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Uma história Meia Noite

A falha no plano

O bolo dizia «Parabéns, Armando», o aniversariante chamava-se Lúcia e fazia trinta e três anos. Tiago contemplou a inscrição e perguntou se ela preferia mudar de nome ou reclamar à pastelaria.

Clara Vilar7 min de leitura Quente
Uma sala preparada para uma festa, com pormenores vermelhos e iluminação quente.
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O bolo dizia «Parabéns, Armando», o aniversariante chamava-se Lúcia e fazia trinta e três anos. Tiago contemplou a inscrição e perguntou se ela preferia mudar de nome ou reclamar à pastelaria.

Lúcia tinha organizado a própria festa porque desconfiava, com provas, da capacidade dos amigos para escolher uma data. Reservara uma sala, preparara uma lista de músicas e confirmara três vezes o serviço de comida. A pastelaria era a única parte do plano que não recebera uma folha de cálculo. O universo aproveitara essa fraqueza.

Tiago, trinta e seis anos, conhecia-a através de amigos comuns. Oferecera-se para ajudar a montar as mesas, convencido de que a tarefa ocuparia meia hora. Chegara às quatro e, às seis, estava ainda a tentar convencer um arco de balões a obedecer à gravidade. O bolo errado não foi o primeiro problema. Foi apenas o primeiro a ter nome próprio.

«Podemos cobrir com fruta», sugeriu Lúcia.

«Tens fruta?»

«Tenho limões.»

Tiago olhou para o bolo, depois para ela, e decidiu não desenvolver a proposta. Encontraram uma caixa de chocolate em pó e transformaram a dedicatória numa superfície castanha irregular. A operação deixou vestígios em duas camisas e numa cadeira. Lúcia escreveu «Feliz aniversário» num cartão, acrescentando por baixo «identidade confirmada».

Riram-se tanto que ela se esqueceu durante alguns minutos de verificar o telefone. Era uma melhoria. Desde o fim da sua última relação, Lúcia organizava tudo com uma precisão que lhe ocupava o espaço onde antes sentia falta de alguém. Não pensava nisso dessa maneira, evidentemente. Dizia apenas que gostava de ter as coisas sob controlo.

Tiago trabalhava a reparar equipamentos de cozinha e tinha uma relação muito prática com os imprevistos. Não os considerava mensagens do destino. Eram coisas que pediam uma ferramenta, uma chamada ou, em último caso, uma boa desculpa. Lúcia gostava dessa tranquilidade, embora achasse irritante que ele a conservasse diante de um arco de balões a cair pela terceira vez.

Às sete chegou a comida. Estava certa, mas vinha acompanhada de vinte conjuntos de talheres para uma festa de trinta pessoas. Tiago propôs que dez convidados comessem por ordem de mérito. Lúcia pegou no casaco e anunciou que iria ao supermercado. Ele acompanhou-a, deixando um amigo adulto, devidamente instruído, responsável por impedir a fuga dos balões.

No supermercado, descobriram que tinham visões incompatíveis sobre guardanapos. Lúcia queria os vermelhos, Tiago defendia os que existiam em número suficiente. A discussão terminou quando ela percebeu que ele estava a falar a sério e começou a rir. Compraram talheres, guardanapos brancos e uma caixa de bolachas que não constava de nenhuma lista.

Na fila, Tiago perguntou se ela se estava a divertir. Lúcia respondeu automaticamente que sim. Depois olhou para o carrinho e corrigiu-se. Estava preocupada com tanta coisa que ainda não começara a fazer anos. Ele não lhe deu um conselho. Tirou do bolso uma moeda, colocou-a sobre a caixa de bolachas e disse que aquela compra era um presente de emergência.

Regressaram à sala quando os primeiros convidados chegavam. A festa começou com abraços, casacos trocados e uma discussão sobre onde ligar a coluna. Lúcia tentou continuar a dirigir tudo até uma amiga lhe tirar a lista das mãos. Tiago ofereceu-lhe um prato já servido e apontou uma cadeira. Ela sentou-se por cinco minutos e acabou por ficar vinte.

