Uma história Meia Noite
A mesa junto ao rio
«Essa mesa está reservada», disse o empregado. Madalena olhou para o restaurante vazio, depois para a chuva do outro lado do vidro, e pediu uma cadeira enquanto esperava que a reserva chegasse.

«Essa mesa está reservada», disse o empregado. Madalena olhou para o restaurante vazio, depois para a chuva do outro lado do vidro, e pediu uma cadeira enquanto esperava que a reserva chegasse.
Viera ao Porto para entregar uma tradução. O cliente cancelara a reunião quando ela já atravessava a ponte. Às nove da noite, estava livre numa cidade onde conhecia duas ruas e uma pessoa que preferia não procurar. Tinha quarenta e três anos e pouca vontade de transformar o contratempo numa aventura.
O empregado trouxe-lhe uma sopa. Madalena pousou o livro ao lado da colher. Na primeira página havia uma dedicatória que já não lhe dizia respeito, embora continuasse a fazer parte do objeto. Pensou em riscá-la. Não riscava livros.
Às nove e vinte, um homem aproximou-se da mesa. Trazia a gola do casaco levantada e uma expressão de quem tinha falhado qualquer coisa que lhe parecia simples.
«A reserva era minha.»
Madalena começou a levantar-se. Ele apontou para a cadeira em frente.
«Pode acabar a sopa. Está a chover de lado.»
«E a pessoa que vinha consigo?»
«Sou só eu. Reservo sempre esta mesa.»
Ela sentou-se outra vez. Não perguntou porquê. Ele também não parecia à espera da pergunta. Chamava-se Duarte, tinha quarenta e sete anos e trabalhava na recuperação de edifícios. Madalena disse que traduzia livros. Deixou de fora os relatórios técnicos, as faturas atrasadas e o romance que não terminava.
Duarte olhou para a lombada.
«Esse ainda não li.»
«Eu li-o três vezes. Uma por trabalho, duas por teimosia.»
«Qual delas correu melhor?»
«A terceira. Já tinha desistido de gostar do protagonista.»
O empregado trouxe bacalhau para Duarte e perguntou se ela queria mais alguma coisa. Madalena pediu o mesmo. O comboio de regresso era às onze e quarenta. Havia tempo para jantar e para se arrepender de estar a jantar com um desconhecido.
A conversa começou pelos edifícios da margem. Duarte apontou um telhado onde trabalhara e explicou que as pessoas imaginavam as obras a partir das fachadas, mas ele se lembrava sempre das cozinhas. Madalena contou-lhe que um tradutor se recordava dos livros pelas frases que não conseguira resolver. Por vezes havia uma frase ainda por resolver dez anos depois da publicação.
«E voltas a procurá-la?»
«Volto.»
Ele aceitou o tratamento por tu sem o anunciar. Madalena notou isso e achou agradável não haver uma cerimónia à volta de cada aproximação.
Quando o telefone vibrou, ela consultou as horas. Uma mensagem do cliente perguntava se podiam encontrar-se na manhã seguinte. Madalena ficou a olhar para o ecrã até Duarte perceber que a resposta precisava de espaço. Ele voltou-se para o rio e comeu mais um pouco.
«Mudança de planos?»
«Ainda não sei.»
Ela escreveu que sim. Depois reservou mais uma noite no hotel. Fez as duas coisas antes de voltar a guardar o telefone. Não queria que um jantar tomasse decisões em seu lugar. A reunião justificava a permanência; o resto ainda lhe pertencia.
Duarte pediu café. Madalena pediu chá e arrependeu-se quando viu a chávena dele.
«Podia ter pedido um café.»
«Ainda podes.»
«Não gosto de trocar decisões pequenas depois de as tomar.»
«Deve ser cansativo.»
Ela riu-se. O comentário era suficientemente insolente para não parecer uma gentileza ensaiada.
Saíram do restaurante às onze. A chuva tinha diminuído, mas o passeio junto ao rio continuava cheio de pequenas poças que refletiam as luzes. Duarte ofereceu-se para a acompanhar até ao hotel. Madalena disse que queria andar um pouco antes. Ele perguntou se podia ir com ela.
Caminharam até perderem de vista o restaurante. Um barco passou devagar, quase sem ruído. Duarte contou por que reservava sempre a mesa: anos antes, após uma operação complicada, tinha saído de uma consulta e sentado ali a almoçar sozinho. O empregado não lhe perguntara se estava à espera de alguém. Desde então, voltava uma vez por mês.
«Não é uma história muito interessante.»
«É a tua mesa. Não precisa de impressionar ninguém.»
Ele olhou para ela. Madalena percebeu que o silêncio que se seguiu não era falta de assunto. Era uma forma de deixar a frase ficar.
Perto do hotel, pararam debaixo de uma pala. Ela viu uma gota de chuva presa na ponta da gola dele e teve vontade de a afastar. Em vez disso, pegou-lhe na mão. Duarte entrelaçou os dedos nos dela.
«Amanhã saio da reunião às quatro», disse Madalena.
«Queres voltar à mesa?»
«Quero ver a cidade. A mesa já conheço.»
Ele prometeu encontrar um percurso que não parecesse uma visita de estudo. Ela prometeu não corrigir o nome das ruas com o mapa do telefone.
Antes de entrar, Madalena beijou-o no rosto. Duarte esperou que ela se afastasse e perguntou se podia dar-lhe outro beijo. Ela aproximou-se de novo. Ficaram alguns instantes debaixo da pala, a chuva a fechar o passeio à volta deles.
No quarto, Madalena pousou o livro sobre a mesa. Abriu-o na dedicatória. Já não pensou em riscá-la.
Virou a página e começou, pela quarta vez, a primeira frase.


