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Uma história Meia Noite

O cais depois da chuva

O barco já tinha partido quando Joana chegou ao cais. Ainda tentou chamar alguém, embora soubesse que uma voz não fazia regressar uma embarcação que se afastava no meio do rio.

Clara Vilar7 min de leitura Sensual
Cais molhado pela chuva, com reflexos de luz vermelha sobre a água ao anoitecer.
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O barco já tinha partido quando Joana chegou ao cais. Ainda tentou chamar alguém, embora soubesse que uma voz não fazia regressar uma embarcação que se afastava no meio do rio.

Atrás dela, um homem pousou uma pasta num banco molhado.

«Se resultar, chama também o meu.»

Joana virou-se, irritada por ter sido vista. O homem não estava a sorrir da sua pressa. Tinha o casaco aberto, uma manga húmida e o ar de quem também perdera alguma coisa que lhe parecia importante cinco minutos antes.

«O próximo demora?»

Ele apontou para o painel. Havia uma indicação de espera e uma luz que piscava sem ajudar ninguém. Joana tinha trinta e cinco anos, trabalhava como ilustradora e fora à margem sul buscar documentos à tipografia. O homem apresentou-se como André, trinta e nove, técnico de som. Precisava de atravessar o rio para levar equipamento a uma sala de espetáculos.

O trabalho já não começaria a horas. Telefonou, explicou o atraso e ouviu uma resposta longa. Joana afastou-se para lhe dar privacidade. Quando ele desligou, a chuva começou de novo, fina, inclinada pelo vento.

Abrigo havia pouco. A cafetaria do terminal fechara e o toldo de uma bilheteira protegia apenas um canto. Joana entrou nesse canto. André ficou de fora até ela dizer que cabiam os dois.

«Não sejas heroico. Vais molhar a pasta.»

«Estou mais preocupado com o que está lá dentro.»

Ele abriu-a para lhe mostrar dois auscultadores antigos e uma caixa pequena. Joana esperava documentos. André explicou que usava aquele equipamento para verificar a acústica de espaços. Gostava mais das salas vazias do que dos espetáculos, porque antes da chegada do público ainda podia ouvir o que estava errado.

«Achas isso uma apresentação razoável de ti?» perguntou ela.

«Fica melhor do que dizer que ouço problemas.»

Joana riu-se. A irritação de ter perdido o barco continuava lá, mas já não precisava de se sentar sobre ela.

Mostrou-lhe as provas de impressão que trazia num tubo. Estava a preparar um livro ilustrado sobre profissões que desapareciam. Havia uma mulher a reparar guarda-chuvas, um homem a fazer letras à mão numa montra e uma oficina de instrumentos onde ela passara três tardes a desenhar sem conseguir escolher uma imagem.

André pediu para ver. Joana desenrolou uma folha, protegendo-a do vento com o braço. Ele não comentou primeiro se era bonita. Perguntou porque a cadeira vazia estava no centro da oficina. Era uma pergunta que ela ainda não conseguira resolver.

«Porque o homem se sentava ali para me contar as histórias.»

«Então estás a desenhar o sítio onde o ouviste.»

Joana voltou a enrolar a folha. Às vezes trabalhava tanto numa imagem que uma observação simples parecia chegar de um lugar ao qual já não sabia voltar.

O painel continuava a piscar. Tinham quarenta minutos pela frente. André perguntou se ela queria ir buscar qualquer coisa à rua. Joana olhou para a chuva e para a pasta. Nenhum estava vestido para um passeio romântico. A ideia, por isso mesmo, pareceu-lhe melhor do que ficar parada a vigiar o tempo.

Encontraram uma mercearia ainda aberta. Compraram água, pão e uma embalagem de queijo. Joana escolheu uma maçã. André levou duas, explicando que uma pessoa que transportava equipamento pesado não podia confiar inteiramente no jantar que talvez encontrasse mais tarde.

Comeram num banco de pedra sob a varanda de um prédio. Não tinham talheres nem conversa preparada. André embrulhou o pão com o papel que a mercearia lhes dera. Joana limpou uma maçã na manga do casaco e lamentou não ter escolhido uma coisa que se pudesse comer sem fazer barulho.

