Uma história Meia Noite
A oficina das cartas
A primeira carta de Miguel chegou num envelope comprado à pressa, com o preço ainda colado no verso. Beatriz percebeu que ele não sabia escrever cartas antes de chegar à segunda linha.

A primeira carta de Miguel chegou num envelope comprado à pressa, com o preço ainda colado no verso. Beatriz percebeu que ele não sabia escrever cartas antes de chegar à segunda linha.
«Não sei se começo por perguntar como estás ou por explicar porque escolhi papel.»
Ela pousou o envelope junto à máquina de costura. Tinha trinta e oito anos, um ateliê em Viana do Castelo e duas encomendas atrasadas. Miguel, de quarenta e um, restaurava móveis numa oficina a três ruas dali. Tinham-se conhecido numa reunião sobre as lojas vazias do bairro, onde ele passara uma hora a discordar de tudo e os últimos dez minutos a ajudá-la a arrumar cadeiras.
Ela dissera que estava cansada das mensagens interrompidas. Ele respondera que, por acaso, tinha selos. Beatriz tomara a frase por uma tentativa desajeitada de graça. Quatro dias depois, encontrou a carta debaixo da porta.
Miguel contava que guardara a cadeira de uma cliente durante sete anos, porque ela nunca voltara para a buscar. Descrevia a madeira, o encosto partido e a dúvida de lhe telefonar. Não fazia qualquer pergunta a Beatriz. No fim, escrevera: «Se isto parece um orçamento, podes dizer.»
Ela respondeu nessa noite. Falou-lhe de um vestido que uma mulher tinha encomendado para um jantar e nunca usara. A cliente passava pelo ateliê uma vez por mês e perguntava se ainda estava lá. Estava. Beatriz não cobrava armazenamento. Talvez devesse cobrar pelas coisas que as pessoas não se decidiam a levar.
A segunda carta dele tinha uma pergunta: «E tu, o que deixaste por buscar?»
Beatriz demorou uma semana a responder. Durante esse tempo, viu Miguel duas vezes. À primeira, atravessou a rua para lhe entregar uma fita métrica que ele pedira emprestada. À segunda, encontraram-se na padaria e falaram da chuva. Ambos pareciam ter assinado um acordo para não mencionar o papel.
Ela gostou daquele intervalo entre saber o que alguém pensava e ouvir-lhe a voz. Nas cartas, Miguel explicava-se. Na rua, escondia as mãos nos bolsos e fazia perguntas pequenas. Beatriz descobriu que não era a mesma pessoa diante de todos, e isso interessou-lhe mais do que as frases que ele conseguia escrever sem ninguém a olhar.
Respondeu num domingo. Disse que, depois do divórcio, deixara uma mesa na antiga casa. Não queria a mesa. Queria deixar de usar aquela desculpa para lá voltar. Tinha acabado por pedir a um transportador que fosse buscá-la. Agora a mesa ocupava metade da sala e continuava a não gostar dela.
Miguel escreveu apenas uma página. Não a aconselhou a vendê-la, não tentou transformar a mesa num sinal. Contou que também se tinha separado, três anos antes, e que ainda sabia o número de telefone da outra pessoa de cor. Saber uma coisa não obrigava a usá-la.
Na quinta carta, convidou-a para jantar. Escreveu o convite no princípio, para que ela não tivesse de procurar uma intenção escondida entre histórias sobre verniz. Beatriz riu-se sozinha e levou a folha para casa dentro do bolso do casaco.
Aceitou. Escolheu um restaurante onde nunca tinha ido e avisou que preferia pagar a sua parte. Miguel respondeu que isso lhe parecia uma discussão demasiado antecipada sobre uma conta que ainda não existia. Depois acrescentou: «Mas está bem.»
À porta do restaurante, ele tirou um envelope do bolso.
«Trouxeste uma carta?»
«Não. Trouxe coragem. É mais ou menos o mesmo formato.»
Beatriz não soube logo se havia de rir. Miguel abriu o envelope e mostrou dois bilhetes para uma exposição de mobiliário. Tinha-os comprado antes de a convidar para jantar, numa tentativa de organizar a noite em etapas seguras. Agora achava a ideia ridícula.
«Não é ridícula. Mas se o jantar correr mal, vou sozinha à exposição.»
Ele guardou os bilhetes. Já não parecia tão preocupado.
