Uma história Meia Noite
A chave do terceiro
O saco das laranjas rompeu-se no segundo andar. Uma ficou no patamar; as outras desceram os degraus, como se soubessem onde iam.

O saco das laranjas rompeu-se no segundo andar. Uma ficou no patamar; as outras desceram os degraus, como se soubessem onde iam.
Teresa deixou a chave presa na fechadura e foi atrás delas. Tinha passado o sábado a transportar caixas para um terceiro andar sem elevador e já não lhe sobrava paciência para fruta. Quando chegou ao rés do chão, encontrou um homem de joelhos junto à porta da rua. Ele segurava quatro laranjas contra a camisola.
«Falta uma», disse ela.
«Ficou debaixo da bicicleta. Estou a negociar.»
Ele pousou a fruta, deitou-se quase no chão e esticou o braço. Teresa viu a meia furada junto ao calcanhar. Gostou daquele pormenor, embora não soubesse explicar porquê.
«Primeiro dia?»
Ela apontou para as caixas empilhadas ao fundo da escada.
«Tão evidente assim?»
«Só no primeiro dia é que alguém sobe estas escadas com esperança.»
Chamava-se Luís, tinha quarenta anos e vivia no segundo havia oito. Teresa tinha trinta e seis e uma escritura recente, uma separação antiga e cinco caixas que continuavam a dizer LIVROS, apesar de uma guardar pratos. Aceitou a ajuda dele com as duas mais pesadas. No terceiro andar, Luís pousou-as junto à janela e esperou que ela lhe indicasse onde deixar as laranjas.
«Pode ser no chão. Por enquanto, tudo tem lugar no chão.»
A sala recebia o sol pelo lado errado. Fora isso que o agente imobiliário lhe dissera. Teresa comprara a casa por causa daquela luz que ele considerava um defeito. Ao fim da tarde, atravessava o corredor inteiro e chegava à parede da cozinha, onde ela ainda não sabia se queria prateleiras.
Luís reparou numa moldura encostada à caixa dos pratos. Não fez perguntas. Teresa também reparou que ele evitara fazê-las.
«Obrigada pelas laranjas.»
«Se ouvires água onde não devia haver água, o meu número está no quadro da entrada.»
«Isso acontece muito?»
«Não quero estragar o primeiro dia.»
Dois dias depois, aconteceu. Não água. A chave.
Teresa chegou da mercearia, pousou o saco e procurou-a na mala durante tempo suficiente para ter passado a acreditar que pudesse surgir noutro bolso. A chave ficara dentro de casa, sobre a bancada, ao lado da outra chave que tencionava entregar a alguém em quem confiasse. Ainda não havia esse alguém.
Luís abriu a porta antes de ela bater pela segunda vez.
«A água?»
«A estupidez.»
Ele afastou-se para a deixar entrar. A cozinha dele tinha uma mesa demasiado grande para uma pessoa, três cadeiras diferentes e um vaso de manjericão quase morto.
«Acontece mais vezes.»
Deram com um serralheiro que prometeu chegar em quarenta minutos. Chegou em noventa. Durante esse tempo, Teresa descobriu que Luís restaurava móveis, que deixara de fumar sem deixar de guardar fósforos e que detestava o modo como as pessoas diziam que uma casa tinha potencial. Ele descobriu que ela traduzia manuais, precisava de trabalhar em silêncio e tinha comprado uma estante antes de uma cama.
Quando o serralheiro tocou, Teresa já tinha contado uma história sobre a viagem a Coimbra em que perdera um comboio por estar a acabar um livro. Luís não lhe perguntara se era casada. Ela agradeceu-lhe isso sem o dizer.
O jantar começou na quinta-feira da semana seguinte. Não o jantar propriamente dito, mas a ideia. Teresa encontrou um bilhete debaixo da porta: «Fiz sopa a mais. Se estiveres em casa, toca.» Por baixo, uma correção: «É mesmo sopa.»
Ela levou as laranjas que restavam e uma garrafa de água com gás. Luís tinha posto duas taças na mesa. Uma era azul, a outra branca. A sopa sabia a cenoura e a alguma coisa que ele não conseguiu identificar porque usara o que havia no frigorífico.
«Não costumas convidar vizinhas para sopa?»
«Não costumo escrever a palavra sopa duas vezes no mesmo bilhete.»
Teresa riu-se. O som surpreendeu-a. Nas últimas semanas, as pessoas tinham falado com ela num tom cuidadoso que acabava por a obrigar a ser triste. Ali podia reclamar das escadas e rir de uma taça com uma lasca. Ninguém lhe oferecia conselhos sobre recomeços.
Passaram a jantar uma vez por semana. Às vezes, duas. Teresa pagava a segunda encomenda de comida quando Luís pagava a primeira. Ele levava livros que dizia ter encontrado numa caixa e que ela suspeitava que procurara de propósito. Ela começou a deixar-lhe, à porta, as revistas de decoração que comprava sem admitir que as comprava.
Num domingo, montaram a estante. A última prateleira recusou o sítio que lhe estava destinado. Teresa sentou-se no chão, rodeada de parafusos.
«Se a deixarmos assim, fica uma instalação.»
Luís sentou-se ao lado dela.
«Podemos cobrar entrada.»
A janela estava aberta. Ouviam-se pratos num apartamento vizinho e, mais longe, uma mota que não chegava a partir. Teresa tinha a sensação nítida de estar dentro de uma tarde de que se lembraria depois. Isso tornou-a cautelosa.
«Eu não quero despachar nada», disse.
Luís olhou para a prateleira antes de olhar para ela.
«Eu também não.»
«Não estava a falar da estante.»
«Eu sei.»
Ele não lhe tocou. Teresa apreciou a resposta e a distância. Ficaram a conversar no chão até a sombra chegar às caixas. Depois ela perguntou se ele queria jantar ali, e Luís aceitou com a naturalidade de quem compreendia que um convite não precisava de prometer mais do que dizia.
Na terça-feira, o cano debaixo do lava-loiça cedeu. Houve água, como Luís previra. Teresa telefonou-lhe às dez da noite e ele apareceu com uma chave inglesa e um pano que, segundo explicou, já tivera uma vida mais interessante.
Trabalhou de joelhos durante vinte minutos. Teresa segurou a lanterna, apontando-a por vezes para o sítio errado. Quando a fuga parou, sentaram-se à mesa com chá. Ela reparou que a meia continuava furada.
«Podia comprar-te umas meias.»
«Podias. Mas depois ficava com uma dívida difícil de calcular.»
Ela estendeu a mão sobre a mesa, com a palma virada para cima. Luís pousou a dele. Nenhum dos dois tentou fazer daquele gesto uma frase maior.
Mais tarde, à porta, Teresa aproximou-se e perguntou se o podia beijar. Ele disse que sim. O beijo foi breve, um pouco desajeitado, porque ambos sorriram antes de acabar. Teresa voltou a abrir a porta que já estava a fechar.
«Queres ficar mais um bocadinho?»
«Quero.»
No dia seguinte, saiu cedo para trabalhar na biblioteca. Levou a chave habitual. A outra ficou num envelope sem nome, em cima da bancada. Ainda não a entregou.
Quando regressou, havia um saco de laranjas no patamar. Inteiro, desta vez. Por baixo do saco, um bilhete: «A estante continua a precisar de nós.»