Ele perguntou-lhe se aquele livro era o primeiro. Ela disse que era o primeiro em que não tentava parecer outra ilustradora. Contou-lhe das encomendas que aceitara por receio de ficar sem trabalho e dos meses que passava a executar imagens que ninguém podia reconhecer como suas.

André percebeu. Fazia trabalhos de que não gostava para financiar outros que ainda não lhe davam dinheiro. Não ofereceu uma frase sobre seguir sonhos. Perguntou quanto tempo lhe faltava para terminar o livro.

«Seis semanas. E mais seis, se continuar a refazer tudo.»

«Talvez devas ficar por aqui a perder barcos. Já resolveu uma cadeira.»

A chuva abrandou. Regressaram ao cais sem andar depressa. Joana reparou que já não tinha vontade de chegar antes dele a lado nenhum. Quando o barco entrou no terminal, guardou o tubo com cuidado e deixou André passar para a ajudar a proteger as folhas da água que escorria do toldo.

Sentaram-se perto de uma janela. Durante a viagem, André ouviu uma mensagem no telefone. Um problema na sala tinha sido resolvido por outra pessoa. Já não precisavam dele naquela noite. Devia deixar o equipamento no dia seguinte.

«Então perdeste o barco para nada», disse Joana.

Ele olhou para o embrulho do pão, pousado entre os dois.

«Não exatamente.»

Ela gostou da resposta porque não vinha acompanhada de uma expressão que a obrigasse a corresponder. Joana tinha terminado uma relação no início do ano. Ainda lhe custava reconhecer um convite que não trouxesse, escondida, uma dívida.

André perguntou se podiam trocar contactos. Disse-lhe que queria saber quando o livro estivesse pronto. Acrescentou, depois de uma pausa, que gostava de a voltar a ver antes disso. A segunda frase fez Joana pousar o telefone, já aberto para escrever o número, e olhar para ele.

«Podemos tomar café num dia em que não falte nenhum barco.»

«Isso vai exigir bastante organização.»

Marcaram a sexta-feira seguinte. Quando chegaram à outra margem, saíram juntos do terminal. André tinha de ir para a estação de metro. Joana vivia a vinte minutos a pé. Ficaram diante de uma passadeira a decidir o fim de uma conversa que nenhum queria acabar de forma precipitada.

Ela perguntou se podia acompanhá-lo até à estação. Ele pegou na pasta e deixou-lhe a mão livre. Joana segurou-lha durante o caminho, sem transformar o gesto numa pergunta mais difícil do que precisava de ser.

Na entrada do metro, André inclinou-se um pouco e esperou. Joana beijou-o. Um beijo breve, com o sorriso a chegar antes de se afastarem, porque a pasta tinha batido na perna dela. Ele pediu desculpa ao equipamento, o que a fez rir mais alto do que pretendia.

Nessa noite, Joana voltou à ilustração da oficina. Não mudou a cadeira de lugar. Tirou antes uma sombra que a fazia parecer abandonada. A imagem ganhou espaço. Ao lado do desenho, escreveu uma nota sobre o homem que restaurava instrumentos e os intervalos em que deixava de trabalhar para contar uma história.

André enviou-lhe uma fotografia da segunda maçã. Tinha-a levado para casa e pousado junto ao equipamento. A mensagem dizia apenas que o jantar estava garantido. Joana respondeu que a cadeira também.

Na sexta-feira, encontraram-se num café longe do rio. Estavam ambos a horas. André deixou a pasta em casa. Joana trouxe uma prova nova da ilustração e mostrou-lha antes de pedir a bebida.

Ele olhou para a folha e depois para ela.

«Já não parece vazia.»

Joana guardou o desenho. Fora precisamente por isso que o trouxera. Pediu dois cafés e perguntou a André que problemas tinha ouvido durante a semana. Ele aproximou a cadeira da mesa e começou pelo único que não sabia resolver sozinho: onde poderiam jantar depois dali.

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