Foi aí que reparou na forma como ele se movia entre pessoas que conhecia pouco. Não procurava ser o mais engraçado, embora o conseguisse com frequência. Escutava, ajudava quando era preciso e não transformava cada gesto numa demonstração de que estava a ajudar. Quando alguém elogiou a comida, disse que Lúcia escolhera tudo. Quando alguém viu o bolo, assumiu metade da responsabilidade pelo acabamento.

Perto das dez, faltou a luz numa parte da sala. O quadro elétrico estava numa arrecadação cheia de objetos empilhados. Tiago ofereceu-se para ir ver, mas Lúcia insistiu em acompanhá-lo porque sabia onde ficava a chave. Durante cinco minutos procuraram-na em bolsos, caixas e debaixo do bolo. Estava presa ao pulso dela por um elástico.

«Não digas nada», pediu.

«Estou a desenvolver uma capacidade extraordinária de contenção.»

Na arrecadação, a lanterna do telefone iluminou uma coleção de cadeiras partidas. Tiago identificou o disjuntor e pediu que desligassem uma extensão sobrecarregada antes de o repor. Resolveram o problema sem heroísmo. Quando a luz voltou, ouviram aplausos da sala. Lúcia permaneceu junto à porta, de repente sem vontade de regressar imediatamente.

«Obrigada por ficares», disse.

«Ainda não comi o bolo do Armando.»

Ela riu-se, mas não desviou os olhos. Tiago percebeu que o agradecimento tinha uma parte que não se referia à eletricidade. Disse que estava a gostar da festa e, sobretudo, da companhia. Lúcia sentiu a resposta atravessar-lhe todas as explicações prudentes que costumava preparar. Era um homem de quem gostava, numa noite que lhe pertencia. Podia deixar isso ser simples.

Voltaram para cantar os parabéns. Alguém descobriu a história do bolo e o nome Armando foi repetido com um entusiasmo injusto. Lúcia apagou as velas a rir. Quando distribuiu as fatias, guardou a primeira para Tiago. Ele declarou que a camada extra de chocolate melhorava qualquer erro administrativo.

Depois começou a música. Dançaram numa área demasiado pequena, entre uma mesa e o arco que finalmente desistira de cair. Lúcia deixava-se conduzir apenas quando lhe apetecia; Tiago aceitava as mudanças de direção sem reclamar. A certa altura, ela aproximou-se e perguntou se ele queria sair um instante para apanhar ar.

No exterior, o frio chegou antes da conversa. Tiago ofereceu-lhe o casaco, ela aceitou e pediu que não fizesse disso uma pose de cinema. Ele respondeu que, num filme, teria trazido um casaco melhor. Ficaram lado a lado, a ouvir a música atravessar a parede. Lúcia disse que gostaria de o beijar. Tiago respondeu que passara a última hora a tentar encontrar uma maneira decente de perguntar o mesmo.

O beijo interrompeu a necessidade de serem engraçados. Durante alguns segundos, Lúcia não pensou na sala, nos convidados ou na hora de entregar a chave. Quando se afastou, estava a sorrir de uma forma que não tinha planeado. Tiago pediu-lhe um jantar, numa noite em que nenhum precisasse de montar mesas. Ela aceitou antes de consultar a agenda.

No fim ficaram a arrumar com dois amigos. A festa deixara copos, restos de fita e um balão teimoso junto ao teto. Tiago foi o último a sair. Lúcia devolveu-lhe o casaco, conservando por um instante a mão sobre a manga. Combinaram terça-feira. Ele perguntou se devia fazer uma reserva em nome de Armando. Ela ameaçou cancelar.

Antes de entregarem a sala, fizeram uma última volta para procurar objetos esquecidos. Encontraram um cachecol, duas tampas sem recipiente e a caixa das bolachas de emergência, ainda fechada. Lúcia guardou-a no saco. Tiago disse que tinham sobrevivido sem recorrer ao presente. Ela respondeu que o levaria para terça-feira, caso o jantar precisasse de um plano alternativo. Gostou de o ouvir dizer que esperava que precisasse.

Em casa, Lúcia abriu a folha de cálculo para registar as despesas. Acrescentou os talheres, riscou uma entrega que não chegara a acontecer e fechou o computador sem calcular o total. No telefone havia uma mensagem de Tiago com a hora do jantar. Respondeu que estava confirmada. Pela primeira vez naquela semana, a melhor parte do plano cabia numa linha.

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