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Uma história Meia Noite

A feira dos enganos

Comprei um limoeiro que afinal era uma roseira. O vendedor desapareceu antes de eu conseguir perguntar como tinha conseguido confundir duas plantas que, segundo a mulher ao meu lado, nem sequer se insultavam da mesma maneira.

Clara Vilar7 min de leitura Sensual
Banca de uma feira com objetos antigos e apontamentos vermelhos pintados à mão.
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Comprei um limoeiro que afinal era uma roseira. O vendedor desapareceu antes de eu conseguir perguntar como tinha conseguido confundir duas plantas que, segundo a mulher ao meu lado, nem sequer se insultavam da mesma maneira.

«O limoeiro tem espinhos», expliquei.

«A roseira também. Se esse fosse o critério, podias ter comprado uma agulha.»

Ela chamava-se Paula, tinha trinta e sete anos e tratava de jardins em casas de outras pessoas. Eu tinha trinta e nove, chamava-me Vasco e comprara um apartamento com uma varanda que me parecia exigir uma competência a que ainda não tinha acesso. Fui à feira procurar um limoeiro porque julgava que bastava pô-lo num vaso e esperar por limonada.

Paula olhou para o vaso. A planta estava mal identificada por uma etiqueta presa com um arame. Podia ter sido um erro. Eu preferia essa hipótese, porque a alternativa me obrigava a reconhecer que negociara o preço de uma roseira durante vinte minutos sem saber o que comprava.

«Quanto deste?» perguntou.

Disse-lhe. Paula fez uma expressão que nenhum cliente de jardinagem gostaria de ver dirigida ao próprio orçamento. Explicou que a roseira não era má, mas tinha pago também pela etiqueta e por uma promessa de limões que não se realizaria.

Eu podia ter ido embora. Em vez disso, perguntei-lhe como se mantinha uma roseira viva. Ela deu-me instruções claras. Sol, um vaso maior, cuidado com a água. Anotei no telefone e escrevi «sem limões» na última linha. Paula riu-se e ofereceu-se para me mostrar os vasos na banca seguinte.

Escolheu um de barro. Eu escolhi um com um desenho geométrico que parecia feito para pessoas que acreditavam que uma varanda se organizava através das cores. Paula explicou-me porque o primeiro servia melhor. Comprei o de barro, tentando parecer um homem que aceitava conselhos de forma habitual.

À saída da feira, ajudei-a a transportar dois sacos de terra até ao carro. Ela não precisava da ajuda, mas aceitou porque eu precisava de provar que as minhas mãos também sabiam fazer alguma coisa que não fosse escrever numa mesa.

Trabalhava como contabilista. Paula perguntou se eu conseguia distinguir um orçamento de uma planta com etiqueta falsa. Respondi que era uma questão injusta, já que num orçamento existiam linhas que se podiam somar. Ela disse que numa planta também existiam linhas, mas não sabia se uma conta me ajudaria.

Trocámos contactos para ela me enviar uma lista curta de cuidados. Pedi-lhe que incluísse fotografias, porque eu já tinha demonstrado dificuldades em reconhecer espécies. Paula guardou o meu número com a palavra «roseira». Eu fingi que isso não me incomodava.

Na semana seguinte, enviou a lista e pediu uma fotografia da varanda. Respondi com três, todas demasiado cuidadas. Paula perguntou onde tinha posto os sacos de compras que apareciam refletidos no vidro. Percebi que a tentativa de parecer organizado fora prejudicada por uma porta.

Disse-lhe a verdade. A varanda tinha servido de arrecadação até à compra da planta. O limoeiro imaginado era o início de um plano maior, que incluía uma mesa, duas cadeiras e talvez não trabalhar ao sábado.

«Não precisas de uma árvore para isso», escreveu.

«Já perdi a árvore. Gostava de não perder o plano.»

Paula aceitou ir ver a roseira no domingo. Eu preparei café e bolos, limpei o vidro e deixei os sacos onde costumavam estar. Não me apetecia repetir o erro das fotografias. Quando chegou, percebeu imediatamente que o vaso era grande demais para eu o mover com facilidade e que, por isso, escolhera o sítio mais errado para o pousar.

