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Uma história Meia Noite

Entre duas estações

A mala de Isabel parecia miar, mas o som vinha do telefone de um desconhecido. Ela passou três estações a tentar perceber como lhe dizer que a gravação estava a assustar os passageiros.

Tomás Reis7 min de leitura Quente
Banco de estação e bagagem numa plataforma, com luz suave ao anoitecer.
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A mala de Isabel parecia miar, mas o som vinha do telefone de um desconhecido. Ela passou três estações a tentar perceber como lhe dizer que a gravação estava a assustar os passageiros.

Quando finalmente falou, o homem tirou um auscultador e pediu desculpa. Estava a ouvir uma mensagem da irmã sobre um gato encontrado num quintal. O auscultador avariado deixava escapar o som. Isabel riu-se, aliviada por não ter de ajudar a libertar um animal da bagagem.

Chamava-se Paulo, tinha quarenta anos e trabalhava como cozinheiro numa unidade de refeições. Isabel tinha trinta e seis e era técnica de manutenção elétrica. Viajavam para cidades diferentes, mas partilhavam uma parte do percurso. Ela regressava de uma formação; ele ia visitar um amigo que o ajudava a preparar uma candidatura profissional.

A conversa começou pela mala. Isabel trazia ferramentas que não queria deixar no suporte longe do lugar. Paulo levava um bolo embrulhado com tanto cuidado que ela pensara tratar-se de uma peça de vidro. Explicou que era um teste de receita. Ela perguntou se o destinatário sabia que fazia parte da experiência. Ele respondeu que a amizade incluía esse tipo de risco.

Falaram até à estação onde Paulo saía. Quando ele se levantou, Isabel sentiu o pequeno desgosto de uma conversa interrompida no melhor momento. Podia pedir-lhe o contacto. Em vez disso, perguntou se o bolo precisava de ajuda para descer. Paulo percebeu a hesitação, ou teve uma semelhante, e escreveu o número no verso de um talão.

«Para eu te contar se sobreviveram à receita.»

Ela guardou o papel no bolso do casaco. Enviou-lhe uma mensagem antes de o comboio voltar a andar. A resposta chegou com uma fotografia da caixa pousada no banco da estação. O bolo estava inteiro. O fotógrafo parecia demasiado contente por uma entrega tão simples.

Durante duas semanas trocaram mensagens. Isabel enviava fotografias de instalações absurdas que podia mostrar sem identificar clientes. Paulo respondia com tentativas de receitas e comentários sobre a paciência necessária para descascar certas coisas. As conversas foram ganhando assuntos pessoais. Ambos viviam sozinhos. Ambos tinham amigos que insistiam em apresentar-lhes pessoas de quem nunca gostavam pelas razões certas.

O segundo encontro foi combinado numa cidade a meio do caminho. Isabel chegou com uma hora de antecedência porque desconfiava de atrasos. Paulo chegou ainda antes, com a mesma justificação. Encontraram-se na bilheteira, surpreendidos e um pouco envergonhados por terem sido tão pouco discretos no entusiasmo.

Passearam sem um plano particularmente bom. O museu que pretendiam visitar estava fechado para montagem. O restaurante indicado por um amigo tinha mudado de nome. Acabaram a almoçar numa pequena casa de refeições onde a ementa vinha escrita num quadro. Isabel gostou de ver Paulo escolher sem transformar cada prato numa avaliação do trabalho alheio.

À tarde começou a chover. Abrigaram-se debaixo de uma arcada, olhando para a água que se acumulava junto ao passeio. Paulo perguntou se ela estava arrependida da viagem. Isabel disse que estava arrependida de não ter trazido um guarda-chuva maior. Ele abriu o seu, demasiado pequeno para ambos, e propôs uma negociação sobre quem molharia mais o ombro.

Voltaram à estação encostados um ao outro. A proximidade tinha uma razão prática que depressa deixou de ser a mais importante. Quando chegaram, Isabel ficou com a mão no braço dele depois de o guarda-chuva fechar. Paulo olhou para o gesto e depois para ela. Perguntou se podia beijá-la. Isabel respondeu que estava à espera que um dos dois deixasse de falar da chuva.

