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Uma história Meia Noite

O bilhete na margem

O bilhete dizia apenas: «A página seguinte é melhor.» Estava dobrado entre duas folhas do livro que Sara requisitara na biblioteca, e ela decidiu que a frase podia ter sido escrita por alguém com um sentido de humor desagradável.

Leonor Vale3 min de leitura Sensual
Livro aberto com um marcador numa biblioteca
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O bilhete dizia apenas: «A página seguinte é melhor.» Estava dobrado entre duas folhas do livro que Sara requisitara na biblioteca, e ela decidiu que a frase podia ter sido escrita por alguém com um sentido de humor desagradável.

A página seguinte era, de facto, melhor. Sara continuou a ler e esqueceu o bilhete durante uma semana. Ao devolver o livro, colocou-o outra vez no mesmo sítio. Acrescentou, no verso: «A anterior também merecia alguma paciência.»

Tinha trinta e dois anos e costumava ir à biblioteca ao sábado. Era ilustradora, trabalhava por encomenda e chegara à conclusão de que precisava de ler coisas que não lhe pedissem uma entrega. Preferia livros usados porque as marcas dos outros lhe retiravam a obrigação de conservar um objeto perfeito.

Duas semanas depois, viu o livro no carrinho das devoluções. O papel ainda estava lá, mas dobrado de outra maneira. A resposta dizia: «Concedo o ponto. A pressa foi minha.»

Sara pegou no livro e sentou-se a ler, embora já soubesse como acabava. Um homem aproximou-se do carrinho, procurou entre as lombadas e olhou para ela. Sorriu antes de conseguir disfarçar.

«Estava à procura deste?»

Ele assentiu. Chamava-se Tiago, tinha trinta e seis anos e restaurava papel. Sara achou a coincidência demasiado arrumada para ser verdadeira e disse-lho. Tiago respondeu que teria escolhido outra profissão para causar uma boa impressão, uma em que não passasse os dias a discutir humidade.

Mostrou-lhe o bilhete. Tiago confirmou que era seu. Não pensara que alguém fosse responder, muito menos contrariá-lo com tanta cortesia. Sara disse que deixara de ser cortês a partir da terceira releitura.

Conversaram em voz baixa até a bibliotecária, já perto da reforma, lhes indicar, com um olhar, que a biblioteca tinha salas onde a conversa fazia menos estragos. Saíram para tomar café. Tiago insistiu em devolver primeiro o livro, porque Sara já o requisitara duas vezes por causa dele.

O café não teve a graça organizada das mensagens. Tiago falava depressa quando estava nervoso. Sara fazia perguntas de que se arrependia antes de ouvir a resposta. Depois de dez minutos difíceis, admitiram ambos que tinham imaginado uma conversa mais fácil.

«No papel pareço mais interessante», disse Tiago.

«Eu pareço menos impaciente.»

A admissão ajudou. Falaram de coisas menos importantes, de sapatos que faziam barulho na biblioteca e de um restaurante cuja sopa sabia sempre ao mesmo legume. Sara começou a achar agradável o modo como ele se interrompia para a ouvir.

No fim, Tiago perguntou se podia convidá-la para jantar. Ela disse que preferia outro café, para não avançarem a história mais depressa do que conseguiam lê-la. Arrependeu-se imediatamente da frase. Tiago riu-se e prometeu não a usar no próximo bilhete.

Houve outro café. Depois um jantar. O primeiro beijo aconteceu à porta de casa de Sara, quando ela se aproximou e ele lhe perguntou se era aquilo que queria. Sara respondeu com um sim muito simples, sem imagem literária nenhuma.

Meses depois, encontraram o livro outra vez na biblioteca. O papel já não estava lá. Sara perguntou a Tiago se devia deixar outro.

Ele abanou a cabeça. A margem pertencia agora a alguém que não conheciam.

Requisitaram um livro diferente, cada um o seu, e foram ler para a mesma mesa.

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