Mudámos a planta juntos. Enquanto ela mexia na terra, eu tentava não usar perguntas práticas para evitar dizer porque lhe tinha pedido que viesse. Paula percebeu antes de eu conseguir formular uma frase decente.

«Trouxeste bolos para uma consulta de jardinagem?»

«Também preparei café para um encontro.»

Ela endireitou-se, limpou as mãos e olhou para mim. Disse que preferia saber isso antes de me dar um orçamento. Respondi que ela podia recusar o encontro e cobrar a visita. Paula sorriu e pediu para lavar as mãos antes de o café arrefecer.

Sentámo-nos na varanda, em cadeiras emprestadas por um vizinho. Não combinavam. O bolo estava demasiado doce. Paula não usou o açúcar e eu acrescentei mais uma falha à lista das coisas que tinha tentado organizar sem pedir ajuda.

Ela contou-me que gostava do trabalho, mas estava cansada de ouvir pessoas chamar «um cantinho» a um terreno que exigia três dias de esforço. Eu contei-lhe que gostava de números porque não precisavam de demonstrar boa disposição enquanto eram corrigidos.

Paula estava separada havia dois anos. Eu tinha terminado uma relação no início do verão. Não fizemos uma competição de deceções. Falámos antes das coisas que nos tinham apetecido depois: ela aprendera a nadar melhor, eu comprara a casa e continuava sem saber escolher móveis.

No fim da tarde, a roseira estava no lugar certo e o encontro deixara de precisar de uma planta para acontecer. Perguntei-lhe se queria sair para jantar noutra semana. Paula disse que sim, desde que eu não aparecesse com uma árvore diferente debaixo do braço.

Encontrámo-nos na quarta-feira. Eu tinha reservado uma mesa num restaurante que não escolhera por fotografias. Pedi conselho a um colega e confirmei que havia comida para além de pratos decorados com flores. Paula ouviu a explicação e perguntou se continuava traumatizado pela feira.

«Um pouco. Ainda desconfio de coisas verdes com nomes bonitos.»

Depois do jantar, passeámos perto do mercado. Havia bancas vazias e um cheiro persistente a fruta. Paula perguntou se a roseira estava bem. Respondi que sim e que tinha aprendido a verificar a terra antes de regar. Ela pareceu satisfeita, mas avisou que não ia avaliar-me em todas as visitas.

Beijei-a quando parámos junto ao carro, depois de perguntar se lhe apetecia. Paula respondeu que sim, e eu descobri que havia coisas para as quais o excesso de preparação não ajudava. Ao afastar-se, deu-me uma pequena palmada no braço e perguntou porque eu estava com uma expressão tão séria.

«Estou a tentar não fazer uma piada sobre flores.»

«Faz amanhã. Hoje correu-te bem.»

A roseira deu a primeira flor algumas semanas depois. Enviei-lhe uma fotografia sem cuidar do enquadramento. No fundo aparecia a mesa que entretanto comprara. Havia duas cadeiras e um saco de terra que ainda não tinha arrumado.

Na véspera, tinha deixado o trabalho a meio da tarde para ir comprar a mesa. A funcionária da loja perguntara se queria uma peça extensível, para visitas. Expliquei que precisava de uma que coubesse na varanda e fosse usada muitas vezes. Pela primeira vez, escolher um móvel não me pareceu uma tentativa de preparar uma vida que só começaria quando eu soubesse fazer tudo. Carreguei-o para casa e montei-o mal antes de acertar nas pernas.

Paula respondeu com uma pergunta sobre domingo. Disse que levava pão. Eu disse que tinha café e que a varanda já cabia no orçamento.

Quando chegou, trouxe também dois limões. Pousou-os na mesa, junto à planta, e ficou à espera da minha reação. Não me deu nenhuma explicação sobre a espécie. Fiz limonada, provei-a e perguntei-lhe se a varanda lhe parecia um cantinho. Paula tirou o casaco, sentou-se e disse que agora parecia um sítio onde lhe apetecia ficar.

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