O beijo aconteceu junto a uma máquina de bebidas que fazia um ruído pouco romântico. Mais tarde, ambos se lembrariam desse ruído. Na altura, Isabel reparou apenas na atenção com que Paulo esperou que ela se aproximasse de novo. O anúncio do comboio obrigou-os a separar-se, mas já tinham escolhido uma data para voltar.

Seguiram-se meses de viagens. Conheceram as casas um do outro, as amizades e as rotinas menos interessantes. Isabel descobriu que Paulo deixava todas as luzes acesas. Ele descobriu que ela começava projetos de arrumação à noite e os abandonava quando encontrava um objeto que lhe despertava a curiosidade. A relação passou a ter pequenos desacordos, o que a tornou mais real do que as mensagens perfeitas do início.

Numa sexta-feira, Paulo cancelou a visita demasiado tarde. Tinha aceitado um turno extra sem perceber que não conseguiria chegar ao comboio. Isabel já preparara o jantar. Respondeu com uma mensagem curta e passou a noite a convencer-se de que não estava zangada. No sábado, ele telefonou e perguntou diretamente se estava. A pergunta tirou-lhe a possibilidade de continuar a responder apenas sobre horários.

«Estou. Não pelo turno. Por teres esperado até eu estar à tua espera.»

Paulo ouviu sem tentar resolver a conversa com uma promessa exagerada. Pediu desculpa e explicou o que acontecera. Combinaram avisar mais cedo, mesmo quando o plano ainda pudesse mudar. Isabel admitiu que também precisava de dizer o que sentia antes de transformar uma desilusão numa sentença sobre a relação inteira.

No mês seguinte, foi ela quem falhou uma viagem por causa de uma avaria urgente no trabalho. Telefonou ainda de manhã. Paulo guardou o jantar e perguntou se queria que ele fosse no domingo. A solução pareceu-lhes tão simples que perceberam quanto tempo tinham gasto a imaginar que a distância exigia gestos grandiosos. Muitas vezes exigia apenas uma conversa atempada e um bilhete diferente.

No início do outono, Paulo recebeu uma proposta de trabalho mais perto da cidade de Isabel. Não a aceitou imediatamente. Queria discutir horários e salário, e receava que ela interpretasse a decisão como um pedido para viverem juntos. Isabel agradeceu a clareza. Também queria aproximar-se, mas ainda não tinha vontade de juntar casas.

Visitaram um apartamento para ele numa tarde de sábado. A cozinha era pequena e a janela dava para um pátio com vasos. Paulo começou logo a calcular onde colocaria a mesa. Isabel verificou uma tomada que lhe pareceu solta e depois obrigou-se a parar de trabalhar. Estava ali para conhecer uma possibilidade, não para transformar a visita numa inspeção completa.

Ele aceitou o emprego e arrendou a casa. Na primeira noite, comeram o bolo que tinha desencadeado a conversa no comboio, agora numa versão melhorada. Isabel levou uma garrafa de água, porque ambos se tinham esquecido de comprar bebidas. Riram-se do jantar improvisado e dançaram na cozinha sem música suficiente para justificar os passos.

Ficaram juntos até de manhã, escolhendo a intimidade com a calma de quem já não precisava de medir cada encontro pelo horário de regresso. No domingo, Isabel voltou para casa. Levava uma caixa com duas fatias de bolo e uma chave que Paulo lhe oferecera para as visitas combinadas. Continuavam a ter portas diferentes. A distância entre elas, finalmente, podia ser percorrida a pé.

Meses depois fizeram a mesma viagem de comboio por puro gosto. Sentaram-se em frente um do outro, com um bolo no suporte e os telefones guardados. Quando passaram pela estação onde Paulo saíra da primeira vez, Isabel mostrou-lhe o talão com o número. Ainda o trazia no bolso interior da mala, dobrado no sítio onde começara a perguntar menos ao futuro e mais à pessoa sentada diante de si.

Paulo reconheceu a letra e pediu-lhe que continuasse a guardar o papel.

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