O jantar teve uma primeira meia hora difícil. Beatriz falava demasiado depressa. Miguel respondia a cada pergunta como se tivesse de entregar uma versão definitiva de si mesmo. Discutiram o tempo de cozedura do arroz, um assunto em que nenhum tinha particular autoridade, e ficaram ambos aliviados quando a empregada veio recolher os pratos.
Foi Beatriz quem disse o que os estava a prender.
«Nas cartas não tens de me olhar enquanto pensas.»
«E tu podes apagar uma frase.»
«Posso riscar. Às vezes é melhor que se veja.»
Ele ficou a olhar para ela com a atenção que até ali gastara a escolher as palavras. Beatriz não desviou os olhos. Aos trinta e oito anos, já conhecia o trabalho de parecer descontraída. Naquela noite, estava disposta a prescindir dele.
Saíram sem ir à exposição. Caminharam pelas ruas perto do ateliê, onde as montras apagadas devolviam o reflexo dos dois. Miguel contou-lhe que tinha medo de se tornar numa pessoa que só sabia trabalhar. Ela disse que havia dias em que a oficina lhe parecia a única parte da vida onde ele falava sem pedir desculpa.
«Já me ouviste a falar na oficina?»
«Da rua. Dás ordens bastante claras à lixadeira.»
Ele riu-se. O riso saiu-lhe mais alto do que no restaurante. Beatriz tocou-lhe no braço e manteve a mão ali por um instante, porque queria fazê-lo, sem inventar outra razão.
À porta do ateliê, Miguel perguntou se podia beijá-la. Beatriz respondeu que sim. O beijo foi breve e deixou-os com uma expressão ligeiramente espantada. Não porque fosse inesperado, mas porque ambos tinham gasto semanas a falar à volta de uma coisa que afinal cabia num gesto simples.
«Vou ter de escrever sobre isto?» perguntou ele.
«Não imediatamente. Dá-me pelo menos até amanhã.»
Na manhã seguinte, Beatriz encontrou outra carta. A folha estava quase vazia. Miguel escrevera: «Gostei de te ver sem linhas pelo meio.»
Ela pegou no telefone. Telefonou-lhe enquanto uma cliente experimentava uma saia atrás da cortina. Miguel atendeu com o barulho da oficina ao fundo. Beatriz disse que queria ouvi-lo, e ele desligou a máquina antes de responder.
Começaram a encontrar-se às quartas-feiras. Às vezes jantavam. Outras vezes compravam pão e comiam na oficina, num banco que não tinha sido feito para duas pessoas. Não deixaram de escrever. As cartas passaram a incluir assuntos que tinham ficado a meio na véspera, perguntas que podiam esperar e desacordos que mereciam espaço.
Um mês depois, Beatriz levou a mesa antiga à oficina. Miguel olhou para ela e perguntou o que queria fazer.
«Quero que caiba no ateliê.»
«Posso cortar as pernas.»
«Isso resolve muito pouca coisa.»
Mediram-na em silêncio. Decidiram encurtar o tampo e recuperar a madeira que sobrasse para uma prateleira. Beatriz ficou para ajudar. Tirou o casaco, prendeu o cabelo e ouviu as instruções de Miguel sem aquele receio de aceitar ajuda que costumava disfarçar com pressa.
Quando terminaram, ainda havia serradura no chão. Ele limpou um lugar junto à bancada e colocou ali os envelopes que tinha recebido dela. Não os guardava numa gaveta fechada, como Beatriz imaginara. Estavam presos por uma fita azul, à vista de quem trabalhasse.
«Posso ler a última outra vez?» perguntou-lhe.
Ela aproximou-se e pousou a cabeça no ombro dele.
«Podes. Mas hoje estou aqui.»
Miguel deixou a carta onde estava. Ficaram a olhar para a mesa mais pequena, que já não parecia pertencer a uma casa da qual Beatriz precisava de sair. Mais tarde, antes de fecharem a oficina, ela pediu-lhe uma folha e uma caneta. Escreveu duas linhas, dobrou o papel e entregou-lho.
«Não vais mandar pelo correio?»
«Esta pode chegar depressa.»
Ele abriu-a diante dela. Era um convite para jantar no ateliê, na mesa que tinham acabado de arranjar. Ao fundo da folha, Beatriz acrescentara uma indicação que dispensava selo: «Traz a tua voz.»


