma conta para comentar